ENTREVISTAS
Harris Newman
Acidentes da Natureza
· 01 Mai 2006 · 08:00 ·
Há influências tão fortes que por mais que se tente – e ninguém diz que isso é o que aqui acontece – não podem ser disfarçadas. Esta ideia poderá ser aplicada a todos os nomes que, com mais ou menos evidência, bebem do conhecimento de mestres como John Fahey, Robbie Basho e Leo Kottke – e, em última instância, a todos os nomes que tenham sido símbolos principais de todo um género ou evolução musicais. E no lado dos ‘inspirados’, o canadiano Harris Newman não será excepção, apesar das suas ligações via Constellation ao pós-rock feito em Montreal - Harris Newman fez em tempos parte dos Sackville. Depois de Non-Sequiturs, o álbum de estreia, Accidents With Nature and Each Other mostra o sempre renovado interesse por parte de Harris Newman no catálogo da Takoma e para isso conta com a participação de Sandro Perri (Polmo Polpo) e Bruce Cawdron (Godspeed You! Black Emperor). Aproveitando a sua recente vinda a Portugal, o Bodyspace quis chegar-se à frente com algumas perguntas para ajudar a explicar algumas questões que ficam no ar com a audição dos seus dois discos a solo. Questões essas exemplarmente respondidas na entrevista que se segue.

A Portugal chegam testemunhos excitantes acerca da ‘cena’ Montreal. Como é viver aí?

Acho que viver em Montreal é bastante diferente de observar do lado de for a. Sim, há muita música interessante a acontecer por aqui, mas eu não acho que seja de forma alguma diferente de quando eu me mudei para cá em 1993, na altura estava igualmente excitado acerca da ‘cena’ musical. Acho que a maior mudança que teve impacto na vida das pessoas directamente é que agora existem melhores infra-estruturas – grandes salas onde ver concertos, promotores de concertos inteligentes, editoras locais excitantes, etc.

Como é que vês o teu trabalho com os Sackville hoje em dia? Como é que vês a comunidade Constellation?

Os Sackville estão inactivos de momento. Era muito divertido fazer parte da banda, apesar de nunca ter sido exactamente o meu ‘estilo’, e eu não contribui com escrita de canções para essa banda. Mas gosto muito de algumas gravações, especialmente o ultimo álbum Natural Life que nunca foi lançado. Estou na esperança que seja disponibilizado em formato CD-R nos próximos meses. A comunidade da Constellation é apenas um monte de pessoas, a maior parte das quais se conhecem muito muito antes da Constellation ou de qualquer outra insígnia existir para os descrever. Existe definitivamente muita gente talentosa em Montreal, e é óptimo vê-los interagir e a trabalhar juntos. Tive o prazer de tocar com muitos deles ao longo dos anos, e actualmente tocar na banda Hrsta.

Como é que alguém como tu, vindo de Montreal e da Constellation acaba a trazer à memória gente como John Fahey ou Robbie Basho? Quando é que osa ouviste pela primeira vez?

O vocalista de Sackville apresentou-me pela primeira vez à música do John Fahey no final dos anos 90, creio eu. Agradou-me porque eu gostava da ideia da guitarra solo, mas tinha-me mantido sempre afastado da guitarra acústica porque pensava-a como um instrumento palerma e sem experiência. A intensidade e o poder da forma de tocar do Fahey agradaram-me logo ali naquele momento.

Como é que as pessoas em Montreal vêm a tua música, tendo em conta que o pós-rock e o indie-rock são realidades constantes?

Não tenho a certeza como é que as pessoas consideram a minha música, não tenho a certeza se elas a consideram de todo. Mas não acho que haja um grande salto entre o rock experimental e aquilo que eu faço. Não há muita gente a fazer música acústica nesta cidade.

Accidents with nature and each other conta com a colaboração de músicos dos Godspeed You! Black Emperor. Como é que foi gravar com eles? Eles estão conscientes da tradição inerente à tua música?

Os dois músicos no Accidents são o Sandro Perri, que é de Toronto e contribuiu com lap steel numa faixa, e o outro é o Bruce Cawdron que tocou bateria, percussão e glockenspiel. Eu e o Bruce temos vindo a tocar juntos desde 2002, antes da gravação do meu primeiro disco a solo. Ele tocou em ambos os meus discos a solo, e temos um disco como duo a sair em Maio chamado Triple Burner. Acho que nem eu nem eles estamos de todo preocupados em honrar qualquer tradição musical, podemos ser influenciados por certas coisas mas não estamos definitivamente a tentar respeitar ou prestar homenagem a qualquer coisa em particular.

Do primeiro para o teu segundo disco parece que quiseste abanar um pouco as coisas, e mudar o processo. Quais eram as tuas primeiras intenções perante o teu segundo disco?


No primeiro disco, estava muito consciente de fazer um disco que eu pudesse apresentar ao vivo, não queria fazer as coisas complicadas ou artificiais. No segundo disco estava um pouco mais disposto a experimentar, e a adicionar algumas camadas e complexidades. E claro, o intervalo de dois anos entre os dois discos deu-me imenso tempo para trabalhar na minha escrita e na minha forma de tocar, que cresceu na sua própria forma natural.

Considerar-te-ias parte do grupo de fingerpickers que inclui nomes como Jack Rose, Glenn Jones, Matthew Valentine, Six Organs of Admittance? Tens contacto com eles?

Acho definitivamente que as pessoas que gostam de discos das pessoas que mencionaste podem gostar dos meus discos, e eu sou com certeza um grande fã de todas essas pessoas. Mas não tenho realmente a certeza de fazer parte desse grupo ou de qualquer grupo per se. Acho que essas pessoas que mencionaste são músicos muito mais avançados tecnicamente que eu próprio, vejo-me mais como um songwriter que por acaso usa a guitarra para traduzir essas ideias. Mas não acho que a minha forma de tocar tenha a mesma subtileza, execução ou atenção à tradição como aqueles que mencionaste.

Trabalhas muito nos arranjos? Vê-los como um factor diferencial na tua música? Que instrumentos usas?

Sim, definitivamente. A instrumentação é mantida muito simples, mas a relação entre cada instrumento é crucial.

Na minha opinião, o tempo está a mostrar cada vez mais a importância do trabalho de John Fahey. Concordas?


Sim, claro. Acho que ele sempre teve uma pequena mas forte base de fãs, mas parece realmente que ele está a ter mais atenção postumamente.

O James Blackshaw é de Londres, e tu vives igualmente longe da Améirca, terra dos grandes fingerpickers. Quais são na tua opinião as implicações nesse facto?

Acho que não faz diferença nenhuma. Não há tradição de fingerpicking no Canada que eu tenha conhecimento, e eu não sinto laços a nenhuma tradição em particular.

Tendo em conta que vieste recentemente a Portugal… conheces Carlos Paredes e a sua música? Sei que o James Blackshaw e o Ben Chasny, por exemplo, são verdadeiramente grandes fãs do seu trabalho…

Peço desculpa, mas não conheço. Mas parece-me que devia. Vou roubar um disco dele no Soulseek neste preciso momento… Sou mesmo mau neste aspecto, sei muito pouco sobre música – a maior parte dos guitarristas interessantes que eu conheço agora foram-me apresentados nos últimos poucos anos por pessoas que ouviram a minha música e me falaram sobre eles. Trabalho numa espécie de pequena bolha, e não me exponho a nova música muitas vezes.

Como é que traduzes as tuas composições para os concertos ao vivo? Despe-las ao básico, ao trabalho de guitarra?

Tudo começa na guitarra e é construído a partir daí. Ás vezes, para as performances ao vivo tudo aquilo que eu faço é a parte central da guitarra, e omito os extras. Com Triple Burnet, o Bruce e eu somos capazes de tocar quase todas as partes, por isso essas omissões não são tão evidentes. E quando eu toco a solo, tento geralmente tocar as partes que funcionam bem com apenas uma guitarra.

Como foi o teu concerto em Lisboa e toda a digressão europeia?


Foi mesmo mesmo bom. Fiquei extremamente agradado com a minha recepção em todo o lado na Europa, e espero regressar de novo mais tarde este ano.

André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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