ENTREVISTAS
Samuel Jerónimo
O Poema e o ritmo
· 21 Nov 2006 · 08:00 ·
Como não poderia deixar de ser, Rima, com edição da Thisco, caiu no calendário de lançamentos nacionais como uma pedra num charco. As coordenadas avançadas pelo alcobacence Samuel Jerónimo, de regresso dois anos depois a edição de Redra Ändra Endre De Fase, são as de quem conhece a música clássica, a composição contemporânea e o rock progressivo bem de perto, influências e áreas de interesse que se manifestam sobremaneira neste novo disco. Como se pode ver na entrevista que se segue, Samuel Jerónimo é um profundo conhecedor das áreas que pisa, o que faz com que a audição de Rima seja tão coerente como interessante. Conversou-se sobre música e sobre o que gravita em redor da mesma.
Rima reveste-te de um conceito especial, tanto quanto eu sei. O que é que nos podes contar acerca disso?

De facto, esta peça rege-se por um conceito principal, uma ideia que passa pela sobreposição de épocas e estéticas distintas, pelo conflito criativo existente entre as três dimensões temporais que nós, ocidentais, teimamos em dividir. Existe ainda a apropriação por parte da estrutura musical da obra, da estrutura de uma rima cruzada, facto que lhe justifica o nome. Assim sendo, Rima pode ser descrito como uma quadra musical com rima perfeita. A ideia é arriscada. O contraste é sempre a opção mais difícil. Talvez tenha sido por isso mesmo que optei por escrever três peças diferentes, e só depois escolhi a final. Senti bem a perigosidade do passo. Gostei da ideia e da peça, mas não era por causa disso que estava mais descansado na altura da sua estreia. Depois existem outras ideias subjacentes. Aliás gosto de pensar que a ideia principal não é mais do que um enquadramento. É preciso cartografar a música, dar algumas pistas a quem nela se decida aventurar. Existe uma outra ideia, um outro conceito se o quisermos assim chamar, que passa pela ligação desta peça à minha “Trilogia da Mudança”. Se no Redra Ändra Endre De Fase, de 2004, o conceito passava pela análise da mudança enquanto algo que se desenvolve por intermédio de processos, em “Rima” a mudança é vista enquanto algo que envolve a perda. A trilogia irá ficar completa em “Ronda”, peça que irá ilustrar os ganhos da mudança.

Em termos práticos, como te preparaste para a gravação deste disco, em termos de instrumentos, locais de gravação, e todas essas coisas?

Antes de mais nada tive de ir aprender mais sobre electroacústica. Sabia o que queria, apenas não sabia como lá chegar. Isto aconteceu em 2004. O Redra Ändra Endre De Fase tinha saído há pouco tempo quando pus mãos à obra. Comecei a coleccionar sons, retalhos sonoros de experiências mais ou menos bem sucedidas. Gravava tudo, desde telefones a tocar até vendedores de rua. Fiz testes de eco e experiências com amplificadores modificados. Tentei procurar todos os tons de cinzento que um som poderia ter entre o branco e o negro. Mas tarde coloquei todos esses sons na tábua. Cortei-os com o cutelo e juntei-lhe condimentos a gosto. Em relação aos movimentos acústicos, estes passaram por duas etapas. Comecei por procurar um quarteto de cordas que os pudesse executar convenientemente. Operação fracassada. A afinação das cordas sem trastos está, em grande parte, nos dedos de quem as toca. São pormenores que demoram anos a aprimorar. Quando estamos a trabalhar com um naipe tão reduzido, cada músico conta e ninguém consegue tapar uma ou outra coisa ao lado. Pus de parte o quarteto de cordas. Agarrei-me às partituras e reescrevi tudo para dois instrumentos de tecla. Depois foi só levar para o Pod Studio, onde gravámos os órgãos que se ouvem no álbum.

Porquê deixar a guitarra mais uma vez de fora, se tens formação no instrumento? É fácil deixar a guitarra de fora dos teus discos?

É uma pergunta bastante pertinente. A guitarra surge na minha vida um bocado por via das circunstâncias. Desde muito novo que me interesso por música. Comecei a comprar discos com sete anos e a “fabricar” instrumentos aos cinco/seis. Lá dei o passo para um instrumento a sério. O aparecimento da guitarra na minha vida foi bastante prosaico. Era o instrumento mais interessante que os meus pais podiam comprar. As aulas também eram relativamente baratas. Comecei-me a afeiçoar ao instrumento e a conhecer a sua natureza: é, por ventura, o instrumento mais fácil de tocar mal e mais difícil de tocar bem. Entretanto, à medida que a idade ia avançando, fui dividindo o meu tempo entre as aulas de música, as aulas do secundário e alguns empregos que me proporcionavam algum dinheiro para comprar instrumentos e partituras, pagar aulas e comprar discos. Fiz de tudo, desde trabalhar na lavoura até servir de assistente a uma madame vidente. Pude então aprender a tocar outros instrumentos. A guitarra era uma coisa mais séria. Tinha-lhe e continuo a ter um amor desmesurado, sendo talvez essa a razão principal pela qual ainda não fiz um álbum de ou com guitarras. A minha técnica não faz justiça ao instrumento.

Em termos de conceitos estéticos, Rima é influenciado pela música clássica, pela composição contemporânea e até pelo rock progressivo, que tanto quanto eu sei é uma paixão especial tua. Como se gerem estas influências num disco que, imagino, pretendes que seja de certa forma vanguardista?

Não existe qualquer problema em combinar várias coisas das quais se gosta, desde que o resultado final seja coeso. É aí que entra o lado da composição de um disco. É isso que faz da escrita musical, um acto, por vezes tão penoso e ao mesmo tempo tão empolgante. É acima de tudo um desafio. É algo que nos leva à introspecção e ao auto-conhecimento. Por outro lado também é preciso ter em conta que em muitos dos subgéneros da música progressiva, a fusão é a palavra de ordem. Assim sendo, o que tu separas na tua pergunta, está junto desde o final da década de sessenta. Não existe portanto qualquer tipo de vanguarda naquilo que faço e nem me preocupo como isso. A vanguarda pela vanguarda é uma tolice. Vamos acabar por fazer música para máquinas. O meu “eu compositor” nasce sobretudo do meu “eu ouvinte”, ou seja, acima de tudo gosto de ouvir música e se faço discos é para os ouvir com prazer. Não me interessa a integração na história da música. Deixo isso para pessoas que trabalharam mais do que eu ou para todas as outras que tiveram a sorte - será apenas ou simplesmente sorte? - de ter, a dado momento, uma ideia genial.


Como vês neste momento o teu disco anterior, Redra Ändra Endre De Fase, comparado com este novo filho? Passaram-se dois anos, como registas a tua própria evolução?

Por mais que o não quisesse, esse exercício de confrontação acabou por acontecer. O Peter Gabriel teve uma ideia interessante. Ao não atribuir uma designação aos seus primeiros quatro álbuns - acabaram por receber alcunhas e, em algumas edições, o quarto álbum aparece com a designação “Security” - conseguiu criar uma certa noção de continuidade. São como diferentes números de uma mesma publicação (o grafismo das capas assim o sugere). Espero criar algo de parecido nos meus álbuns. Jamais irei passar pela negação de um trabalho anterior para promover um outro acabado de sair - desta vez é que é/este é o meu melhor álbum/é um álbum mais maduro) A comparação entre o Redra Ändra Endre De Fase o Rima e outros que poderão vir a seguir, passará sempre pelas temáticas escolhidas e tratadas e pelos objectivos propostos que procurei atingir. Nesse campo, espero que cada disco meu seja uma afirmação final sobre determinada coisa - ideia, estética, etc.. Não pretendo voltar ao Redra Ändra Endre De Fase. Não pretendo voltar ao Rima. Estão feitos e agora há que avançar em direcção a outros territórios que ficaram por explorar. Tenho ideias com mais de dez anos que ainda não explorei. É isso que me interessa neste momento. Se não tiver mais nada para dizer, deixarei de fazer discos. Não me interessa fazer coisas que sinta como não válidas. Não me interessa ocupar espaço nas prateleiras com esse tipo de trabalho. Haverão outros que, nesse caso, o ocuparão de direito.

Como achas que o ‘mercado’ discográfico nacional recebeu o teu disco? Que tipo de feedback tens recebido?

Tenho tido alguma - muita - sorte nesse aspecto. O precioso destaque dado pelos média tem estimulado as vendas. O Redra Ändra Endre De Fase deu algum lucro e o Rima promete resultados ainda melhores. Visto que cada disco me sai do bolso, o resultado financeiro de cada operação - leia-se disco - é extremamente importante, uma vez que é através dele que o processo de gravação e edição de discos se revitaliza. Quanto mais lucro tiver numa edição, mais posso investir na próxima. Ao nível da crítica, também tenho tido sucesso. É importante chegar a alguns “opinion makers” e muito bom sentir que estes fazem uma análise de tal forma bem feita, que chego por vezes a pensar que conhecem melhor os meus discos do que eu. Existe também a outra critica. Falo do feedback que chega até mim por e-mail ou ainda quando as pessoas conversam comigo nas apresentações do disco. Gosto muito disso, de conhecer outras perspectivas sobre um objecto comum. É também bom sentir que existe um público para a minha música – de outra forma, a actividade editorial não se justificava.

Como te preparas para a apresentação de Rima ao vivo?

As apresentações ao vivo são sempre difíceis por várias razões. É difícil arranjar sítios íntimos para apresentar a minha música – detesto quase tudo o que tem a ver com centros comerciais e outros locais normalizados. A música não é só escutar. Precisa de uma ambiência específica sob o risco do público não perceber ou de não ligar nenhuma à apresentação. Existe ainda o problema de eu não ser músico. No estúdio é fácil resolver esta situação. Pode-se voltar atrás, colar trechos, etc. No palco, o risco - essa coisa fantástica - está sempre presente e é acrescido pelo facto de não dominar a maior parte dos instrumentos para os quais escrevo. Deixo portanto a execução das minhas peças para quem sabe. Eu continuo a preferir os actos da escrita e produção. É isso que me dá gozo – além de ouvir coisas feitas por outras pessoas. Surpreendo-me todos os meses com a música que se faz actualmente. Isto dito após séculos de história, onde tudo já foi feito várias vezes e por várias pessoas, é obra!

A tua relação com a música, tal como músico, como ouvinte, parece-me a de um estudioso. É assim que te relacionas com a música?

Consigo tirar mais prazer enquanto ouvinte, do que enquanto músico. Aliás a actividade enquanto músico surgiu por gostar muito de ouvir. Eu fui para a composição. Há quem siga a critica, o jornalismo ou a colecção desmesurada (esses loucos). O estudo surge apenas para me situar no tempo e no espaço. É claro que para isso não basta saber quem é quem e quem fez o quê. É preciso escavar mais fundo. Recorro a várias fontes nas minhas pesquisas. Leio documentos tais como cartas, criticas, crónicas e comunicados que tenham a ver com o autor e/ou peça que ando a estudar. Normalmente vou também à procura de factos históricos para tentar perceber como era o mundo em geral ou o mundo onde se insere essa obra. Gosto ainda, se a obra não for portuguesa, de fazer a comparação entre culturas. É interessante reparar que artisticamente, Portugal está ao lado, em muitas coisas, dos países aos quais associamos mais facilmente a ideia de acarinharem as artes. Agora, isto não parte, nem nunca partiu do poder instituído. Daí apenas vem a pressão que alimenta o processo de estupidificação da população. O que eles ainda não perceberam é que essa estupidificação custa dinheiro. Um plano tecnológico numa sociedade onde a cultura apenas chega a alguns, não passa de uma operação de cosmética. Exigem-se resultados, mas negam-se as bases. Tudo isto acaba por ser um espelho do mundo em que vivemos; um mundo que despreza o material de que é feito. Ora a minha relação com a música passa exactamente por aí. É através dela que me relaciono com o mundo e não é por acaso que o tema da mudança me é tão caro. Se quiseres até lhe podes chamar pós-punk, ou não.

A constante comparação de Rima com um poema lembra-me… a que poema ‘real’ assemelharias o teu disco?

Resposta evidente: “One Art” da Elizabeth Bishop. Um poema sobre a perda.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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