ENTREVISTAS
Tender Forever
Bordéus, Washington
· 08 Ago 2006 · 08:00 ·
© Heather Treadway
Ao terem estalado nos noticiários os aparatosos conflitos sociais em Paris, foram instantaneamente dizimadas pela metade as hipóteses da capital francesa manter intacto o estatuto de “cidade do amor”. Sim, porque não é propriamente favorável aos amantes um cenário caótico de montras em cacos e um ar ao qual ainda se sente o odor a cocktails molotov (a menos que o Romeu deste cenário seja o Mad Max). Em contra-ponto a uma França na eminência da tal aterragem violenta que antecipava O Ódio, surge uma Melanie Valera capaz de solitariamente promover a Bordéus de onde provém a nova Meca para os apaixonados – com pequenas e frontalmente sinceras canções sobre chuveiros partilhados, curtições enevoadas por tons rosa e casamentos simulados em pleno deserto texano. Nem tão pouco importa que o seu primeiro álbum The Soft and the Hardcore seja assumidamente gay / queer, porque o é de forma pura, incauta, emocionalmente universal.

Melanie – que, por um “n” apenas, não serve de anagrama a Amélie – foi protagonista de um conto de fadas escancaradamente indie: compôs para a sua mais que tudo uma série de canções que, por acaso, chegaram as ouvidos de Calvin Johnson, o patrão da K que – ao leme dos Beat Happening durante a década de 80 - tornou o despoletar de atracção sexual num valor aceitável no espectro punk. Desde então a vida de Melanie Valera não tem parado entre Bordéus e Olympia em Washington (epicentro indie que, apesar de ultimamente ignorado, continua saudavelmente activo). A própria não acredita que o amor seja capaz de salvar o mundo, mas sugere que a ternura pode até ter uma ínfima hipótese. Parece idealista, mas, após a escuta de The Soft and the Hardcore, fica-se com a certeza de que será muito mais eficiente um beijo intenso que o calendário pseudo-activista mediaticamente cumprido por Chris Martin, figura que lidera os Coldplay. O Bodyspace estabeleceu contacto com Washington para ficar a saber frescas novidades a propósito do que tem feito e planeia fazer Melanie Valera, que, com a generosidade própria da sua música, partilhou coordenadas preciosas acerca do seu futuro próximo e toda uma série de revelações que oferecem um nítido panorama da actualidade vivida na K Recordings.

[Após quebrado o gelo com algumas impressões sobre o vinho de Bordéus e as típicas baguettes francesas, procedeu-se à entrevista.]

É estranho que as pessoas se refiram ao facto de teres sotaque…

Algumas sim.

Só reparei em alguns vestígios de sotaque num excerto de concerto que vi no You Tube (www.youtube.com). Quando estás praticamente sem fôlego e a agradecer a todos por terem vindo. A segurar um balão branco.

Acabas por progredir quando dás por ti submersa pela própria cultura, pelas pessoas e pelo país durante um longo período de tempo.

Ya. Desde quando tens passado a vida entre Bordéus e Olympia?

Tenho andado nisto desde há um ano. Desde 5 de Abril de 2005, para ser exacta. Consigo memorizar bem as datas.

Essa exactidão é surpreendente. Adoro Abril.

É o melhor mês. E tu, que tens feito?

Acabei de discutir sobre futebol com o meu avô e aguardo que alguém ainda hoje me convide para jantar. Recebi um excelente filme francês hoje: The Wages of Fear (a sufocante obra-prima de suspense realizada pelo mestre Henri-Georges Clouzot).

Le Salaire de la Peur. É brilhante.

Podes crer. Fala-me dos vídeos em que te encontravas empenhada no outro dia.

Tenho planeada uma longa digressão por França e Espanha. Por isso, estou a fazer um vídeo que será exibido em segundo plano durante os concertos. O vídeo inclui pessoas, quase como se fizessem parte do espectáculo: cantam comigo, dançam e é provável que também eu surja... Um monte de coisas nesse estilo. Ainda é um segredo, na verdade, mas já estou a preparar um teledisco para o próximo álbum. A única coisa que posso revelar é que envolverá a selva e lobos.

Quer isso dizer que um novo disco já se encontra à espreita...

Completamente. É entusiasmante e algumas pessoas já me disseram que está a ficar porreiro.

Podes-me dizer se incluirá algumas sobras do The Soft and the Hardcore ou apenas músicas compostas propositadamente para este?

Existia um grupo inicial de 45 canções e escolhi as que achei serem as melhores, mas prefiro concentrar-me em algo que tem surgido recentemente do que em qualquer coisa pertencente ao passado. Não gosto de pegar em coisas antigas e refazê-las.

Cortar com o material anterior...

O processo passa pelo tempo perdido a brincar com a guitarra, computador, teclados e tudo o mais à minha volta quando estou a escrever canções.

Contarás com colaboradores para este? Podes antecipar algo em relação a isso?

Nem por isso. Por enquanto não. Não sei. Não planeio nada. Sou terrível a antecipar quaisquer sentimentos.

Numa escala percentual, em que ponto dirias que se encontra o disco?

Acima de 50%, certamente. Acho que soará menos alegre do que o primeiro

Parece-me lógico partires tão imediatamente para um novo disco, visto que o The Soft and the Hardcore terminava em suspensão e parecia um pouco curto demais.

Nem acho que isso importe muito. Não me parece que um disco seja obrigado a ultrapassar uma dada duração.

Sim, existem excelentes EPs.

Se o sentimento tiver o impacto certo, não importa realmente a sua curta duração.

Concordo. Nem tão pouco esperaria que Tender Forever viesse a assumir o formato longo de uns Mars Volta...

Completamente. Seria tão chato e aborrecido…

Sentes que o próximo disco assentará sobre o mesmo balanço que tem este álbum no que diz respeito a músicas acusticamente esparsas e as outras em que inseres todo o tipo de elementos electrónicos? Sentes-te mais confortável com um dessas duas direcções?

É frequente a vontade de me sentar no quarto e cantar alto enquanto toco guitarra e, noutras situações, trabalhar algumas camadas porreiras se a música assim o exigir. Nem o consigo explicar, mas a mim parece-me natural fazer o que me apetece. Não quero que pensem:Oh... Tender Forever é aquela cena eletrónica R&B emo pop. Nem tão pouco me sentiria bem associada à folk. Na verdade, pouco me importa o estilo. Acho que me empenharei naquilo que achar certo.

© Rhett Nelson

Oh… Eu mantenho a impressão de que Tender Forever te serve como veículo para as entradas de um diário em que vais explorando as experiências musicas à medida que surgem.

Na verdade, o primeiro álbum não foi concebido para ser partilhado com o mundo.

Ainda sobre aquilo que falávamos há pouco, deixa-me confessar-te que tenho dificuldade em atribuir etiquetas a bandas.


Compreendo-te. Existem artistas surpreendentes que não se importam nada com isso. Mount Eerie será certamente um desses.

Estava a escutá-lo ainda há pouco.

O Phil (Elverum) tem composto solitariamente. Ele é brilhante.

Sem dúvida. Não o vi quando passou por cá. Goza de algum culto por aqui e há algum tempo mereceu um longo artigo numa das nossas melhores webzines.

Ele é completamente honesto em relação ao que faz e isso é fabuloso. O Phil é um mito vivo.

Um pouco como o Calvin Johnson (mentor da K e principal compositor dos lendários Beat Happening), a quem certamente és mais chegada. Fala-me da sua orientação e trabalho de produção no The Soft and the Hardcore.


O Calvin não te oferece orientação alguma. Parte do princípio de que estás certo do que queres atingir, mas, caso estejas em apuros, ele tem a capacidade de te mostrar que a solução está no coração e que um novo take pode resultar melhor.

Isso é querido e o que basta.

Não existe qualquer tipo de pressão – é apenas música. É algo agradável de se fazer e não se torna temível em ocasião alguma. Ele é fantástico. Aquele cérebro atinge coisas que mais ninguém entende. Ele é especial e sinto-me abençoada por estar perto dele.

Não deixam de me surpreenderam algumas das suas linhas memoráveis nos Beat Happening. Reparei que ele produziu a parcela mais intima do disco. Ou seja, não haverá nada muito mais intimo que a “Marry Me”. Lembras-te de como foi gravar essa?

Tomou um take apenas. O segundo para conseguir a harmonia.

Ficou impecável.

E eu a dizer ao Calvin para quando estivesse pronto a gravar, gritar:Action Baby!. (risos) E ele acabar por dizer Action Baby! e pronto. Foi fabuloso consegui-lo tão rapidamente e de espírito tão leve.

Qual dirias ter sido a música que mais tempo te exigiu até a teres como querias? Todas parecem tão espontâneas...


Talvez a “Make Out” e a “Then if I’m Weird I Want to Share” – foram as que me consumiram mais tempo. Mas existe uma versão da “Tender Forever” que vocês desconhecem.

Devias enviar-me essa.

Passei dois dias com a (Mi)khaela (Maricicich) – que orienta o projecto the Blow – a trabalhar nessa versão. Foi fantástico e parece-me ter ficado porreira. Será lançada num sete polegadas em breve, espero. Talvez o lance no meu website (http://www.takemybreathaway.net) ou na K.

A “Make Out” parece-me complexa na sua sobreposição de camadas.


Nem tanto como possas achar. A bateria contribui tanto para a sua intensidade... Eu tive de ensinar a parte do teclado à Khaela e confiar na maneira que adoptassem ao tocá-la (participou na música a colaboradora mencionada e Heather Treadway que se ocupou da bateria). Tudo se tornou muito divertido e entusiasmante assim que abri mão do facto de ser a minha canção.

Presumo que isso seja difícil quando todo o material é tão auto-biográfico...

Bem... Eu não me senti mal por isso e continuo a não sentir. As canções não estavam destinadas a pertencer a um álbum. Era suposto serem enviadas para lá do oceano e escutadas pela pessoa por quem me apaixonei. Não fazia ideia de o Calvin viesse a escutá-las e a apreciá-las, e a vender 8000 cópias das mesmas.

© Rhett Nelson

Entendo onde queres chegar. Talvez sintas agora que as tuas confissões servem de banda-sonora a outras relações...

Não estava sequer a pensar num álbum quando as gravei. Estava apenas a divertir-me – não fazia ideia de qual seria a minha vida uns meses mais tarde. Ocasionalmente encontro gente que me confessa: A tua música “The Feeling of Love” salvou-me a vida. Gente que depois começa a chorar e a agradecer-me imenso. Isso é incrível, sabes? Não fazia ideia desse efeito.

Achas que o facto de te encontrares mais consciente do propósito do próximo disco fará com que se torne uma experiência menos intima?

Acho que não. Provavelmente. Mas continuarei a ser eu a fazê-lo, daí que talvez não seja assim tão diferente. Procuro concentrar-me no que sinto e não na opinião que a crítica possa ter acerca do disco.

A Khaela teve algum tipo de contributo nas novas músicas?


Não tive tempo para estar com ela sequer. Fui até Portland, como sabes, e esses dias foram os primeiros que tivemos a oportunidade de passar juntas em vários meses. Daí que nem nos apetecesse gravar canções. Fomos acampar. Foi bem melhor assim. Mas andamos a planear formar uma banda em conjunto.

A sério?! Sei que chegaste a fazer parte de algumas bandas…

A ideia encontra-se em suspenso desde há um ano e já temos as músicas. Basta apenas entrar num estúdio e gravá-las. Eu cheguei a fazer parte de uma banda pop rock chamada Garrison Rocks e, antes disso, numa banda de rua chamada The Bonnies. Essa foi a melhor.

The Bonnies soa-me bem. Nunca equacionaste a hipótese de regravar as vocalizações em francês? As versões francesas dos Nada Surf são curiosas...

Não. Tinha algumas ideias para canções em francês. Tenho de perder mais tempo com essas, porque é uma língua muito difícil de manipular e não quero que soem demasiado pesadas ou demasiado leves e sem sentido.

Presumo que as pessoas te associassem de imediato a uma chanteuse, se isso viesse a acontecer.

Lá está, não me preocupo minimamente com o que a crítica diria. Acho que é isso.

Que expectativas manténs em relação à actuação no Festival Homo a Go-Go (certame dedicado à exposição de várias expressões artísticas gay)? O cartaz é bem interessante.

Sinto-me orgulhosa por estar a prestar apoio a uma causa que o merece nos Estados Unidos. Agrada-me encontrar as pessoas unidas enquanto se divirtem e mudam um pouco o mundo. Estou ansiosa por ver The Gossip e Xiu Xiu.

Planeaste algo de especial para esse concerto?

P: Ainda não pensei em nada. Talvez passe a noite anterior ao concerto em branco dedicada a um fundo de papelão marado. Não sei.

Já ouviste o novo álbum de Xiu Xiu (The Air Force)? Eu sou um assumido devoto...


Não. Só um pouco.

Está porreiro. Bem diferente.

Estou certa de que sim.

Quando te encontras em digressão, como lidas com um entrega tão intensa inserida numa regularidade quase diária?


Bem… Acho que não existe nada melhor que isso, porque até aqui não me fez sentir uma pessoa pior. Não sei e nem sequer penso muito nisso. É uma boa oportunidade. As pessoas são receptivas e partilham comigo coisas que não param de me surpreender.

Lembras-te de actuar na Fnac em França? Como te sentiste perante os transeuntes que paravam para assistir ao teu show-case?


Se te recordares de como comecei - a actuar nas ruas com os Bonnies -, deves então suspeitar que eu já esteja habituada a isso. Foi entusiasmante. A ocasião foi recompensadora, apesar de não me ter agradado muito a atitude do técnico de som que estava completamente alheio e meteu água uma série de vezes. Cortou o som ao microfone, ao teclado e, ao dar conta de que eu estava sozinha, achou que eu não merecia qualquer atenção – o que não me incomodou minimamente. Quando cortou o microfone, eu decidi começar a gritar.

Que tipo de aceitação tem a K em França?

Não faço a mínima ideia. Acho que em Bordéus as coisas têm corrido bem. Ainda ontem estava com o Aaron (Hartman), dos Old Time Relijun (interessante proposta da K), e ele contou-me que Bordéus tinha sido o melhor lugar onde já tocaram.

Sei que o Lou Barlow adora Toulouse.

Mas os franceses são um pouco reservados em relação ao indie.

Lembro-me de assistir ao MCM e ser um total deserto em relação a bom indie.

É uma bela porcaria, eu sei. Porém, existem algumas pessoas empenhadas em alterar a situação. É um país de literatura e teatro – não de guitarras eléctricas e merdas estranhas de pinta indie. Eu gostaria que fosse. Gostava de sentir uma maior receptividade por parte das pessoas.

Sei que o Troy Van Balthazar tem crescido em França. Conheces as cenas dele?

Sim, algumas. Gosto de algumas coisas.

Para concluir a entrevista, que conselhos tens para quem esteja interessado em aproveitar umas férias em Bordéus ou no Sul de França?

Aconselho-os a enviarem-me um e-mail para que lhes possa servir de guia pela minha cidade.

Isso é completamente querido da tua parte. Entrarei certamente em contacto se voltar a Bordéus.

Faz isso, por favor.

Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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