EntrevistaDeerhoof

publicado em 14 Jan 2006 - 08:00

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Os quatro ursinhos corredores

Os Deerhoof são um ursinho querido e simpático que de vez em quando mostra a suas garras e arranha-nos com toda a força. Caóticos mas também fofos, desde a última vez que falámos com eles, já lançaram o EP Green Cosmos, que continha vários piscar de olhos à pop europeia da Eurovisão, e lançaram também, há pouco tempo, The Runners Four, o seu oitavo álbum. Mais do que nunca, são agora uma banda totalmente devota à arte do riff e dos refrões, sempre com a voz aguda de Matsuzaki Satomi, a instrumentação divertida e a bateria de Greg Saunier. Há, também, toda uma parte lúdica que está cada vez mais tocante. Não há pandas nem flores nem trompetes feios nem maçãs, mas há, mais do que nunca, canções.

Canções. Se desde o princípio os Deerhoof de Rob Fisk (que, entretanto saiu) tentavam desconstruir a pop e evitar as canções, após a saída tornaram-se cada vez mais uma banda e passaram a escrever canções e pequenas gemas pop. Primeiro houve Reveille, mas deixaram a meio aquela que podia ser uma das maiores canções pop de sempre (puro exagero/delírio), "The Eyebright Bugler". Depois houve Apple O', que era pura fofice de peluche. Milk Man era um monstro que levava as crianças.

Talvez seja isso que os Deerhoof são, uma banda que leva as crianças (e não seremos todos lá no fundo ainda crianças?) para um mundo grotesco mas divertido, para o lado negro da vida. Abraça-as e faz-lhes festinhas mas logo a seguir arranha-as com força. Se bem que a força agora em Runners Four já não seja tão grande. Mas as canções estão lá.

O Bodyspace foi apanhar Matsuzaki Satomi (baixo, voz) e Chris Cohen (guitarra), agora que já está provado que "Twin Killers" e "Ditties of No Tone" contêm dos melhores riffs de sempre (facto inquestionável e, obviamente, exagerado, certamente fruto de um delírio).

Vocês são ursinhos giros e fofinhos que mostram e usam as suas garras de vez em quando, não são?

Matsuzaki Satomi - Sou gira? Os ursinhos são giros? Penso que toda a gente é às vezes gira e não gira.

Chris Cohen - Tiraram-nos as garras.

Vocês são representantes do Bem ou do Mal?

MS - Eu sou uma tola.

CC - Não gostamos de escolher.

Vocês têm todos ursinhos de peluche e merchandising da Hello Kitty?


MS - Eu tenho um corta-unhas da Hello Kitty, mas não o comprei. Uma amiga minha deixou-o aqui. Não gosto assim tanto de festinhas falsas. Quando era miúda gostava muito delas.

CC - Não tenho nada disso.

Qual é o segredo para compor tantas melodias grandiosas?


MS - Sol da Califórnia, frutas orgânicas, água filtrada, e os nossos espíritos criativos.

CC - Murmurá-las na tua cabeça e tocar a batida no teus dentes um milhão de vezes e depois mostrá-las aos teus colegas quando estiveres pronto.

Neste disco novo, vêem-se como escritores de canções pop ou rock?

MS - Penso que é música para fazer exercício. Dura quase uma hora, por isso vai andar a ouvir Runners Four com headphones. Far-te-á andar como nunca andaste antes. Encontrarás o nosso ritmo no teu jogo de pés.

CC - Não sei a diferença.

Estão a tentar ser mais emocionais, mais tocantes (como mostram em “Odyssey”), menos apatetados (mais ainda divertidos)?

MS - Não estou a tentar manipular a mente de ninguém com música incluindo eu própria. Sou, contudo, uma pessoa apatetada em casa.

CC - Sou o tipo lamechas dos Deerhoof, não posso evitá-lo.

Vocês inserem-se dentro da vossa própria definição de “música pop”?


CC - Sim, se as pessoas nos deixarem.


Vocês inserem-se dentro da vossa própria definição de “mundo”?

CC - Sim e não. Somos hologramas com quatro bandas-sonoras individuais.

Como é que combinam as partes barulhentas e experimentais do vosso trabalho com a faceta pop viciante?

CC - Nunca pensámos em como fazê-lo. Só partimos de todas as nossas ideias, não são classificadas antes nem nunca.

Como é que se dão as mudanças todas no vosso trabalho? Lançaram o EP Green Cosmos no princípio do ano passado, agora lançaram no final o Runners Four. O Green Cosmos é mais pop e o Runners Four mais rock? Como é que estas mudanças se dão?

MS - Nós mudamos a música à medida que vamos crescendo. Gosto do facto de os Deerhoof nunca caírem num só tipo ou estilo. CC - É verdade, cada disco tem um som diferente e uma história diferente. É totalmente coincidente com o que escolhemos.

Como é que tem sido o projecto de remisturas?


MS - Tem sido fantástico. Ouviste-as? As remisturas saíram tão criativas. Estou muito feliz.

CC - Queríamos que as pessoas ouvissem as faixas individuais e queríamos que as pessoas fizessem algo connosco.

Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net


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