ENTREVISTAS
Lobster
Os Power Rangers do Noise Rock
· 01 Mar 2006 · 08:00 ·
© Marisa Cardoso
Auto-intitulam-se como os Power Rangers – que se cansaram da luta ao crime – e são uma das bandas mais ruidosas desta nova geração a que não negam pertencer. Estas premissas podem ser confirmadas por inteiro com a audição de Fast Seafood, gravado e produzido por Makoto nos estúdios Black Sheep, e editado pela Merzbau, a netlabel que defende a ideia de “música livre”. Os Lobster são muitas vezes comparados aos Hella e aos Lightning Bolt mas quem para cá vier de boa vontade e espírito aberto não tem de o referir e vai até descobrir muito mais do que isso. Façam eles lembrar seja quem for, o duo Lobster (núcleo que por vezes aceita a participação de convidados, como acontece em “Trip to Nowhere” de Fast Seafood) é uma bem oleada e intensa máquina com rumo à destruição. Não precisam de pedir desculpa pela brutalidade porque é tudo rápido demais para qualquer tipo de pedidos. Aqui, Ricardo Martins e Guilherme Canhão aceitam tirar as máscaras de super-heróis para responderem a algumas perguntas antes de voltarem para o mundo real.

Como é que nasceram os Lobster?

Ricardo Martins: Nasceu de um ensaio meio falhado de uma banda que tínhamos e que serviu para pôr em prática umas quantas ideias que até aí tínhamos vindo a discutir.

Guilherme Canhão: Foi nesse dia que se fez a nossa primeira sessão de improviso, com o nosso amigo João “Óscar”, que tocava connosco nessa banda, e que resolveu então participar, já que os restantes membros se tinham baldado.

Quais são as vossas experiências musicais anteriores dos Lobster? O que é que trouxeram delas para este projecto?

R.M.: Eu já tinha tocado em algumas bandas rock, e vejo o percurso apenas como o ganhar a percepção de como era mais ou menos o mundo da música... não é que isso seja alguma coisa especial por estes lados.

G.C.: Eu toquei com algumas pessoas antes de lobster, e depois de conhecer o Ricardo, começámos a tocar um rock instrumental com uns amigos... foi basicamente a partir daí que nasceu Lobster, como uns tantos outros projectos que se têm vindo a manter até hoje.

R.M.: Mas das bandas onde tocávamos, pouco ou nada trouxemos para Lobster. Foi como um começar de novo e tentar esquecer montes de regras em que a música geralmente assenta.

Na era do CD-Rs e netlabels torna-se complicado acompanhar o rasto a algumas bandas. O que é que os Lobster editaram até agora?

R.M.: Editámos 4 sessões de improviso que contam sempre com convidados a tocar connosco, e no final do ano passado saiu o CD pela merzbau, já noutros moldes.

O que é que nos podem contar acerca de Fast Seafood, editado pela Merzbau em 2005?

R.M.: Foi feito em três dias e gravado em 4 horas, como sempre fora dos prazos, e com uma pressão enorme. Mas acho que é assim que as coisas funcionam connosco.

G.C.: Queríamos experimentar coisas fora do molde da improvisação que tínhamos até aí vindo a fazer nas Lobster Sessions, e quando começamos a tocar só nós os dois, foi aquela sonoridade que surgiu... assim energética, rápida... meia esquizofrénica. O Tiago (da Merzbau) teve uma paciência enorme connosco e... numa noite fomos então gravar ao Black Sheep studios.

Como é que acontecem as vossas criações? Resultam de improvisação pura? Improvisação controlada ou nem por isso?

R.M.: Depende. Pode começar de jams, pode começar de riffs que o gui trás de casa ou mesmo músicas já todas feitas na guitarra.

G.C.: Geralmente levo riffs para o estúdio e brincamos com as ordens, os tempos e isso tudo. Vamos tocando apenas...

R.M.: Os ensaios são acima de tudo um sítio onde nós nos divertimos a fazer o que mais gostamos.

É normal convidarem outras pessoas para tocarem com vocês... Quem são essas pessoas e o que procuram delas?


G.C.: São pessoas amigas que vamos conhecendo e que sentimos que têm algo para contribuir naquelas sessões ou que querem apenas participar. Não procuramos nada delas... só nos metemos dentro do estúdio a tocar durante umas horas. Depois é sempre entusiasmante ouvir tudo aquilo o que aconteceu durante aquele tempo.

R.M.: Não fazia sentido nenhum se estivéssemos à espera de algo em concreto. Gosto de pensar nas sessões como um momento único e sem filtros.

Chateiam-vos as comparações aos Lightning Bolt ou aos Hella, apesar de se notar a influência desses nomes em alguma da vossa música?

R.M.: A mim não me chateia nada...

G.C.: A mim também não. Sempre tivemos consciência de que iríamos ser alvo dessas comparações. Apenas não nos importamos.

R.M.: É normal que haja comparações, até por sermos dois e não ser assim tão frequente como isso haver bandas com duas pessoas. Estas bandas em questão influenciam-nos como é óbvio e acontece connosco - como acontece com qualquer banda - sermos frutos de uma aculturação. O facto de gostar dessas bandas e poder ser comparado a elas por vezes até é agradável. Mas quem é que realmente se importa com isso?

G.C.: Claro que seria bom se nos preocupássemos muito com isso, pois acredito que iria fazer com que tentássemos alcançar um som mais original, o que acabamos por perseguir, mas sem obsessão ou preocupações. Em Lobster, sendo tão livre e despreocupado como é, isso só nos restringiria.

R.M: É uma questão que me preocupa mas a cerca de outras bandas onde toco e outras bandas possivelmente comparadas. A procura de uma individualidade e de um estar próprio gera sempre bons resultados, apenas penso que em Lobster o objectivo é divertir e divertirmo-nos sem intelectualizar o que se está a fazer.

© Marisa Cardoso

Não temem o esgotar de uma fórmula? Sei que exploram outros instrumentos para além da guitarra e da bateria... é com essa intenção?

G.C: Isso das fórmulas... Nem sei se temos uma fórmula neste momento...? De qualquer forma, sei que estamos numa espécie de sintonia musical, e aquela sonoridade que está no Fast Seafood é simplesmente o som que fazemos agora, amanhã poderá ser outro... aliás, quando tocamos aquelas músicas geralmente tendem sempre a soar de maneira diferente, não fazemos com que saiam exactamente como foram gravadas.

R.M.: Exactamente. Seja como for, as musicas são feitas sem pensar minimamente na repetição de fórmulas, ou se existem ou não existem. Hoje tocamos isto e é o que somos agora, amanhã vamos tocar o que formos na altura.

Como é que aquilo que fazem nos vossos discos se traduz ao vivo? Não sentem uma certa pressão para manter ou até aumentar a intensidade dos vossos registos?


G.C.: Não há pressão nenhuma, ao vivo, em gravação, no estúdio, independentemente do local, tentamos sempre manter a mesma intensidade. Claro que também depois depende muito como nos estamos a sentir individualmente. Isso vai afectar muito a música que estamos a fazer.

R.M.: Ao vivo usamos uma base que temos e somos levados pelo momento e pelas pessoas. É um conjunto de situações que pode gerar mais ou menos emotividade e penso não haver nenhum tipo de pressões, até porque somos um pouco desleixados e estamos sempre muito na boa em tudo o que fazemos e isso é que tem piada.

Os Lobster são também apontados como pertencentes à comunidade que junta bandas como os Loosers, os Gala Drop, os CAVEIRA, os Frango, os Fish & Sheep, entre outros. Qual é a vossa posição acerca disso?

R: Eu não gosto de pensar que há comunidades definidas e que não pode haver mesclas de vários grupos, de vários tipos de pessoas, mensagens. Acho que estarmos dentro de um grupo ou não, vai ser uma situação alheia a nós. Não desgosto do grupo que referiste, mas não sei se há na realidade circuitos que não se possam misturar.

Uma das marcas desta dita comunidade é a multiplicidade de projectos paralelos das bandas principais. Como é que vocês estão a esse nível?

R.M.: A este nível tenho várias bandas que é mais ou menos um espelho daquilo que eu gosto de fazer e ouvir. Neste momento tenho mais quatro bandas ( Mary Reilly, Suchi Rukara, My Legs, Señor e The Living Dead Orchestra). Pelo menos para mim dá-me gozo ter vários sítios onde possa tocar, espalhar mensagens diferentes e sentir-me vivo. Quero poder passar uma agressividade extrema, ou a maior tranquilidade sem estar preso ao que uma banda deve ou não deve ser. É tipo uma bola de neve e há sempre aquele bichinho para fazer mais uma. É uma visão meia esquizofrénica da coisa.

G.C.: Eu estou sempre a fazer música, seja em casa em pequenos projectos a solo, seja em ir tocar com amigos apenas pelo simples prazer de o fazer. Estou sempre a tentar criar mais, porque acaba por ser viciante e penso que chegou ao ponto de precisar disso para fazer tudo o resto, as actividades diárias. Mas... fora dos Lobster, também toco em My Legs, Señor, Mary Reilly e faço as minhas coisas a solo, que por vezes contam com participações de amigos.

Quais são as implicações de serem os power rangers do noise rock made in Portugal?

R.M.: Lutar por uma cena menos elitista, menos viciada, sem tantos chefes. Espalhar diversão por aí, fazer com que as pessoas se mexam. Há muito vilões por aí a precisarem de uma lição.

G.C.: Não é fácil... mas nós vamos apanhá-los a todos, como os Pokémons.

R.M.: ...tem é que haver tempo para a família.

G.C.: E saúde!

R.M.: ...Dinheiro!

G.C.: Muito amor.

R.M.: E concertos.......

G.C.: Sítios para tocar, pessoas a lerem entrevistas e a convidarem-nos para ir tocar… [risos]

André Gomes
andregomes@bodyspace.net

Parceiros