ENTREVISTAS
Rosie Thomas
De uma sinceridade e simplicidade desconcertantes
· 02 Out 2003 · 08:00 ·
A voz da Rosie Thomas é a claridade. É feita de socalcos amorosos e aventuras macias. E é tão estranho quando ocorre a metamorfose de voz de menina em voz de cantora. E a sua música não é maior que a vida. É a vida em si. É música concreta. É o ponto do teatro, e nós somos as personagens. Patéticas, às vezes, porque esquecemos o essencial.

Estivemos nos bastidores da Fnac, infelizmente. É um sítio terrivelmente feio para se estar, atafulhado de tralha e ruídos incómodos. O plano seria levá-la ao Majestic . Dizer "estamos num sítio tão belo como a tua música", e ofecerer ramos de flores em forma de perguntas vulgares sobre as asperezas do caminho dela, calcorreado apenas com camisolas com botões nos ombros e sapatos de dois dólares. Neste mundo não existem filigranas nem catedrais. Existem sim cartas de amor em papel barato ou promessas de luta ou de fuga, conforme as forças que restam no momento em que se escreve. Existe a simplicidade do amor e da perda, das questões que não cessam, do alívio da amizade. O afago das palavras e da viola. E a luminosidade cor de rosa da sua voz a tingir tudo à sua volta. E se alguém não perceber que ao falarmos disso falámos de música, então é porque não percebe nada.

Nessa noite ela tocou no Porto, por isso vi-a outra vez. Ainda bem.
Disseste a certa altura numa entrevista a um jornal português que te fascinam as pessoas que estão agora com 20 anos, porque não são adolescentes, mas também ainda não são adultos, e que te revês muito neles. Que estavas tu a fazer quando tinhas 20 anos?

Eu estava um caos, um caos puro e simples. Não se passou assim tanto tempo, mas eu estava completamente confusa. De facto, ainda estou. As pessoas com vinte anos estão numa fase de auto-conhecimento, a tentar encontrar uma identidade. E é um lugar bizarro, não é? Deixas de ser adolescente, passas a ser adulto, mas nunca foste adulto anteriormente. E ninguém te vai ensinar como é, vais ter de aprender por ti. E pensas que é realmente um sítio estranho para se estar, com 20, 23 ou 25. Toda uma idade. E, na minha opinião, qualquer altura nos teus 20's é um altura confusa, porque é suposto teres encaixado todas as peças, é suposto teres casado, teres um bom emprego, bla bla bla...

Sobretudo nos Estados Unidos...

Concordo, mais nos Estados Unidos que em qualquer outro lugar. Mas eu acho que esta idade me fascina, todos nós temos muito em comum, passamos todos pelo mesmo. E é uma época tão linda da vida das pessoas, sabes, porque estão a crescer muito e a encontrar permanentemente pedaços delas mesmas, seja através da dor, da luta, de um desgosto amoroso, de um trabalho que arranjas e descobres que o odeias, e a seguir tentas outra coisa qualquer...Trata-se de uma procura constante de algo, e com a qual me identifico bastante.

Começaste a tocar guitarra através do teu pai.

Sim, por volta dos 18. Começámos a tocar juntos...

Curioso, pensava que tinha sido antes.

Não. Quando era menina cantávamos juntos imensas vezes, e é nisso que estás a pensar, provavelmente. Cresci com dois pais músicos, por isso, aos cinco estava a tocar com eles. Mais tarde, quando tinha 17 ou 18 anos, eu e o meu pai começámos a fazer concertos juntos, só eu e ele. Por isso, toda a minha vida foi feita de actuações com os meus pais, e também com os meus irmãos mais velhos, foi sempre algo que fizemos. Desde que nasci, basicamente. Mas não foi antes do secundário que eu e o meu pai começámos a tocar juntos, e a escrever canções.

Conheceste o Eric [Fisher, guitarrista] na escola, não foi?

Sim, sim, conhecemo-nos na faculdade. Foi há cerca de três anos, por isso, não foi há tanto tempo como isso. Ele foi a primeira pessoa com que pensei em tocar. Sabes, quando contas às pessoas que tocas guitarra toda a gente diz "oh vamos fazer uma jam! vamos tocar todos!" e eu recuso sempre...O Eric foi aquele amigo que eu pensei "tudo bem, vamos ver o que acontece, vamos experimentar tocar guitarra juntos". E ele conseguiu acrescentar coisas lindas ao que eu estava a fazer, e foi a primeira vez que eu realmente pensei em tocar com uma banda. Foi muito fixe.

Quando é que descobriste que a música era a tua vida? E quando é que te começaste a dedicar a ela completamente?

Oh gosh...em períodos diferentes da minha vida. Quando era muito nova, a ver os meus pais a cantar e a observar o quanto a música afectava as pessoas. Adoro observar e adoro perceber o quanto mudou as pessoas. E depois, provavelmente terá sido no secundário...

...em "I Play Music", tu dizes "Lord knows i've tried everything else". Que coisas incluis, que coisas tentaste neste "everything else"?


Agricultura biológica, tentei isso. Vocês têm quintas biológicas por aqui?

Poucas. Mas vamos tendo mais a pouco e pouco...

A sério? Que bom! Bem, tentei agricultura biológica, tentei viajar...viajava, apenas! Tentei escolas diferentes, andei em diversas escolas a estudar teatro, a estudar qualquer coisa. Pensei em tudo. Em ser uma agricultora e trabalhar com o meu avô na quinta e ordenhar vacas. No fundo, estava sempre à procura de algo que me fizesse feliz. Pensava que a música era um escolha demasiado fácil. Era o que todos esperavam de mim, entretenimento. Assim, rebelei-me e decidi-me a tentar tudo o resto. Obviamente que me trouxe de volta à música, porque é a única coisa que posso fazer todos os dias e ainda assim gostar tanto dela.

Isso remete um pouco para aquela conversa dos 20 anos. É bom tentares-te encontrar através de outras coisas que não a música, não é?

É verdade! E é o que eu digo às pessoas.

Eu falo por mim, tenho a necessidade de experimentar coisas diferentes.

E é o que tu deves fazer, é esse o conselho que dou a toda a gente. Precisas de fazer as asneiras todas para voltar de novo onde realmente interessa. Não se trata de encontrar essa coisa realmente importante, e está feito. Na verdade, o mais importante é o que está por fora, tudo o resto, até que vais estreitando as hipóteses. Eu costumava ter uma checklisk onde apontava "ok, já estive na Europa, ok, já fiz isto, ok, já fiz aquilo, ok, vou ser agricultor com o meu avô, ok, fica muito quente no verão e eu odeio aquilo, vou apanhar feijão verde todo o dia, não, isso é um terror!" [risos]. Vais verificando as coisas que já fizeste e acabas por fazer um círculo na última "oh pá, que chatice, é a música!" [risos]

Achas que é o facto de falares sobre as coisas mais comuns - e as mais primordiais, como o amor, a perda, a família -, sem a atitude de considerar a vida miserável, que torna as tuas estórias e músicas tão fáceis de identificar, tão fáceis para as pessoas pensarem "oh! esta música é mesmo sobre mim!"?

Sim! Na minha opinião a simplicidade é o melhor caminho a seguir. Se conseguires ser nem demasiado específico nem demasiado lato, aí todas as pessoas dirão "eu estive aí". Já toda a gente teve um coração destroçado, já toda a gente se apaixonou. Mesmo se se tiver 10, 15, 20 anos, todos passaram por isso. Já toda a gente ficou desapontada, já toda a gente sofreu grandes julgamentos, já toda a gente foi forçada a lutar. E eu penso que algumas pessoas não têm facilidade em admiti-lo, por isso eu tento, de certa forma, admitir por eles...

...é mais fácil para eles...


Exactamente. E talvez assim eles não tenham de dizer a ninguém, e isso é algo a que dou importância. Se eu consigo verbalizá-lo...Sabes toda aquela brincadeira de fazer um homem chorar? Eu sempre adorei estar com pessoas muito circunspectas e meter-me com elas. Eu sei que elas alinham numa boa gargalhada, toda a gente quer rir. E é um sempre aquele desafio. Por isso, o meu objectivo é libertar essa faceta das pessoas.

Como se fosses para além da carapaça sisuda de algumas pessoas.


Sim! Toda a gente tem alegria... Toda gente tem amor dentro dela...

Talvez esteja escondido algures...


Ou outras pessoas esconderam-no por elas e disseram que todos esses sentimentos estavam errados. Ou então é um enorme síndroma que faz com que ninguém queira estar à beira de uma pessoa que esteja triste, porque é aborrecido. E eu acho que é uma treta! As pessoas precisam umas das outras. É nos momentos em que as pessoas estão em baixo que vão precisar de ti, se fores amigo delas. Todos nós temos de lutar, e é ridícula a obrigação das pessoas estarem felizes o tempo todo. Porém, isso não implica não encontrar um certo equilíbrio. Eu estou um caos, estou totalmente confusa sobre tudo, contudo procuro encontrar caminhos para ter alegria na vida, porque esta é uma grande, grande dádiva. Viver é uma coisa maravilhosa. Eu sinto uma esperança tão grande, mesmo que por vezes me sinta no meio de um turbilhão de desespero. Por isso, tens razão, eu não me detenho muito a pensar, apenas me livro das coisas. Não me detenho, é assim que sinto, certo? E não me importo. Se achas que não faz sentido, óptimo, mas tenho a certeza que não achas, porque eu apenas sinto o mesmo que qualquer pessoa. Todos nós temos uma forma em comum de sentir as coisas, sabes? Na verdade, eu sou muito vulgar. Posso trazer vestida uma t-shirt engraçada mas não sou diferente das pessoas. E é esse facto que me faz estar tão ligada a essas pessoas. Nós somos muito similares, não somos?

A própria música é uma forma de nos encontrarmos a nós mesmos...

Sim! Para mim é! Tanto quando escrevo ou quando oiço...

E quando estás no teu quarto, a sós com a guitarra, e a compor...É como uma confidente, não é? É alguém com quem podes partilhar as tuas emoções, os teus pensamentos...

Sim, e para além disso não me diz que estou a ser uma seca [risos]. Tens razão.

Quais são as recordações, as memórias que constroem a tua música?

Os meus pais passaram por um processo de divórcio, o que libertou diversas coisas em mim. Talvez me tenha apercebido que nada é eterno, tudo se pode desmoronar a qualquer momento e não saberás lidar com isso. Penso que me fez olhar para a vida de uma maneira diferente. Agora sei que nada é permanente, e lembro-me constantemente disso. Não que queira viver refém da ideia de que tudo vai ser roubado, mas, de certa forma, estou preparada para isso. O facto de ter tido desgostos amorosos, tal como qualquer pessoa, fez-me olhar para isso e pensar "como é que te sentes agora? isto é uma merda!", sabes? "Como é que vais ultrapassar esta situação? Não sei. Olha, escreve sobre isso". Tudo na minha vida tem algo de confuso. Eu já tentei tudo. Mesmo tudo. Neste momento, sinto que tentei todas as coisas possíveis. Por outro lado, tenho enormes expectativas sobre mim mesma. Enormes. Mais ninguém tem, apenas eu. E, por vezes, acabamos por nos transformar no nosso pior inimigo. Quando falo para os meus botões "É suposto seres melhor do que isto. É suposto seres mais corajosa. O que é que tens?". Como se, por vezes, precisasse de atirar o meu próprio cérebro para o mais longe possível. E é deveras triste constatar que devia ser eu a tomar conta de mim, mas que, ao invés, continuo a dizer para mim mesma "não és suficientemente boa". Mais ninguém me faz isso. Os meus pais não o fazem, eles expressam sempre o orgulho que têm em mim. Portanto, o que alimenta a minha escrita é o meu eu, é por vezes as batalhas entre os meus pensamentos. Sempre me confrontei com os meus sentimentos, e sinto-me à vontade com eles, sinto-me à vontade para expressá-los. Ou seja, acho que estou num contacto permanente comigo mesma.

E qual é o papel da tua família no meio disto tudo?

Bem, eles são simplesmente fantásticos. É uma família muito chegada, mesmo após o divórcio dos meus pais...

Ouvindo a tua música, para além do divórcio dos teus pais e de todos os danos subjacentes, transparecem sempre um afecto e um amor enormes.

Sim, e é disso que se trata, não é? Tudo isto te molda de forma a te transformares numa pessoa melhor, se conseguires olhar para a vida dessa forma. E é assim que eu olho, porque foi uma escolha que eu fiz - e apenas tens de fazer a escolha e ir com as ondas. Todos estes acontecimentos, o meu coração despedaçado, ver os meus pais a separarem-se, eu e o meus irmãos a termos de lidar com isto...tanta gente passa por isto, de maneira que o lado positivo disto tudo é a oportunidade de conversar com outras pessoas "como é que sentiste? não foi horrível?". Acabas por ter o ensejo de falar imenso e de partilhares coisas em comum com as outras pessoas. Suponho que toda a provação por que passei faz-me falar com outra pessoa "também tiveste nesta situação? foi mau, não foi? eu fiquei destroçada. e tu? eu também, pá...estou sempre a beber para esquecer" [risos]. A minha família continua a ser essencial para mim, e por vezes tenho a sensação que é a minha música que nos une. Como uma alavanca. E no fundo continua a haver uma sensação de família, tens razão. Quando lhes pedi para fazer parte deste disco, a minha mãe chegou a casa do meu pai e os meus irmão também lá estavam. E, por uma hora, fingi que éramos uma família de novo, e que o amor não tinha desaparecido. E ter a minha mãe e o meu pai, juntos, a cantar, mais os meus irmão no meu quarto, ou seja, todos nós juntos de novo, pensei secretamente "wow, é assim que seria se eles continuassem juntos", por isso, partilhar isso com eles e dar-lhes esta dádiva foi algo de muito especial. E o meu pai adora tanto a música, é ela que o alimenta, e ele está tão orgulhoso porque pode finalmente dizer "a minha filha está a fazer o que eu fiz", sabes? Talvez até seja uma questão de orgulho por parte dele, mas não me importo, eu consinto-o. Ele tem 62 anos, e se ele pode ser parte do meu álbum, se ele pode ser parte de mim, eu deixo-o ser. Gosto muito de partilhar as minhas oportunidades, especialmente com a minha família.

Qual foi a sensação de gravar num local como a igreja de St.Thomas [a igreja mais antiga de Detroit] com a tua família? Ela exala espiritualidade, não é?

É verdade, e eu acho que uma igreja é um local tão único. E com uma acústica fantástica. Foi desde sempre algo que quis tentar, chegar a uma igreja e permanecer lá, é tão natural. Toda a gente devia gravar um disco numa igreja, é genuíno, capta tudo tão naturalmente...

Ontem à noite estava a conduzir sozinho, e estava a chover. E eu estava a ouvir o início da "Let myself fall", e subitamente apercebi-me da beleza daquilo.

Oh, que bom! Acho que vou começar a ouvi-la à chuva!

De certa forma, precisa-se de escutar o teu álbum sozinho, à chuva. Uma vez escrevi que não há nada como ouvir a Lisa Germano numa tarde chuvosa. E à noite, enquanto conduzia e ouvia a tua voz, senti algo de muito parecido.

Toda a gente tem um lugar diferente para ouvir música, sabes. Acho que tens razão, existem certas raízes para tudo. Quando conduzo tenho sempre alguns CDs obrigatórios, tenho sempre um para quando vou conduzir para as montanhas e fico agitada [risos], e tenho sempre alguns que oiço à noite. E há a música, os álbuns que tu ouves quando estás magoado, quando tens o coração destroçado. A música é uma coisa incrível. A forma como te pode influenciar, relacionar. Como se de repente deixasses de te sentir só, porque alguém está sentado ao teu lado.

É uma linguagem universal, afecta-nos a todos.

Sem dúvida.

Achas que a música é uma forma de não deixar a ingenuidade e a candura da infância escaparem-se?

Sim, acho que por vezes é uma oportunidade de lembrar uma série de coisas da nossa vida. Canções que oiço, com os meus pais a cantar, e que me remetem para a minha infância, sempre foi assim. Existe uma música muito cheesy do Neil Diamond, chamada "Hello Again", que me faz chorar, porque me faz lembrar o meu pai quando eu tinha 8 anos e ele cantava essa canção. De cada vez que a oiço na rádio desfaço-me em lágrimas! Por isso, acho que a música te pode levar a tantos sítios diferentes. Às vezes pode-te transportar para o futuro, e tu pensas "wow, talvez um dia me esteja casada e tenha filhos!"[risos]. E também te pode transportar para o passado.

Igualmente, quando fazes música também podes ser uma criança de uma maneira que as pessoas não te permitem ser noutras coisas.

É verdade, é verdade. Podes revelar tudo.

Novamente sobre a Lisa Germano. Considera-la uma influência? A "Finish Line" tem uma frase de piano semelhante a uma música dela. É alguém com que te identificas?

Lisa Germano? Qual é a nacionalidade dela?

É americana.

Não tenho nenhum álbum dela, mas preciso mesmo de tentar arranjar alguma coisa dela. Li tantas entrevistas excelentes, e fiquei curiosa. Ela e a Nico...não Neko Case...Nina Nastasia. Não tenho nada dela, mas preciso mesmo de arranjar, porque sei que vou adorar a música dela.

A voz dela é lindíssima.

É o que tenho ouvido! Tenho lido algumas entrevistas e ela parece fantástica. Tens é de me dizer que álbuns devo comprar, e eu compro-os...Podia tentar arranjá-los aqui [na Fnac], não achas? [risos]

Foste votada na escola como a pessoa com mais sentido de humor, mas quando ouvimos a tua música nunca poderíamos imaginas que existe uma Sheila por trás. Ela e a Rosie Thomas são uma espécie de Dr. Jekyll and Mr. Hyde?

Suponho que sim! Penso que acabamos todos por ter duas partes de nós de que gostamos mesmo muito, e estas duas partes são bastante similares, porque o contacto com os teus sentimentos traz a comédia ao de cima muitas vezes, acho eu.

É uma espécie de contraponto à tristeza...

Sim, embora a comédia faça parte de toda a minha vida. Sempre fui muito brincalhona, sempre quis fazer as pessoas rir. No fundo era um lugar para me esconder, esconder através do "Agora vou ser a miúda com piada. Não sou loira e vistosa, então vou ser apenas a miúda divertida". Assim, foi um lugar para me esconder de vez em quando, esconder as minhas inseguranças através da comédia. Mas agora eu adoro-a, simplesmente adoro fazer as pessoas rir, e sempre foi algo que me deu imenso prazer fazer. Desta maneira, com a música a ser séria praticamente o tempo todo - como será sempre, acho eu, porque é a única maneira de ir ao encontro das outras pessoas e relacionar-se com elas, e espero que elas venham ter comigo também - adoro também a outra parte, fazê-las rir. E a vida é a conjugação dessas duas partes.

Quais são as diferenças em relação a "When we were small"? Os títulos indicam uma: enquanto que o primeiro álbum falava sobre o passado, este aponta para a luta do presente e para a esperança do futuro.

Acho que é isso, disseste quase tudo. O primeiro foi uma reflexão sobre o meu passado, este último fala sobre tudo o que estou a aprender neste momento. Até agora foi isto que aprendi, até agora foi isto que me confundiu, até agora são estas as minhas questões sobre a religião, a fé, o amor, tudo sobre o qual estou insegura, questões que vou ter de saber ultrapassar. Que vou eu dizer às pessoas? Vou dizer como ultrapasso os obstáculos. Vou dar o meu riso. E explicar porque não levar as coisas demasiado a sério. Essa é de alguma maneira a minha mensagem para as pessoas.

Consideras-te mais madura agora?

Acho que sim! Sim! Por vezes as coisas melhoram quando cresces mais um pouco, porque tens mais contacto com quem realmente és, e tens mais confiança em quem tu és. Páras de desculpar-te pelo que acontece. E acabas por te conhecer melhor, vais arrancando as ervas daninhas, aquilo que não interessa. Por isso sim, acho que me conheço melhor agora e acho que estou mais confortável na minha própria pele.


As tuas últimas palavras neste álbum são "Oh, where do we go? Oh, nobody knows". Tens alguma ideia para onde estás a ir? Qual é o teu futuro?

Sinceramente não sei, e está aí o cerne da questão. Essa música ["Dialogue"] foi escrita durante uma conversa com um amigo que estava realmente assustado com questões como "Quem sou eu? Em quem me vou transformar? Como é que vou fazer tudo?", e eu sinto-me como ele, por isso essa foi a primeira música que escrevi que não tinha resposta. Não faço a mínima ideia, e ninguém sabe. Algumas pessoas pensam que Deus sabe, quaisquer que seja a situação em que estejam metidas...

Acreditas em Deus.

Acredito, eu tenho uma fé muito forte, por isso deixo muitas coisas para ele "Ok pá, tu vais ter de descobrir, eu não tenho nenhuma pista! Olha para mim. Não percebo nada". Por isso não sei, não faço a mínima ideia para onde estou a ir. E tento arranjar paz no meio disso tudo, uma esperança no caminho. Eu não faço a mínima ideia, mas alguém faz. Não tenho de ser sempre eu a juntar as peças todas, fiquei tão farta de ter de ser sempre eu a descobrir tudo. Quando descobri a fé, ajudou-me a pensar "Que bom, Deus tem a minha vida sob controlo, é fixe, ele sabe para onde estou a ir, é óptimo". E é aqui que estou neste momento. Não sei para onde vou. Pelo que eu sei, até podia ficar por aqui. Sabes? Mas tenho de estar ok com isso, e é sobre disso que a música fala, uma espécie de realização de que tu não sabes, simplesmente. Ninguém sabe, pois não? Não tenho respostas para isto, e na verdade ninguém tem, mas resta-nos apenas a esperança de viver o dia a dia e ver para onde somos transportados e que coisas vêm ao nosso caminho. E sentirmo-nos cheios de sorte, por estarmos vivos, por termos as coisas e as grandes oportunidades com que fomos presenteados.
Nuno Cruz

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