ENTREVISTAS
Holy Smokes
(Prog)ramações esfumaçadas e (beat)ificações pixeladas
· 03 Nov 2006 · 08:00 ·
Percorre actualmente o sentido inverso o pêndulo que há 30 anos virou costas ao virtuosismo do rock progressivo para, por oposição, instalar as condições favoráveis a uma geração de inconformados, em que se verificava maior vontade de fazer música do que propriamente talento e aptidão para isso. Leva tal recuo a que, na ressaca do novo punk e hardcore que inflamou (com efeitos variáveis) ambas as costas dos Estados supostamente Unidos, tenha vindo a emergir desde há algum tempo toda uma série de nomes que, sem abdicarem do direito à complexidade na sua abordagem à música, mantêm incorruptível o mesmo modo D.I.Y. – “faça você mesmo” - de operar que, na transição de 70 para 80, democratizou a música (para entender a sua actualização, bastará a análise transversal dos catálogos da Load e Skin Graft). Passou a ser legitimamente punk ambicionar a dimensão dos discos dos Yes e King Crimson, sem que isso implique desvirtuar um sentido pop ou um corte absoluto com o entretenimento – e, por favor, poupem os Mars Volta da perseguição que os vitima desde Frances, the Mute.

A prova viva dessa tomada de posse do prog, por parte de uma renegada América nerd e “contra-culta”, pode até ser Carson McWhirter, baixista de uns alucinantes Advantage que contam já com dois álbuns exclusivamente dedicados a apropriações descomplexadamente prog (lá está) de músicas de jogos Nintendo (clássicos como Duck Tales e Bubble Bobble não são esquecidos). Inserido nuns Holy Smokes, cuja reincidência ruidosa se pode escutar ao novo Talk to Your Kids About Gangs, Carson passa a ser a multiplicação do seu próprio fulgor – do baixo aos samples - e guerreiro pronto a batalhar ao lado do fabuloso Zach Hill (Hella) nas cruzadas que os levam em busca da melodia soterrada num terreno fértil em demência. Atendendo a essa dupla vida que leva Carson, a entrevista que segue resultou num híbrido. Esse que se bifurca perante ambas as existências criativas de alguém que ocupa um lugar de destaque no que de mais estimulante vai surgindo a partir de uma Califórnia que já olha para a cultura 8-bits como um motivo pós-modernista.
Comecemos pelos Holy Sons. Planeiam levar este novo disco em digressão? Acreditas que seria um trabalho aplicável a um cenário ao vivo?

Não falámos numa possível digressão para este disco de Holy Smokes, mas o Zach é capaz de ter uma na manga. Eu gostei dos poucos concertos que tocámos em suporte do primeiro disco (Masculine Drugs). Julgo que muito facilmente poderíamos transferir estas músicas para concerto. Seria uma questão de ensaiarmos e conjugar os calendários.

Atendendo a que todas as composições se encontram especificamente creditadas, posso partir do princípio que cada uma resultou das intervenções somadas aos que a assinaram, ou contribuíste com ideias e dicas técnicas para outras que nem sequer mencionam o teu nome?

Os créditos num projecto como este estão sempre sujeitos à fiabilidade da nossa memória. É difícil ser concreto. Fiz um pouco mais em algumas e um pouco menos em tantas outras. Não estive envolvido em todo o processo de mistura, mas também intervim nesse. Acho que o J.R. Thompson teve um brilhante desempenho técnico na feitura deste disco. Resultou mesmo bem.

Sei que contribuíste com alguns samples para este álbum de Holy Smokes. De que forma esses encontraram lugar no disco? Terá acontecido sentires que uma faixa quase completa necessitava dos samples ou possuías previamente essas texturas que, por acaso, vieram a enquadrar-se perfeitamente em “No Dice”?

Não sei ao certo. Parte do sampling foi feito durante uma gravação que eu e o Zach fizemos junto a um rio com duas boomboxes. Mais tarde, transferi-a para o meu computador e efectuei alguma mistura e edição. Uma grande quantidade dessa foi utilizada em várias faixas de Holy Smokes, tal como noutros trabalhos.

Em comparação com Masculine Drugs, este parece um disco mais orientado para o formato canção. Isso partiu de uma tendência consensualmente natural ou alguém teve um papel mais preponderante na adopção desse formato mais típico?

Creio que era um desejo colectivo tentar fazer deste um disco mais sólido e, de certo modo, catchy, sem deixar de ser verdadeiro face ao seu mundo paralelamente bizarro. Acabou por tomar esse rumo. Não sei se alguma vez debatemos qualquer direcção específica a tomar.

Masculine Drugs mantinha aquela aliança conceptual ao livro que o Zach fez. Este parece-te conceptualmente associado a alguma coisa?

Espero que os discos que fazemos estejam ligados a qualquer coisa. Sei o que o disco no seu todo representa para mim, mas imagino que o Zach e o Dan (Elkan), que escreveram as letras apropriadas ao tema, tenham uma ideia ligeiramente diferente. Ou talvez não. Talvez a ideia possa mesmo ser comum a todos.

És capaz de apontar as principais diferenças adoptadas pelo Zach na aproximação aos Hella e aos Holy Smokes?

Sim, são situações distintas. O Zach aborda cada um dos seus projectos de forma diferente – na verdade, varia até entre cada disco dos Hella. Pessoalmente, os discos de Hella e Holy Smokes parecem-me equivalentemente abstractos, mas tão diferentes quanto M.C. Escher e Paul Klee (ambos ilustradores).

Neste caso específico, é inevitável pressupor que se desafiaram mutuamente para obter melhores resultados durante as sessões. Sentis-te inspirado ou provocado pelos outros membros durante as gravações de Talk to Your Kids About Gangs?

Inspirado, sim. Desafiado, também. Vivemos alguns dias de intensa adaptação, enquanto outros fluíram sem parar. Acho que o encaixe gerou um bom trabalho. É porreiro colaborar com gente que me obriga a pensar e que cria partes em guitarra que nem sequer eu entendo plenamente.

Qual o melhor momento que preservas do teu contacto com a música dos Flying Luttenbachers (colectivo que conta com Jonathan Hischke, que também faz parte dos Holy Smokes)?

[risos] Essa é uma questão interessante. Quando conheci o Jonathan, nunca tinha sequer escutado Flying Luttenbachers. Só tenho um dos seus discos agora... Sei da gravidade desta minha lacuna. Ouvi dizer que o último (Cataclysm) é muito bom. Só os vi ao vivo uma vez e cheguei atrasado, daí que também não tenha um concerto favorito. Posso dizer que, actualmente, não serei fã de Flying Luttenbachers, mas sinto que posso vir a apreciar mais os seus discos e eventualmente assistir a alguns dos seus concertos.

Falemos agora um pouco sobre The Advantage. Existe algum material já pronto que seja posterior a Elf-Titled? Em que ponto se encontram agora?

Gravámos oito músicas para um disco da nossa digressão de 2006 intitulado Underwear: so big. Creio que poderá vir a ser lançado no Japão. Acabámos de chegar de uma digressão pela Japão que foi fantástica. Não sei ao certo o que nos reserva o futuro. O Spencer (Seim) e eu dedicaremos os próximos tempos aos Hella. No próximo ano, é provável que os Advantage comecem a ensaiar novo material e a planear um suposto terceiro disco, mas, por agora, não pensamos sequer nisso.

A solidez do Elf-Title contribuiu muito para que os Advantage superassem aquela ideia de serem apenas uma novelty. Sentes que as pessoas já se convenceram de que continuarão a lançar discos? Que qualidades te parecem mais apetecíveis de serem exploradas com vista a manter a frescura das versões Nintendo?

Acho que o Elf-Titled era um convincente disco de rock. Os Advantage proporcionam a oportunidade de tentarmos diferentes técnicas de gravação. Underwear: so big! inclui as mais estranhas até à data. Fiquei satisfeito com o resultado. Não sei qual será a base do próximo disco. Ninguém faz ideia de quais serão as nossas preferências musicais por essa altura. Eu gostaria de adaptar uma música Nintendo ao ponto de se tornar numa música de Magma ou numa qualquer outra de prog dos anos 70. Ou talvez tentar um disco completamente acústico que utilizasse apenas instrumentos country. Quem sabe...

Sempre me questionei sobre a hipótese de, ao vivo, tentarem espontaneamente utilizar músicas de níveis que não chegaram a constar dos dois discos, mas cujos jogos surgiram no vosso reportório. Por exemplo, tocarem de seguida os níveis 2, 3 e 4 do Double Dragon III. Isso seria um desafio irreal?

Não costumamos tocar medleys de um só jogo. Procuramos misturá-los – é menos previsível e expõe aspectos interessantes e semelhanças entre jogos.

A Contra’s Boss Music, surgida no vosso disco Elf-Titled, será dos momentos mais intensos que escutei em disco no ultimo ano. Recordas-te de como se tornou uma música de Advantage? E fazes ideia de quanto tempo tiveram de ensaiá-la para sincronizar todas aquelas mudanças de andamento?

Não sei ao certo qual a dificuldade de aprender essa música. Pareceu-me de imediato uma óptima canção de pop-rock. Todas essas mudanças parecem-me normais. Sempre achei que aquela melodia era épica e realmente intensa.

A resposta para esta seguinte questão deve surgir algures, mas importa saber se receberam algum feedback directo da Nintendo face às vossas versões?

Directamente da Nintendo, não. Mas divertimo-nos imenso com a Capcom (célebre casa de software lúdico) durante a nossa estadia no Japão.(risos)

Tens um vilão / boss favorito de todo o universo Nintendo?

Essa é uma questão difícil. Gosto dos vilões do Contra, tal como dos que surgem no Ninja Gaiden. Mas nenhum em particular.

Que podes adiantar em relação ao próximo disco de Crime in Choir?

Já não estou envolvido com os Crime in Choir, mas tive a oportunidade de escutar uma versão não-misturada do novo disco. Será bom, certamente. Óptima gravação, um som realmente polido.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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