ENTREVISTAS
Stowaways
Fellini para principiantes
· 09 Dez 2006 · 08:00 ·
© Carlos Pinheiro
Hunt Club é o álbum que se esperava depois do disco em conjunto com os Alla Polacca, editado em 2003, após uma vitória no Termómetro Unplugged dois anos antes. Neste novo disco os Stowaways levam a sua música e as suas influências um passo adiante. Chamaram-lhe Fellini para principiantes, a música que vai beber influências em locais distintos e inesperados: a bossa nova, música mariachi, Paris, folk, Roma. O resultado da curiosa mescla é uma saudável viagem de carrossel. Do primeiro para o segundo disco nota-se nos Stowaways não só o cair de algumas similaridades mais directas com algumas bandas (como os Radiohead, a quem foram comparados quando tudo começou), como também o cimentar seguro de uma personalidade mais própria e forte. Em entrevista, Nuno Sousa, senhor da voz e da guitarra acústica, aborda tudo o que de importante acontece entre 2001 e 2006 no seio da banda de Matosinhos.
O que se recordam dos tempos em que venceram o Termómetro Unplugged em 2001? O que é que essa vitória fez pela banda na prática?

Bem, a vitória possibilitou que gravássemos duas canções com o Mário Barreiros e, mais tarde, a edição do nosso disco com os Alla Polacca. Além disso, fez com que saíssemos um pouco do buraco. Nessa altura não tínhamos experiência de palco nenhuma, no nosso segundo concerto enquanto Stowaways tocámos no teatro Sá da Bandeira em frente de centenas de pessoas e estávamos assustadíssimos...

Vendo-o agora com a distância necessária, o que é que acham do trabalho no split com os Alla Polacca?

É o nosso primeiro disco, foi uma experiência muito enriquecedora. Tínhamos uma vontade enorme de o fazer e tínhamos de nos “livrar” daquelas canções que já andavam às nossas costas há algum tempo. Analisando agora, é claro que tem muitos indicadores de “ingenuidade”, mas também acho que é isso que lhe confere energia.

No press release de Hunt Club diz-se que foram buscar a inspiração a “música anónima depositada essencialmente em CD-R’s não identificados”. O que é que isso quer dizer na prática?

Pois...o press release... [tosse]... hmmm... pediram-me para escrever um texto sobre a banda e o disco, uma suposta “visão externa” e sintética sobre nós e isso é muito difícil de fazer. Acabei por escrevê-lo ás 4 da manhã para enviar (sem falta) no dia seguinte e não consegui evitar escrever algumas balelas. O texto, no entanto, era um pouco extenso e a editora optou por aproveitar algumas frases... Quando me referi a “música anónima” queria, no fundo, evitar falar sobre aquelas coisas que muita gente pergunta, como por exemplo – “Quais são as vossas influências?” ou “Aonde foram buscar a inspiração?”. A questão dos CD-Rs não identificados é mesmo verdade, no entanto. Ultimamente tenho comprado poucos discos e quando gravo nunca tenho uma caneta para apontar o nome do autor ou do disco ou o título das músicas, nem tenho caixas onde os guardar e fica tudo empilhado na escrivaninha do quarto ou nas caixas erradas. Quantas vezes dou por mim a encontrar um CD-R anónimo do Neil Young guardado na caixa dos Ornatos Violeta ou acontece até passar meses inteiros a ouvir um disco de uma banda americana qualquer dos anos 70 e descobrir mais tarde que a dita cuja é italiana e saiu na página de crítica musical da Cosmopolitan do ano de 2004.

© Carlos Pinheiro

Como vêm os dois discos que lançaram até hoje, em termos de diferenças e similaridades? Acham que o primeiro disco é muito distinto deste Hunt Club?

Acho que se consegue perceber que são os dois feitos pela mesma banda e que Huntclub é posterior a Why Not You. No entanto, Huntclub é mais denso que o outro. É também um disco que foi gravado inteiramente por nós no espaço de um ano e isso trouxe algumas vantagens em relação ao primeiro. Tivemos mais tempo para pensar as canções, mais calma. A gravação foi muito “cházinho e bolachinhas”. No primeiro estávamos muito mais nervosos e inseguros.

Também se fala bastante em Fellini. Acham que esse imaginário atravessa a vossa música. E porquê Fellini para principiantes?

O “Fellini para principiantes” é uma das descrições arrancadas à pressa por mim no tal texto escrito à força... Quando um músico tenta descrever a sua própria música, cai na redundância. O resto é sentido do humor. É como explicar o título de um livro ou de um filme ou poema. O título não é para ser explicado, mas “explica”, sendo que o que é explicado não necessita necessariamente de ser entendido. Quanto ao imaginário dos filmes do Fellini atravessar a nossa música... [pensativo] se calhar, nós é que o atravessamos a ele... espero é que não fique connosco “atravessado”.

Desta vez quiseram deixar quase tudo da vossa responsabilidade, desde o artwork do disco, a meias com o Carlos Pinheiro, à produção da música propriamente dita. Desejavam esse controlo desde há muito tempo?

Nós sempre tivemos esse controlo. E não existe outra possibilidade. Só podemos fazer as coisas dessa maneira.

© Carlos Pinheiro

O artwork e as fotos promocionais parecem indicar que criaram um novo espaço imaginário para a banda, que existe uma certa distância entre aquilo que são como Stowaways e aquilo que são na realidade. Concordas?

Concordo. Quer dizer, a distância que referes existe sempre, quer se tenha consciência dela ou não. No nosso caso, o trabalho gráfico ajuda-nos a compor e a dar corpo ao nosso trabalho (e a aumentar a tal distância também). Tornou-se mais fácil pensar no disco a partir do momento em que o Carlos nos mostrou a capa que tinha feito. As imagens já andavam na nossa cabeça há algum tempo, mas existe uma distância entre “ter as coisas na cabeça” e tê-las resolvidas e sintetizadas numa imagem.

A que se deve a mudança da Bor Land para a Transformadores? Como se sentem na nova editora?

Não houve propriamente uma mudança de editora. A nossa ligação com a Bor land foi exclusiva para aquele disco, nunca existiu uma espécie de contrato. No panorama das edições “independentes” as coisas são realmente “independentes”. Acabámos por editar este disco pela Transformadores porque surgiu essa possibilidade e era a melhor para nós. No entanto as coisas não mudaram assim tanto... O investimento para este disco foi praticamente igual ao do primeiro.

Estrearam há pouco tempo o novo disco na Tertúlia Castelense, na Maia. Como correu essa apresentação para vocês?

Acho que correu bem, quer dizer, estávamos muito nervosos e já não tocávamos ao vivo há muito tempo... mas foi simpático. Estavam muitos amigos nossos e o sítio resulta na perfeição para um concerto nosso. Foi também a primeira oportunidade de experimentar a maior parte das canções do Huntclub ao vivo.

Como explicam o sucesso de “Amputated Leg”? Qual é a vossa relação com esse tema?

O sucesso? Não foi assim tanto... é uma canção simpática... já chegamos a estar fartos dela e odiar tocá-la, mas isso passou-nos. Foi das primeiras canções que fizemos enquanto Stowaways e na altura ficamos muito contentes por tê-la composto.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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