ENTREVISTAS
Tetuzi Akiyama
Cowboy & Samurai
· 29 Out 2006 · 07:00 ·
A primeira imagem que nos ocorre quando pensámos em Tetuzi Akiyama é o seu chapéu de cowboy. “Captain” Tetuzi, como também é apelidado, não é um músico banal, tem um ar excêntrico e não gosta de fazer sempre a mesma coisa. Se por vezes o guitarrista japonês explora formas minimais de improvisação (near silence), outras vezes atira-se a uma exploração abstracta dos blues americanos. Colaborou com músicos como Otomo Yoshihide, Keiji Haino ou Alan Licht, actuou com diversos improvisadores e promoveu a série de concertos denominados “Off Site”, dedicados à improvisação lowercase em Tóquio. Mantém uma relação privilegiada com Portugal, tendo actuado com Ernesto Rodrigues e Manuel Mota (concerto memorável no Lisboa Bar, em Outubro de 2005) e editou álbuns pelas editoras nacionais Creative Sources e Esquilo. Numa altura em que regressa para uma mini-tour pelo nosso país, o Capitão responde de modo telegráfico a algumas questões. Como se vivesse permanentemente perdido algures entre “Os Sete Magníficos” americanos e “Os Sete Samurais” de Kurosawa, Tetuzi nunca é previsível. Este é o homem que descobriu um outro uso para as espadas de samurai.
A primeira geração de improvisadores do free/jazz japonês (como Kaoru Abe ou Masayuki Takayanagi) teve influência sobre a sua música?

Nem por isso. Eu conheci a música deles e andei a ouvi-los, mas agora já não. Se tivesse nascido dez anos mais cedo a música deles talvez me tivesse influenciado mais.

Se tivesse de escolher apenas um, qual seria o guitarrista que escolheria: Derek Bailey ou Jimi Hendrix?

Se tiver mesmo que ser, talvez Hendrix. Mas prefiro Jeff Beck.

O seu lendário look cowboy mostra que é influenciado pelos padrões culturais americanos. Qual é a sua relação com a América?

Isso é uma espécie de tributo aos velhos filmes spaghetti western, que eu achava o máximo. Gosto de blues, da música hillbilly e dos singer/songwriters americanos, bem com do rock psicadélico dos anos ’60.


Como é que surgiu a ideia de usar uma espada de samurai para tocar com a guitarra?

Uma vez estava a pensar como haveria de suster o som da guitarra sem usar o e-bow, que toda a gente usa e soa sempre ao mesmo. Pensei que a espada fosse uma boa ideia e a minha inspiração esteve certa. A espada é uma objecto cool, tem um som cool e uma história cool.

O disco Route 13 to the Gates Of Hell: Live in Tokyo foi escolhido pela revista Wire como um dos melhores do ano 2005. Sente que passou a receber mais atenção desde então?

Talvez, mas não ligo muito a isso. Porque também faço outras coisas diferentes do que está nesse álbum.

Toca uma variedade de estilos, desde near silence (como no disco Points and Slashes com Güter Müller) até blues. Qual é a motivação que o leva a abordar estéticas musicais tão diversas?

É para não me aborrecer. E também estou interessado em correr riscos na criação de música.

O disco Don't Forget to Boogie! será talvez a marca mais significativa do seu som. Concorda que para a maioria do seu público o “boogie” é a faceta preferida?

Não faço ideia. Talvez hajam alguns ouvintes que gostavam daquilo que eu fazia antes desse álbum e agora já não gostam.

Olhando para a geração contemporânea de improvisadores do Japão – como Otomo Yoshihide, Ikue Mori, Toshinori Kondo ou o próprio Tetuzi – podemos afirmar que existe realmente uma cena japonesa, com elementos particulares e distintivos, ou trata-se apenas de música universal?

Eu diria apenas que se trata de música universal feita por pessoas japonesas.


O ano passado actuou ao vivo com os improvisadores portugueses Ernesto Rodrigues e Manuel Mota. Como viu o concerto e com que ideia ficou destes músicos?

Foi óptimo. E eles não são só grandes músicos mas também bons amigos. Gostei de actuar com eles logo desde o primeiro instante em que começámos a tocar. Temos a mesma atitude com aquilo que fazemos.

Editou recentemente discos pelas editoras portuguesas Creative Sources e Esquilo. Como é que isto aconteceu?

O Masahiko Okura combinou com o Ernesto [Rodrigues] a edição do álbum do nosso trio com Utah Kawasaki. Depois, um dia a Esquilo contactou-me a perguntar se eu tinha algum material inédito que quisesse editar. E eu respondi “sim”.

Com que músicos é que gostava ainda de tocar?

Com músicos com quem ainda não toquei.

Quais são os planos para o futuro próximo? Há algum disco novo na calha?

O ano passado fiz uma gravação com o guitarrista neozelandês Greg Malcolm, para a editora Extrapool, em Nijmegen na Holanda. Penso que esta gravação será editada em breve.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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