ENTREVISTAS
Hot Chip
BPM emocional
· 04 Set 2011 · 23:17 ·
Primeiro mostramos-lhe as delícias da gastronomia portuguesa, depois fizemos com que contasse algumas histórias em off, irreproduzíveis pela matéria que contêm, e depois sentamos Alexis Taylor numa cadeira de um dos hotéis históricos da cidade do Porto e perguntamos-lhe tudo o que nos apeteceu perguntar sobre os Hot Chip. Aconteceu tudo no dia em que o vocalista dos autores de One Life Stand se deslocou ao Porto para fechar, em modo de DJ Set, o Baile dos Vampiros, a festa de encerramento do Fantasporto que aconteceu no Porto entre 21 de Fevereiro e 6 de Março. Porque qualquer altura é uma boa altura para tomar o pulso à actividade dos Hot Chip, encostamos o gravador a um Alexis Taylor tímido mas conversador para perceber em que ponto está a banda e os seus projectos pessoais. E ainda deu para falar de press releases, bandas-sonoras, pistas de dança, canções da Whitney Houston e muito mais. Durante quase 20 minutos, a conversa saiu tipo salada de frutas.
Esta é a tua primeira vez no Porto, certo?

Sim.

Vens fazer um DJ set num festival de cinema. Qual é a tua relação com o cinema?

Bem, gosto muito de cinema. Ainda não fui ao festival porque acabei de chegar hoje mas parece-me um festival muito interessante. Sobretudo, porque é um festival de cinema fantástico. Por isso é uma pena não ter a oportunidade de ver algumas das obras. Na universidade até cheguei a escrever sobre cinema um pouco, sobre o Pier Paolo Pasolini, o realizador italiano, e comecei a interessar-me muito pelo cinema. Mas tendo dito isso, as minhas prioridades estão obviamente na música hoje em dia por isso pretendo apenas ser um fã de cinema. Mas o meu interesse ao longo dos anos foi crescendo. Gosto muito dos filmes do Kurosawa, por exemplo. Sou uma pessoa muito interessada no cinema, é tudo o que posso dizer na verdade.

Achas que os Hot Chip têm um som cinematográfico? Lembro-me por exemplo de um vídeo não oficial da “I Feel Better” que correu na net e tudo combina perfeitamente porque a canção tem um sentimento muito dramático…

Acho que pode ser o caso, sim. Mas não temos na verdade essa intenção de fazer música cinemática. Há muita gente por aí que faz, de uma forma deliberada, música atmosférica e cinemática. Houve uma altura nos anos 90 em que toda a gente parecia estar a fazer música e bandas-sonoras para filmes que nunca existiram. Era o género da altura, entendes? E depois havia pessoas como o Peter Gabriel que fez trabalho para bandas-sonoras e isso é radicalmente diferente, de certa forma, dos discos pop dele. Entre os Hot Chip, temos dois membros da banda, o Felix Martin e o Al Doyle, que estão actualmente a compor a banda-sonora para um filme. E eu já fiz música para uma curta-metragem artística há algum tempo atrás. Foi exibida no Frieze Art Fair em Londres, a minha música fazia parte desse filme. Era um filme artístico feito pelo Nick Relph e o Oliver Payne, que era algo que me interessava fazer. Mas no que toca à música pop e aos discos que os Hot Chip fazem, pensamos provavelmente mais no facto de serem tocados em clubes ou em criar experiências emocionais que as pessoas possam ouvir. É por acidente que têm uma qualidade cinemática e é por isso que essa pessoa colocou um vídeo para a “I feel better” fez isso. É um bónus na verdade. Não somos anti-cinemáticos mas simplesmente não pensamos nesses termos.


Agora que falas em “I Feel Better”, existe alguma mensagem irónica nessa canção? Porque é de tal forma diferente do resto do álbum…

Não, não existe uma mensagem irónica. Mas falas a que nível? A música, as letras?

Tudo. A música, as letras, o sentimento geral, é totalmente diferente de tudo o que está no álbum…

Acho que tens razão, mas não sei porque é que é diferente, não é intencional. A forma como fazemos música… O Joe e eu costumamos ter uma ideia e depois seguimos com ela. A “Slush” é uma canção realmente diferente de tudo o resto do álbum, de certa forma. Mas essa foi a partir de uma ideia que tive e acabou por ir para aí. A “I Feel Better” começou com uma ideia do Joe. [Alexis Taylor começa a cantar a linha melódica que abre a canção] Nas cordas. Eu escrevi o refrão e… [risos] Já passou muito tempo desde que a escrevemos, já não me consigo lembrar nada acerca do processo, excepto que foi excitante para nós. Sentimos que era uma coisa muito pop de uma forma que se calhar nunca tínhamos feito ainda. Foi excitante para nós por causa da sua própria musicalidade, da forma como soa. Mas não há uma intenção de fazer qualquer tipo de comentário irónico acerca de seja o que for.

Nem mesmo no vídeo?

Bem, o nosso vídeo é feito pelo um cómico satírico chamado Peter Serafinowicz, por isso sim, por isso ele está a fazer um statement de certa forma mas acho que ele apenas fez um vídeo absurdo que ele pensou que seria divertido. Quando falei com ele não achei que ele quisesse fazer um statement com isso, acho que ele estava a dizer “como é que eu posso fazer a cena mais ridícula e divertida possível?”. A Boyband está a tocar Hot Chip, e eles representam o disco nesta ocasião, e de repente há uma personagem estranha que entra e começa destruir tudo com os lasers que saem dos olhos dele. É uma espécie de Godzilla ou algo assim. Acho que ele estava a tentar perceber como podia meter os efeitos especiais dele num vídeo tolo, tanto quanto eu consigo entender. Acho que a ideia dele não era atacar as boysbands… ou se calhar até era, não sei, terias de perguntar-lhe.

Talvez ele tenha entendido uma mensagem irónica nessa canção…

Sim, mas acho que a canção não tem muito a ver com o vídeo. A maior parte dos vídeos não têm muito a ver com as canções. Muitas vezes têm um realizador muito trendy e ele tem uma ideia e forçam essa ideia seja em que canção for com que a companhia discográfica os procure. Neste caso foi alguém que nunca tinha feito um vídeo musical antes, o Felix contactou-o via Twitter e o Peter tinha centenas de ideias, e eram todas igualmente estúpidas, todas envolviam explosões e lasers…

Mudando de assunto, sentiram-se de alguma forma pressionados para escrever outra canção como “Over and Over” ou a “Ready for the Floor” neste disco?

Não. A “Over and Over”, fizemo-la ao lado de todas as outras canções desse álbum. Mesmo quando a estávamos a gravar, não pensamos que fosse significar mais para as pessoas do que qualquer outra canção. Não sabíamos se a “A Boy from School” ou a “Over and Over” deveriam ser o single. Não pensamos: é esta. Não sabíamos realmente. E depois teve uma vida própria que te faz pensar: que estranho, as pessoas conhecem-nos por essa canção. Gostamos dessa canção mas não conseguimos perceber as razões para essa canção ser aquela que tem mais sucesso em todos os concertos. Acho que é por ter um slogan repetitivo no título que não pretendíamos escrever, algo tão repetitivo a que as pessoas se pudessem agarrar tão facilmente. Escrevemos isso por sorte. Mas se estava a pensar em repetição nessa altura? Nem por isso. Com a “Ready for the Floor” esperávamos que fosse um hit e foi no Reino Unido e também noutros sítios, mas desapareceu também muito rapidamente pouco tempo depois. Não é uma canção lendária que as pessoas que vão lembrar para sempre, sabes, talvez para os fãs dos Hot Chip. Não é uma canção da Whitney Houston, ou da Aretha Franklin ou do Prince. Espero que tenha uma vida. Espero que tudo o que fazemos tenha uma vida mas não precisa de ter uma vida nas tabelas da música pop para ter uma vida. Mas em termos de música pop, a “Over and Over” foi escrita acidentalmente mas correu melhor do que o que esperávamos e desde então foi uma espécie de descida mas nós não nos preocupamos se vamos ter uma nova “Over and Over” ou uma nova “Ready for the Floor”. A ideia é querer fazer alguma coisa diferente todas as vezes. Não era uma preocupação minha que One Life stand tivesse hits nele; ao mesmo tempo achava que a canção “One life Stand” era a melhor canção pop que alguma vez tínhamos feito e nem sequer chegou às tabelas, pelo menos não no Reino Unido, por isso… Quem sabe.

Sentes que este é um disco que dá um passo para fora da pista de dança?

Não foi intencional, definitivamente. Mas isso parece ser o que toda a gente diz…


Como foi gravar este disco? Como foi chegar até ele?

Foi relativamente fácil chegar a ele. Foi agradável. Trabalhamos todos juntos como banda nestas canções que eu e o Joe tínhamos escrito e todos contribuímos com partes iguais. Foi tudo feito na mesma sala e nunca tínhamos feito isso antes. Foi tudo através do processo de estarmos todos juntos no nosso estúdio a tentar chegar ao disco em conjunto. Mas nunca pensei que nos estávamos a afastar das pistas de dança, não tínhamos uma intenção de fazer isso. Mas eu nunca tive a intenção de mover-me em direcção da dança ou para longe da dança. Apenas tento escrever canções, que tenham interesse ou o feel certo. Só isso. Não tentamos não fazer nada para sabotar as canções para que fossem mais ou menos amigas da pista de dança, mas a percepção deste último disco é de que era lento no seu todo, mas acho que as pessoas querem dizer que é calmo em certos momentos, não agressivo. Todas as canções são bastante rápidas na verdade…

Dizem que é um disco com muita alma [soulful], usam muitas vezes essa palavra…

Eu espero que todos os nossos discos sejam assim. Acho que alguém a usou num press release ou algo assim e então tornou-se a frase-fetiche. Nunca ninguém decide por si próprio. Seja lá o que for que dizemos, repetem isso durante o ano.

Tu sabes isso porque escreveste press releases… [Alexis Taylor trabalhou na Domino Records algum tempo]

Sim, sim. [risos] Tu vês isso acontecer. Quando estou a ser entrevista acerca dos About Group, a nova banda em que estou… Dei uma entrevista em Londres no outro dia e todas as questões eram… ele nunca tinha ouvido a música, queria apenas ler aquilo que eu tinha escrito, ou alguns de nós tínhamos escrito. Esse era o estilo. Quase inevitavelmente, o que escrever num press release falha ligeiramente o sentimento da música. Enquanto que alguém quando não tem nada para ler e apenas ouve a música, pode dizer realmente o que é que acha. E não tem de ler um texto que o pode induzir em erro. O que é interessante… é por isso que eu acho interessante que as pessoas não consigam entender o One Life Stand, ninguém o conseguiu entender… Este é o único álbum em que 9 em 10 canções têm exactamente o mesmo tempo, têm todas 120 BPM e uma não tem. E no entanto toda a gente diz que as canções são mais lentas neste disco. E eu digo: não, são todas rápidas. De uma forma geral são todas mais rápidas que no disco anterior. Por isso porque é que acham isso? Mas o que eles querem dizer é que parece mais relaxado e isso não é a mesma coisa do que velocidade.

Estavas a falar-nos do teu novo projecto, About Group… O que é que nos podes contar acerca disso?

Bem, é um grupo. São quatro músicos, eu sou um deles. Charles Hayward, o baterista, que esteve nos This Heat; o John Coxon, na guitarra e teclista que esteve nos Spring Heel Jack e nos Spiritualized; e o Pat Thomas [tocou com Derek Bailey, Tony Oxley, Jimmy Carl Black eEugene Chadbourne, entre outros], um pianista e teclista que tocou essencialmente só em música improvisada, na verdade. E fizemos um álbum juntos que é totalmente improvisado e fizemos agora um novo que tem 14 canções de seguida, 13 escritas por mim e uma versão. Fizemos os dois álbuns num dia cada, foram muito rápidos de criar. Este álbum foi gravado em Abbey Road Road, no Studio 2, que foi onde os Beatles gravaram a maior parte da música deles – escolhemos esse estúdio porque é incrível e queríamos gravar num sítio onde nos gravassem bem. Fizemos foi algo bastante estranho: nunca ninguém tinha tocado as canções antes e estávamos a fazê-lo num estúdio muito caro, onde as pessoas costumam demorar seis meses a gravar um álbum. Por isso fizemos tudo da forma errada mas acabamos com algo com o qual estamos muito felizes. Foi uma espécie de álbum experimental mas com canções. Toda a gente está a improvisar, toda a gente está a tocar algo que nunca tinham tocado mas à volta de música construída. O que eu posso dizer sobre a banda é que o som varia sempre muito de um conceito para o próximo, do disco para os palcos é diferente… Quando tocamos na última terça-feira no Cafe Oto em Londres havia muita música improvisada a mostrar o caminho para as canções. E quando tocamos na semana anterior em Londres foram tocas as canções seguidas, por isso… Tocamos em Glastonburry e tocamos num festival chamado Meltdown, que têm em Londres, foi o do Ornette Coleman em que tocamos. Abrimos para os Gang Gang Dance, foi o primeiro concerto que fizemos. Os três concertos que fizemos antes deste álbum tinham apenas uma canção no início e uma canção, uma no fim e outra no meio. E o resto, os 45 minutos eram totalmente improvisados no momento. Por isso… Espero que isto descreva o grupo de certa forma… Tem tudo a ver com improvisação, na verdade.

Gostas desse lado da música experimental e improvisada…

Sim.


Também colaboraste com os Gang Gang Dance… Como foi?

Só cantei no novo álbum deles. Toquei com eles também em palco quando abrimos com o About Group. Mas no novo álbum eles enviaram-me a faixa e disseram: queres contribuir com alguma coisa? E eu fiz as partes vocais e enviei-lhes de volta. Tinha a Liz Bougatsos a falar mas não a cantar totalmente, a voz dela estava misturada para soar baixo, e eu quis que a minha voz soassem também baixo para que parecesse uma faixa instrumental. Há partes de vozes que aparecem e desaparecem de novo. Foi um sonho tornado realidade fazer parte do disco deles mas ao mesmo tempo senti que talvez não precisassem mesmo de me ter no disco por isso senti-me um pouco estranho.

Eles convidaram-te?

Sim. Eu e a Liz tínhamos falado em contar juntos acerca de um ano e de repente surgiu à última hora neste álbum. Senti de certa forma que me convidei a mim próprio. [risos] Porque a lembrei da ideia que tínhamos tido, não sei…

Mudando radicalmente de conversa, e voltando ao mesmo, já têm ideia acerca de um novo álbum para os Hot chip?

Bem, fiz alguma música nova com o Joe que é Hot Chip mas não sei que é parte do novo álbum ou se será um single ou o que quer que seja. Por isso, não, ainda não pensamos realmente ou discutimos como será o próximo álbum. Seria enganador dizer que já falamos sobre o novo álbum. Andamos a fazer outras coisas. O Joe anda a trabalhar em Two Bears, não sei se já ouviste falar mas é outro projecto no qual ele está envolvido, ele e o amigo Raf [Daddy]. O Raf canta e o Joe produz, escrevem as canções em conjunto. E eu tenho os About Group e por isso não estamos a concentra-nos em Hot Chip mas iremos fazer outro disco; começaremos provavelmente na parte final deste ano. Mas só começaremos a pensar como o disco será quando o começarmos a fazer música juntos.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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