EntrevistaStellar OM Source

publicado em 14 Jun 2010 - 18:36

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Mulher oceano

Enquanto Stellar OM Source, Christelle Gualdi, francesa fixada na Holanda, tem lançado alguma da música de sintetizadores mais bela do planeta. É possível alinhá-la com o que os Emeralds e Oneohtrix Point Never andam a fazer (viagens guiadas por sintetizadores arcaicos), mas Gualdi tem um gosto especial pela new age e pelas virtudes extáticas do som - meio que utiliza para encontrar "os mundos externos desconhecidos e o interior desconhecido". O cosmos está-lhe no ADN: em miúda compôs com o pai uma banda sonora para uma exposição intitulada Musique et espace.

Christelle acaba de lançar Trilogy Select, na fundamental Olde English Spelling Bee (do qual ainda só ouvimos o espantoso "Island Best"). Falámos com ela em Outubro passado, aquando da última vinda a Portugal, num saboroso chat virtual.

Pareces estar a passar muito tempo em Portugal. O que te parece?

É novo para mim! As pessoas estão longe do resto da Europa, vivem muito para si mesmas porque a cultura é forte, há muita história, o país é lindo. É muito diferente do sítio onde vivo onde há muitas trocas com os países vizinhos. Gosto muito da profundidade da cultura portuguesa.

Tocaste com os Frango e os Osso. Encontras essas características de alguma forma presentes na música deles?

Sim. Como viajo muito e faço várias digressões na Europa e nos Estados Unidos, vi muitas bandas com algumas semelhanças, mas eles fazem algo genuíno, sobretudo no uso do ritmo.

Interessante. Têm um passado rock.

Sim. E África não está longe. Uma analogia: a pastelaria foi introduzida pelos franceses, mas em Portugal levaram-na ao próximo nível. E, como Portugal foi um país conquistador há muito tempo, lidar com influências é algo que conhecem.

Li que começaste a tocar música com o teu pai, que trabalhava numa rádio.

Sim, no fim do dia, a seguir ao trabalho principal dele. Funcionava nos subúrbios comunistas de Paris. A rádio era, na verdade, a rádio comunista oficial e ele tinha um espaço musical de quatro horas três vezes por semana. Eu pedia e ele levava-me para o estúdio. Cada programa era só de uma coisa: blues, rock, prog e música ao vivo. Adorava estar lá, tinha entre 10 e 14 anos. Tinham uma discoteca gigantesca.

E tocaste lá?

Não, eu nunca. Mas o meu pai e os amigos sim. Era muito nova. E o meu background era clássico.

De que artistas gostavas quando eras adolescente?

Poucos. Um dos meus professores de música introduziu-me a Coltrane e aos Magma quando tinha 13 anos e também a alguma música de fusão, como os Return to Forever. Abriram-me totalmente os olhos, mudaram a minha vida. A minha mãe dançava em clubes. Lembro-me de ouvir lá Prince, o primeiro álbum.

Tiveste lições de música?

Sim, estive no conservatório dos seis aos 16 anos, depois mudei-me para a Alemanha para uma escola de música especial e toquei numa orquestra durante dois anos. Depois voltei para Paris para estudar musicologia.

No underground, por vezes, a teoria musical é pouco valorizada - um pouco como no punk. O que é que esse conhecimento profundo da música trouxe à tua música?

Na verdade, parei com as aulas durante vários anos. Pensei que ia desistir completamente da música. Quando voltei, quis cortar com esse passado e tocar música livre. Sabes, quando tens treino clássico a improvisação parece impossível. É algo totalmente desconhecido e não há grande interesse nela. Por isso, quis desafiar-me e acabei por entrar no underground a que te referes. Quis explorar novos territórios, caso contrário não valia a pena o esforço. Neste momento, é interessante porque estou entre os dois mundos. Voltei a compôr, a escrever partituras, também porque tenho projectos que incluem músicos e preciso de comunicar com eles.

© Marta Pina

Não és virgem: tocas com uma atitude de descoberta, mas o teu conhecimento musical enforma o teu trabalho.

Sem dúvida. Mesmo que me esforce, ele volta. Uma das minhas rotinas de ensaio favoritas é tocar de forma "errada". Como uma criança, quase de olhos fechados.

Na adolescência, já andavas a tocar sintetizadores e a gravar?

Sintetizadores e computador eram instrumentos que usava com o meu pai. Tocava também violino, saxofone e o meu instrumento principal era o contrabaixo. Mas sim, o meu pai uma vez aceitou uma encomenda para fazer uma banda sonora de quatro horas para uma exposição e pediu-me para fazê-la com ele. Estar no estúdio caseiro dele foi mágico. Usamos [os computadores] Atari 1040 (o meu pai ainda o venera pela integração MIDI) e Yamaha Msx.

Lembras-te como é que soava? Tinha algo a ver com o que andas a fazer?

Sim, tenho as gravações! A exposição chamava-se Musique et espace, por isso era mesmo cósmico, mas tipo filmes de ficção científica. Longas passagens de cordas a evocar viagens espaciais e depois sons estranhos - a descoberta de novos mundos ou o desconhecido. O som da tecnologia.

OK, então tinha algumas parecenças.

Lembro-me perfeitamente dessas sessões.

O que é que te atrai na música cósmica?

Duas coisas: os mundos externos desconhecidos e o teu interior desconhecido. A música pode ser um meio para viajar até eles. Além disso, estudei arquitectura, adoro expansão, transcendência, atingir o belo, o extático. Para mim, isso é o máximo que podemos atingir enquanto seres humanos e a música é a arte indicada para isso, sendo uma arte baseada no tempo, tão aberta e abstracta. Na minha arte visual também toco essas qualidades, mas o efeito é muito mais curto. A viagem está no processo, não no resultado.

A música é a arte que mais nos evolve. Se não te diz nada, se não te envolve, rejeitas.

Exactamente. Fico contente que uses essas palavras.

Nesta década que está quase a acabar parece ter havido mais gente a chegar a música freeform ou de contemplação. Achas que pode ser uma reacção ao mundo acelerado em que vivemos?

Hmmm, isto é ainda tão marginal. Os putos adoram a velocidade. Há menos pessoas agora do que havia na altura dos Pink Floyd e Tangerine Dream. Se vires os vídeos no YouTube com todos os tipos da kosmische na WDR verás que os sítios estavam cheios. Talvez agora haja um "revival" que tem a ver com os meios de produção e distribuição. Toda a gente pode gravar e produzir em casa, vender e trocar pela Internet. Talvez tenha havido uma curva descendente nos anos 80 e 90.

É curioso que alguns artistas underground de hoje, como tu, sejam influenciados por músicas que eram relativamente populares nos anos 60 e 70. As massas tornaram-se menos abertas a música aventureira.

É algo generalizado, também visível nos produtos feitos na China sem qualidade. Sim, a sociedade está mais uniformizada, mas acho que há ainda novos caminhos a ser explorados. Adorava levar a minha música a mais gente, não faço o culto da exclusividade. Há uns dias vi quatro discos meus num blogue para download, o que é fixe.

Acho que os estou a ver agora.

Espero que os tenhas descarregado!

É este site http://weedtemple.blogspot.com/2009/10/stellar-om-source.html?

Sim. Os CD estão quase esgotados, o LP já está, por isso é bom terem uma nova vida.

Depois de tantos anos a ser desprezada, a música new age é uma influência importante no underground. No teu trabalho, em particular.

Foi a minha mãe que me mostrou esta música. Punha cassetes new age a tocar para eu adormecer e construía pirâmides pela casa! Nos últimos tempos, finalmente, pude não sentir vergonha pelas minhas primeiras influências - e fundamentais - graças a pessoas como os Skaters.

Quando é que começaste Stellar OM Source?

Com este nome e só com sintetizadores, há quatro, talvez cinco anos. Desde então nunca mais toquei numa banda, a não ser em ocasiões pontuais.


Já tiveste bandas, portanto.

Sim, tocava baixo e guitarra. Stiff River e Mean Motion. Os Mean Motion tocaram na Zé dos Bois.

Mean Motion era rock.

Sim, pesado. Era parecido com Fish & Sheep.

Perdeste o interesse no rock pesado e na vida de banda?

Não, mas não posso fazer as duas coisas. Sigo um caminho natural.

Tens um emprego normal?

Não. Vivo no meu estúdio. É muito barato e fresco. compro vegetais no mercado, compro roupa apenas em lojas de segunda mão. Sou apoiada pelo governo holandês como artista. Dá para pagar a renda, mas é pouco e tenho que me esforçar todos os meses. Mas não penso nisso.

O governo holandês é amigo dos artistas?

Bem, precisas de estar reconhecido como artista - através de estudos artísticos e do teu trabalho. E tens que preencher montes de papelada. Mas é, sem dúvida. Parte do meu trabalho diário é redigir e apresentar candidaturas a bolsas e coisas do género. No fim de contas, sou feliz!

Por que é que te mudaste para a Holanda?

Queria estudar arquitectura. Fui para a Holanda para um estágio, depois contrataram-me. Além disso, sou nómada por essência. Adoro viajar e ser um estrangeiro. Estou fixada na Holanda e sinto-me livre para viajar.

Um dia ainda vens viver para Portugal...

Honestamente, um dos meus sonhos é ter um estúdio junto ao mar. E estou a pensar em Portugal. Ocean woman é a minha alcunha.

Temos um mar fabuloso. Vivo no norte, onde o mar é mais revolto.

É isso que eu adoro. É tão poderoso, é a natureza no seu esplendor total.

Surfar deve ser o equivalente desportivo à tua música. Aceita isto como um elogio.

Se quase não tivesse morrido no mar, estaria a surfar todos os dias. Estou a trabalhar no meu medo agora, indo à piscina.

Espero que o ultrapasses.

Sim, eu quero. Ocean woman! Bem, acho que vou indo, quero cozinhar algo e vai ser gnocchi al pesto!

Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com


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