ENTREVISTAS
Pega Monstro
Lol-fi é o novo preto
· 19 Jun 2011 · 22:53 ·
Por esta altura não há ninguém que não conheça de trás para a frente a letra de "Paredes de Coura". As Pega Monstro, dupla de manas lisboetas nascida no seio da Cafetra Records - uma label ainda a dar os primeiros passos, de um quarto para o mundo - estrearam-se em 2011 no que toca a discos com o EP O Juno-60 Nunca Teve Fita, uma colecção de cinco canções onde o ruído de uma guitarra se alia à pop na onda lo-fi a que temos assistido nos últimos tempos. Porque é que, então, havemos de lhes prestar mais atenção que aos outros? Simples: porque as músicas são altamente viciantes, porque são das mais puras personificações do teen spirit e porque versos como Ó Bernardino tu de Fachada não tens nada / Porque tu com essa barba eu fico molhada não podem senão provocar uma barrigada de um salutar riso (n.a.: lulz). Numa altura em que foram confirmadas para o cartaz da Fátima indie o Bodyspace foi saber um pouco mais da história das Pega Monstro e da Cafetra. Mas não só.
Antes de mais a pergunta da praxe: como surgiram as Pega Monstro? Que motivou a “cisão” (entre aspas, porque a banda ainda existe) com Os Passos em Volta?

Júlia Reis - Depois de ensaiarmos mais ou menos meio ano com Os Passos em Volta, eu arranjei uma bateria que ao fim de uns tempos veio cá para casa. A guitarra da Maria sempre esteve por aqui, então, começámos a fazer algumas músicas, já que Passos requer uma sala de ensaios com mais coisas. Além disto, há cerca de um ano, o Liceu Camões (na altura andávamos as duas lá) fez um concurso de talentos. Como para Passos era preciso levar muito material que não tínhamos, fomos as duas; mas perdemos.


Para além das bandas têm uma editora própria, a Cafetra Records. Qual é a história por detrás disto? Que banda ou label fez com que tivessem essa epifania?

Júlia Reis - Curtimos das labels americanas, da cena DIY. De certa forma também nos motivou a fazer a Cafetra. Vimos que era uma cena possível, e uma filosofia fixe. Todo o processo de fazer fotocópias para os cartazes, arranjar concertos, gravar precariamente quando não há outra forma, fazer 30 cópias de CD-R em casa, é um esforço que nós curtimos.

A Cafetra Records começou com Os Passos em Volta (Nós, o Éme, o Sar e o Junória) e os Kimo Ameba, uns amigos nossos (Leio, Sushi, Chico e Nacho, que é nosso primo). Depressa começámos a fazer outros pequenos projectos, dependia só de quem estava ou não no nosso quarto, basicamente - é onde temos algum material de ensaio. Daí surgiu, para além de Pega Monstro, 100 Leio (a Maria e o Nacho), Éme (a solo), Go Suck A Fuck (Leio e Pestana), Putas Bêbadas (Leio, Sushi, Abras), No Love (Sar e Sophie), Iguanas (Leio e Nacho), Rabu Mastah (Leio a solo) e Black Microwave (Chico a solo). Entretanto, conhecemos algum pessoal que curtiu da cena e nos ajudou bastante - João "Dreams" Chaves, o Cão da Morte, que gravou o EP do Éme, e o Filipe Sambado, com quem estamos agora a gravar Os Passos em Volta. Agradecemos muito a todos eles!

Sendo irmãs, a convivência tanto nos ensaios como no palco é saudável ou é mais tipo Oasis?

Júlia Reis - É mais do tipo saudável. Sempre fomos amigas e temos o mesmo grupo de amigos.

Vocês ainda são relativamente novas. Temem que a vossa idade possa fazer com que não vos levem a sério?

Júlia Reis - Não tememos, sentimos isso. Agora não tanto com Pega Monstro, mas com todas as bandas que temos. Nós somos todos putos, ninguém nos conhece. Quando tentamos arranjar concertos, a tendência é não aceitar ou aceitar o concerto com más condições.

Qual é a história por detrás da gravação do EP, e como é que acabaram a trabalhar com o João Chaves?

Júlia Reis - Nós tínhamos uma música no Myspace gravada com o Mac da nossa irmã e um ou dois vídeos ao vivo no Youtube. De alguma forma, o João ouviu, e ficou interessado em gravar de boa vontade, na sua sala de ensaios, no estúdio STOP (Porto), mesmo não nos conhecendo. Marcámos um fim de semana e ficámos em casa dele. Até deu para dar um concerto no Porto, para dez pessoas em ácidos na Casa Viva.

Porquê esta referência ao Juno-60? Quem se chegou à frente com o título?

Júlia Reis - Foi o João Chaves. É uma private joke. Se quiserem saber mais perguntem ao Chaves.

Houve um grupo no Facebook que pedia a vossa actuação no Milhões de Festa, e acabaram mesmo por ser incluídas no cartaz. Que esperam agora do festival?

Júlia Reis - Temos amigos que foram o ano passado e curtiram! O Quintela diz que vale a pena, e está com um cartaz fixe! Esperamos um fim de semana bem passado!

No concerto que vi quando abriram para os Glockenwise no Musicbox pediam desculpa por ainda não saberem tocar bem as músicas (mas não se saíram mesmo nada mal)… já têm tido tempo para ensaiar melhor? Que reacções destacam da malta que foi aos concertos que deram até agora?

Júlia Reis - Isso foi quando tocámos uma que tínhamos acabado de inventar, a "Akon", e nunca a tínhamos tocado ao vivo. Mas agora corre melhor, sim. Há um feedback bastante positivo! Claro que há sempre alguns que não curtem, mas o pessoal costuma curtir! Tocar ao vivo rules!


A “Paredes De Coura” é baseada em factos reais? Acham mesmo que as gajas do Porto são mais bonitas que vocês?

Maria Reis - Algumas coisas sim, outras são um bocado para rimar. O festival Paredes de Coura cansa mil, há um sofrimento enorme. Só que uns meses depois só nos lembramos das coisas boas, que nos fazem querer voltar. Não falo propriamente da Katyzinha, mas as gajas do Porto que vão a Paredes são mais giras, sim.

O que acharam do novo disco do B Fachada?

Júlia Reis – Gostei. Ainda não o ouvi com muita atenção, mas consigo dizer que não é dos meus preferidos dele. Não sei analisar as coisas como os críticos e não tem nada a ver com a letra ou com o facto de ser apenas uma música que digo não gostar tanto do álbum. Só não houve tantas alturas em que me senti a gostar.

Maria Reis – Eu, que curto mais as primeiras cenas do B, quando estava na Merzbau e o Há Festa Na Moradia, gostei mais deste do que, por exemplo, do B Fachada É Pra Meninos. Mas também ainda não o ouvi muito.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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