ENTREVISTAS
Ariel Pink`s Haunted Graffiti
Estranha forma de vida
· 07 Fev 2007 · 08:00 ·
Ariel Marcus Rosenberg (mais conhecido como Ariel Pink) é uma das figuras mais curiosas da pop que nasceu no lado não iluminado pelos holofotes. baseado em Los Angeles, Ariel Pink fez-se recluso durante alguns anos e gravou horas de música, canções profundamente lo fi e com um sentido pop muito acima da média. A Paw Tracks, a editora dos Animal Collective, tirou Ariel Pink da obscuridade e lançou já três dos seus discos (é provável que haja ainda muita música no bau), preparando-se em 2007 para lançar um DVD do artista de Los Angeles. Em 2007 Ariel Pink irá também lançar um novo disco que neste momento já deverá estar gravado e pronto a dar-se a conhecer ao mundo. Antes, em entrevista ao Bodyspace, Ariel Pink, o mestre da pop lo fi luminosa (há até quem lhe atire o epíteto de génio para cima das costas), parte das memórias mais ou menos recentes da sua vida e aborda os momentos e assuntos mais importantes da sua experiência musical. Que é como quem diz que narrou à sua maneira esta estranha e fascinante forma de vida.
Gravaste The Doldrums, o teu primeiro disco lançado, na tua casa em Los Angeles de 1999 a 2000 e de 2001 a 2003. Suponho que esses tenham sido tempos determinantes para ti. Como foram esses dias?

É estranho pensar para trás nesse dias. Não foi assim há tanto tempo, no entanto está demasiado longe para me lembrar. Estava a escrever e a gravar diariamente nesses dias. Gravei todo o The Doldrums aí, excepto uma canção, “Ballad of Bobby Pyn”, de 2003, que eu adicionei ao álbum original quando assinei pela Paw Tracks. Terminei a escola no final de 1999, escapei de Val verde, voltei para LA, aluguei um quarto muito barato numa casa de meditação Ananda Marga, trabalhei ao balcão na Rhino Records e mais tarde trabalhei como assistente de professor na mesma escola de ensino básico em que andei desde os 5 aos 12 anos. Tinha uma namorada na altura e tínhamos uma relação muito stressante. Eu não era um bom namorado, tenho de admitir. Mas eu não estava apaixonado. Não sabia isso na altura – eu pensava que estava. Mas terminamos. Depois comecei a andar com outra rapariga, e por alguma razão, casei com ela poucos meses depois de a conhecer, e depois mudei-me com o meu amigo John Maus, e depois mudei-me com a minha “esposa”. Rapidamente as coisas ficaram feias. Arranjei um trabalho como assistente de artista para a Francesca Gabbiani, que estava grávida na altura. Gravei para cima de 10 álbuns durante este tempo, sem mencionar a vasta maioria de canções que não tiveram casa num álbum propriamente dito.

Como é viver em Los Angeles?

"Life in La - Well, what can I say?". É mais ou menos isto. Já o disse anteriormente. Tivesses tu ouvido a canção…

E ouvi, e ouvi. Continuando na cidade, Forever Changes é muitas vezes apontado como uma banda Sonora perfeita para Los Angeles. Concordas?

Claro. Não vou discutir essa opinião.

Escreves sempre as canções sozinho? Quando tocas ao vivo tens uma banda inteira contigo. Como é que encontraste aquele pessoal para tocar contigo?

Muitas pessoas estiveram na minha banda ao longo dos anos. Ensaio e erro. Não podes forçar a química e é uma sorte quando encontras as pessoas certas. Demorei este tempo todo, mas finalmente acho que tenho a formação correcta. E não, não escrevo sozinho como uma regra. Para falar a verdade, escrevo e gravo com outras pessoas a toda a hora.


Disseste algures que não eras um performer, mas que eras um artista de gravação. Porquê? Quais são as consequências desse facto?

Bem, estou a melhorar como performer, quanto mais o faço. Mas não é o meu forte, francamente. Uma banda bem ensaiada é essencial para conseguir que a coisa ao vivo saia bem – cabe-lhe a eles fazer com que eu pareça bem. De outro modo é um pouco embaraçoso. Por vezes, no momento, não consigo esconder o meu embaraço perante a forma como a música soa, mas isso faz com que as audiências se sintam ainda mais embaraçadas e muito desconfortáveis. O que não é a minha intenção. Gostava que as pessoas gostassem dos concertos tanto ou ainda mais do que os discos. Escrever e gravar é outro saco completamente diferente. Ao contrário da performance ao vivo, sinto-me infinitamente mais confortável a fazer discos, demoro o meu tempo, delineando tudo na privacidade e com tempo, e sem uma audiência em mente, apenas para satisfação pessoal.

Quando eu penso em Ariel Pink um homem atravessa-me o pensamento devido a vários motivos: Jandek. Aprecias o trabalho dele, aprecias a sua relação (ou falta de) com o público e a sua relação (ou falta de) com a sua própria música?

Já fui mais intrigado com a sua mística. Mas musicalmente acho-o um pouco aborrecido… é apenas o meu gosto, creio.

As pessoas tentam relacionar-te de certa forma como outros músicos nascidos em Los Angeles como o Bruce Nauman ou o Frank Zappa. Sentes-te relacionado com eles de alguma forma?

Bem, sou definitivamente um fã de Frank Zappa. Não tenho muito em comum com ele para além disso.

Quando ouço as tuas canções duas coisas são claramente óbvias: o lado mais pop e a estranheza de toda a coisa. Em que “departamento” concentras mais atenção?

A minha mente é um departamento gigante que não tem cortinas a separar uma secção da outra. Falta-me uma voz definida: não sinto que tenho muito a expressar como pessoa e ou algo a dizer além de “isto é música” [diz com intensidade] e “isto é música que eu fiz” [volta a dizer com intensidade]. Por isso tenho a urgência de fazer música, mas estou inseguro da pessoa a fazer música. Que tipo de rosto ele tem, que tipo de atitude? Tento diferentes abordagens e eventualmente assento em alguma coisa, sem ser muito crítico. Eu confio na minha intuição.

Uma das características mais visíveis do teu trabalho é a baixa fidelidade das tuas gravações. Acho que a maior parte das pessoas (se não toda a gente) esperam que nunca mudes nesse aspecto. Aceitarias melhores condições de gravação se te fossem oferecidas ou crês que o lo fi é realmente uma vantagem para ti e que não conseguirias fazer isto de outra forma?

Não, eu gostava definitivamente de ter melhor equipamento de som. Isso não é dizer muito no entanto – não quero certamente soar como qualquer outro artistas ou banda actual que anda por aí.

Antes de seres encontrado pelos Animal Collective lançavas a tua música em CD-Rs. Presumo que tomavas conta de tudo, incluindo o artwork

Correcto.


Como é que aconteceu realmente a tua ligação com a Paw Tracks, a editora dos Animal Collective? Sentiste alguma pressão inicial quando se deu essa aliança? Afinal de contas, The Doldrums foi o primeiro lançamento da Paw Tracks não-Animal Collective…

Não houve pressão de forma alguma. Fiquei agradavelmente surpreendido e lisonjeado que eles gostassem da minha música o suficiente para a editar. De novo, eu não fazia a mínima ideia que eles tinham uma editora, por isso quando lhes entreguei o meu CD na altura em que os conheci, não tinhas quaisquer expectativas. Na verdade, presumi que o CD ia acabar como lixo no chão do autocarro da digressão antes de terem sequer a oportunidade de o ouvir, tendo em conta todos os CDs que eles recebem noite após noite.

Acredito que a tua música tem algumas semelhanças com a música dos Animal Collective: a forma como ambos criam música pop de formas pouco usuais e inovadoras, toda o imaginário infantil nas letras… concordas com isto?

Não, mas não tem importância, pois não?

Quase todos os textos que leio acerca de ti referem algures a palavra génio. Quais são os teus génios musicais?

Não sou um génio de nenhuma forma. Sou de inteligência média, creio eu. Mas eu gosto de ser criativo tantas vezes quando possível. É mais uma compulsão, um medo de não ter nada para viver para, isso estimula a minha criatividade. Apenas continuo a faze-lo independentemente de quão maus forem os resultados. Tenho dias maus e tenho dias melhores. Mas é tudo parte de uma prática, creio eu. Tento melhorar as minhas capacidades como tocador, produtor e escritor mas nem sempre consigo.

Também se diz que existe uma espécie de pequeno culto de pessoas nos Estados Unidos que realmente te apoia. Como reages a isso?

Bem, tudo o que eu sei é aquilo que eu leio e aquilo que as pessoas me dizem. Se há um clube de fãs ou uma página de fãs online eu não tenho conhecimento disso. Até por ser ligeiramente não desconhecido já me sinto satisfeitíssimo com essa pequena atenção que eu recebi. É um sentimento muito estranho, pensar que estranhos estão a ouvir e a apreciar bastante a minha música. Não dou prioridade e essa opinião no entanto. Simplesmente não sei o que é o típico fã de Ariel Pink.

De onde vem essa sensibilidade pop? É um caso de “diz-me o que ouviste e eu digo-te o que é que estás a escrever?”. Tiveste uma colecção de discos generosa quando começaste a ouvir música?

Sim. Tenho uma obsessão com o rock ‘n’ roll e com todas as outras formas de música desde que me lembro. Eu cresci nos 80s e fui treinado na MTV. Mais tarde trabalhei em muitas lojas de discos em LA, e isso é uma verdadeira educação.

Há dois anos atrás estiveste em digressão pela Europa e tocaste em Portugal. Como é que foi a digressão e esses dias que passaste em Portugal?

Foi óptimo! Mal me consigo lembrar, parece que foi há tanto tempo. Vigo, Lisboa e Porto, é? Tocou o ultimo espectáculo o Noah Lennox, aka, Panda Bear, em Lisboa. Já vínhamos em digressão há algumas semanas e ele vive em Lisboa por isso ele ficou atrás enquanto eu seguia. Tudo em Portugal foi óptimo, faz-me lembrar a Califórnia um pouco, a forma e o tamanho e o tempo. A outra costa oeste.

Todos dizem que quando ouvem a tua música são levados para os anos 60 e 70. Para onde os levarias exactamente. Gostavas de ter vivido nos anos 70?

Eu estava vivo nos 70s! Nasci em 1978. Por isso eu estava lá, pá, ao contrário da maioria das bandas que se ouvem hoje em dia. Mas se fosse de todo possível voltar atrás no tempo, eu aceitaria. Quantum leap!
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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