ENTREVISTAS
Ghost
Acupunctura por pressão psicadélica
· 30 Abr 2007 · 08:00 ·
Por influência de reveses históricos de enorme peso, o Japão da segunda metade do século XX passou a ser o país onde, em paralelo a uma reconstrução paisagística, se procedia a uma renovação artística que tinha por base a ruína. Os Ghost, colectivo japonês dado a romarias psicadélicas entre rock e folk mais espiritual, parecem desde sempre abstraídos da modernidade pop que desenvolveu o Japão como antídoto para Hiroshima e, a partir dessa lucidez anciã, recuperam para a sua música o sentimento de que os despojos podem ser barro criativo e curativo nessa aplicação. O último In Stormy Nights volta a deitar por terra as colossais estruturas de Hypnotic Underworld e Snuffbox Immanence e, a partir do impalpável misticismo que paira nas atmosferas ocupadas por Masaki Batoh e aliados, atribui forma a um disco que tem tanto a revelar na divisão em compartimentos como nos conjuntos que esses podem assumir. Numa semana em que a melhor Drag City (label em puro estado de graça) desfila em parada por Lisboa, com noites reservadas a Joanna Newsom na Aula Magna e White Magic no cabaret Maxime, os Ghost cumprem também a sua parte e descem à beira do Tejo, ao Lux na quinta-feira, dia 3 de Maio, e ao Theatro Circo, em Braga, no dia seguinte, para celebrar um baptismo sonoro que promete libertar os presentes do fardo corporal e uni-los em viagem por paragens salubres e prósperas em psicadelismo. O líder quase guru Masaki Batoh trouxe até ao Bodyspace boas vibrações, pistas sobre o processo de In Stormy Nights, uma micro-lição sobre a arte da acupunctura e o testemunho de quem rumou à Península Ibérica à descoberta de si mesmo com apenas 22 anos.
Interrogo-me sobre qual será a abordagem que, ao vivo, conferem a uma faixa tão longa como “Hemicyclic Anthelion” (colossal momento de In Stormy Nights)? Estabelecem previamente algumas coordenadas de referência e terminam num ponto completamente diferente do antecipado? Tenho a certeza de que acaba sempre por revelar algo de inédito...

Exactamente. Não existe uma necessidade de planear ou debater o que seja. Tocamo-la como a sentimos, como se falássemos e nos escutássemos entre nós. Como pode perceber nesta faixa, a improvisação tem merecido um lugar de destaque da nossa parte.

Acho interessante a combinação poderosa que formam “Water Door Yellow Gate” e “Gareki no Toshi” no In Stormy Nights. Funcionam quase como um díptico que tem a sua causa e consequência? Intersectam-se de algum modo?

“Water Door Yellow Gate”, “Gareki no Toshi” e “Caledonia” formam o “Timpani Medley”. Os instrumentos mais comuns nestas faixas são quatro timbales, piano, contrabaixo e guitarra eléctrica. Todos estes foram-se enquadrado na composição de cada um dos padrões minimalistas. Em “Gareko no Toshi”, improvisei a voz durante a sequência mais pesada. Na verdade, estas três faixas são individuais, mas todas se estabelecem na mesma atmosfera comum.

Têm tocado em localizações atípicas ultimamente? Já combinaram o material de In Stormy Nights com diferentes ambientes acústicos?

Grande parte dos concertos que tocamos no Japão decorrem em localizações de características únicas. Templos, edifícios bancários entretanto vazios, garagens de dimensões próprias de construção naval, etc.. O mais importante acerca do lugar acaba por ser as energias características que acumula na sua atmosfera. Por outro lado, adoramos tocar em salas americanas completamente normais.


Parece-me que alguns dos vossos sete polegadas serviam à exploração de paralelos que podiam conhecer extensão. Alguma vez sentiram a sensação de que um desses podia ser um longa-duração?

Não acho que esses discos sejam interessantes. Limitámo-nos a oferecê-los a pequenas labels norte-americanas como presentes.

Parecem sempre determinar escolhas tão perfeitas quanto imprevisíveis quando toca a seleccionar uma cover para inclusão em disco (hábito regular dos Ghost). Essas partem de um gosto individual ou resultam de um consenso desenvolvido durante jams ou debate colectivo?

São todas escolhas minhas. Não tenho interesse em “refazer” da mesma maneira esses temas favoritos antigos. O que procuro fazer é uma “construção destrutiva” que derrube em colapso as músicas que prefiro e as permita nascer de novo. Eu admiro as versões originais dos temas, por isso devo manter a devida distância.

A música psicadélica Japonesa das décadas de 60 e 70 parece-me infinita. Continua a descobrir algo de cativante a essas décadas?

Lamento desiludi-lo, mas nestes últimos 20 anos não tenho escutado música além de alguma clássica.

Entusiasma-o o facto de terem sido convidados para um festival ATP com o cartaz seleccionado pelos fãs? Existem outras bandas que procurará ver?

Apreciamos que nos tenha sido dirigido o convite para actuar no ATP, mas aceitámo-lo independentemente da ocasião. Não é especial para nós. Não estamos interessados ou familiarizados com qualquer negócio da indústria musical. Não costumo assistir a outros concertos.

Sei que em certa altura fez uma viagem por Marrocos, Espanha e Portugal. Que memórias preserva da estadia por cá nessa altura?

Essas são memórias bem recuadas... Andei à boleia por Espanha e Portugal. Visitei o túmulo de (Garcia) Lorca. Foi mesmo depois da era de Franco – não existia suficiente paz e conforto. As pessoas de Portugal foram muito simpáticas comigo. Em Marrocos também estive feliz. Mas como sabe dessa viagem?

Na verdade, tinha lido sobre isto num artigo da revista Wire de Abril de 2004. Fiquei curioso em saber de alguma experiência única vivida por aqui...

Jo! Oiga! Um tipo acordou-me cedo de manhã no Parque Güell, em Barcelona. Estava a dormir ali. Em Ibiza alguém deu-me boleia por me ter confundido com Damo Suzuki dos Can. O tipo que guiava trazia consigo a esposa, que já tinha sido namorada de um membro dos Amon Düül!


Sei que também contribuíram com um tema (uma rendição ao vivo de “Daggma”) para a compilação de beneficiência Not Alone – Medicins Sans Frontiers. Ficou satisfeito com o resultado global dessa experiência?

Já me tinha esquecido disso por completo. Sou um médico especializado em acupunctura actualmente dedicado a arte médica. Por isso, ofereci-lhes essa nossa música.

Sabia que se dedicava à prática de acupunctura e senti-me algo curioso por saber do papel que isso tinha representado no tempo que tomaram as gravações de In Stormy Nights. Manteve activa essa prática à medida que as sessões avançaram? Sentiu que podia de alguma forma contribuir para melhores resultados no álbum que estavam a elaborar?

Apesar de não ter a certeza se todos sabem o que é realmente acupunctura, pode-se dizer que não funciona nas gravações. É uma arte medicinal oriunda do Oriente que utiliza agulhas muito finas e imaculadas. Inserimo-las em pontos de pressão – existem 365 – e, com isso, curam-se doenças. Usamos também umas ervas medicinais chamadas Kampoyaku. Nós, Japoneses, importámos estas artes da China no primeiro século. Desde aí aperfeiçoamo-las. (pausa) A cura e tratamento e a minha música são a mesma coisa. Talvez signifique isso que a música tenha um efeito curativo.

Como avalia a situação actual no Tibete? Sente que as coisas melhoraram desde que, em 1999, lançaram Tune in, Turn On, Free Tibet?

Tem piorado ultimamente. O Governo Chinês construiu uma via férrea que atravessa o Tibete. Muitos Chineses são para aí enviados pelo governo para dominar o povo do Tibete. E o turismo aniquila muitas vidas de gente do Tibete. Manter-me-ei a par de tudo.

O que se pode esperar do vosso concerto em Portugal?

Por favor fechem os olhos e viagem mentalmente com toda a liberdade. Daremos o nosso melhor. Faremos esta viagem apenas para vos ver. Adoramo-vos. Até breve.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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