ENTREVISTAS
Guilherme Canhão
Infância
· 25 Out 2006 · 08:00 ·
Longe da brutalidade e bravura dos Lobster, Guilherme Canhão encontrou em '86 (Merzbau/Lovers & Lollypops) o espaço ideal para explanar aquilo que porventura possa não ter espaço no trabalho com Ricardo Martins. '86 é um disco eminentemente próprio e "solitário", escrito e gravado em casa, com um pé no ambiente, outro no pós-rock e com ambas as mãos e pensamento nos dias passados de infância. Guilherme Canhão foi quase intencionalmente juntando as peças de um puzzle que agora vê a luz do dia: o “Sol Estival”, na “Praia”, as “Memórias” de um “Renault 5” e do “Avô Capitão”, “Memórias” e “Fotografias” de uma “Infância”, narrativas de um “Coração Esquizofrénico” e de uma “Irmã Siamesa”, num disco que termina com um “Blues do Deserto”. Guilherme Canhão, recentemente regressado de uma digressão internacional com os Lobster, responde a algumas questões que ajudam a esclarecer os contornos básicos do projecto a solo.
Há quanto tempo começou a ser concebido este disco de estreia a solo? Quais foram os pormenores que rodearam a sua concepção?

As músicas que estão neste disco, fazem parte de gravações antigas que comecei a fazer desde há três anos para cá, mais ou menos quando comecei a aprender a fazer simples batidas de bateria electrónica e a gravar faixas de guitarra em cima, pelo computador. O meu interesse era mesmo apenas o de improvisar por cima dessas baterias e ir acrescentando coisas até ficar contente com o resultado final. No final mostrava ás pessoas e depois essas músicas acabavam quase sempre por ir parar a CDs gravados, que também acabavam por se ir perdendo pelo quarto. Mais tarde houve umas quantas pessoas que me deram a ideia de fazer uma compilação destas faixas.

Apesar das suspeitas, porquê '86? O que sabes sobre esse ano que poucas pessoas saibam?

Foi o ano em que se deu o acidente de Chernobil!

Os sons, as vozes que se ouvem em “Infância” têm alguma história em particular? Como e de onde surgem?

No inicio pensei em pôr uma gravação minha em que devo ter uns dois anos e em estou a cantar, ou a tentar, mas depois achei que não se enquadrava bem e acabei por pôr este outro sample também do género do que tinha em mente, e que resultou melhor. Mas essa é uma daquelas coisas que não era para ter ficado assim porque quando foi feita a música, não tinha ficado lá muito satisfeito com o resultado final. Com a desarrumação e com o tempo que se passou por entre estas faixas houve coisas que se perderam como algumas baterias e faixas de guitarra. Esse sample acabou por ter que ficar mesmo porque depois já não havia maneira do o tirar sem estragar o resto… Mas agora já gosto de o ouvir lá.

Pretendes promover este disco ao vivo? Há já planos nesse sentido?

Não estou a pensar em promovê-lo ao vivo.

Como é fazer música fora dos Lobster, especialmente tendo em conta que este projecto a solo é em tudo distinto do duo “noise” de que fazes parte?

Sempre fiz música antes e em paralelo com os Lobster, e nunca me concentrei especialmente em nenhum género musical. É-me bastante difícil estar muito tempo sem fazer música, mas tem sido com Lobster que tenho retirado mais prazer de o fazer. Não gosto muito de fazer música totalmente sozinho e nem chamaria a isto um “projecto a solo” porque nunca nada foi feito ou planeado com essa intenção, daí também a minha escolha em não actuar ao vivo. São apenas umas músicas que fui fazendo despreocupadamente, nunca planeando começar algum tipo de “carreira” a solo ou isso.


Nos últimos tempos avançava-se com o slogan “Keep it Brutal” como certeiro para a actividade dos Lobster. No que diz respeito ao teu trabalho a solo poder-se-á utilizar o slogan “Keep it calm”?

Acho que não. Nem nós sabemos bem o que vai sair da próxima vez em que nos fecharmos a compor. Pode ser que, tanto nas próximas coisas dos Lobster como nas minhas, venha algo que não tenha nada a haver com o que já fizemos. E espero que assim seja porque não tem interesse fazer o mesmo duas vezes ou da mesma maneira. Mas é giro ver o que começou por ser uma piada se tenha tornado numa espécie de slogan da banda.

Acabaste por editar o disco na Lovers & Lollypops a edição física e na Merzbau a edição netlabel. São essas as tuas duas casas musicais?

Desde que conheci o Fua e a Catarina da Lovers & Lollypops e o Tiago da Merzbau, no inicio dos Lobster, que há uma boa empatia entre nós e criaram-se saudáveis amizades. Foram eles que se propuseram de início em editar as minhas músicas e pareceu-me algo bastante natural em o fazer visto também serem duas boas editoras em visível crescimento. Não diria que são as minhas duas “casas musicais”, mas sinto-me bastante confortável.

Os Lobster estiveram há pouco tempo em digressão por Espanha e França, além de uma digressão em Portugal. Como correram esses concertos?

Correram muito bem. Foi uma óptima experiência para nós e era o que estávamos a precisar. Acho que regressámos com outras ideias, planos e um pouco mais de confiança em nós próprios. Claro que nem sempre foi bom e houve maus momentos, mas conseguimos ultrapassa-los sem grandes dificuldades.

Como reagiram as pessoas nas bancas de discos nos concertos aos lançamentos de Lobster e do teu próprio disco? Regressaram a Portugal sem discos nas malas?

Surpreendentemente houve bastante feedback positivo. Pessoas que não nos conheciam de lado nenhum que gostaram bastante e que compraram os discos e as t-shirts. Era giro vê-las a escolher de entre os Fast Seafood desenhados à mão por nós, todos com capas diferente, o que gostavam mais. E sim, trouxemos discos connosco ainda. Também se venderam alguns '86, mas não tantos claro.

Continuas a produzir música em nome próprio depois do lançamento de '86? Poderá haver novo lançamento para breve?

Por enquanto não. Se houver um novo lançamento não será para breve. O mais natural é continuar no ritmo a que foi feito este… quem sabe daqui a uns outros três anos!
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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