ENTREVISTAS
Sunset Rubdown
Homem de muitos nomes
· 23 Mar 2009 · 20:55 ·
Breve história do rock nasal
Capítulo CLXVI – O passado, presente e futuro de Spencer Krug

Não se esgota facilmente uma conversa mantida com Spencer Krug, pulmão hiperactivo do Canadá mais reconhecido pelo drama, brio, fantasia e tendência sinfónica das suas canções. É impressionante o desdobramento olimpico de Spencer Krug trabalhando divisões diversas da canção, ela mesma sobrelotada de ideias, sem que, no entanto, se denote desgaste algum na transição entre bandas. Quando assim acontece, a regularidade fala por si. Em menos de dezoito meses, Spencer Krug viu o seu nome vincado em três discos que assinalam progresso: Random Spirit Lover colocou os Sunset Rubdown entre as bandas mais inventivas e versáteis na variação da canção; At Mount Zoomer singularizou os Wolf Parade pela ambição (e, com isso, dividiu opiniões); ultimamente, Enemy Mine, segundo dos Swan Lake, comprova que o depósito secundário dos seus intervenientes (Spencer, Carey Mercer e Dan “Destroyer” Bejar) pode carregar maravilhas como “Spanish Gold, 2044” ou “Spider”. Não há tempo para dormir em Montreal, no Canadá. O Bodyspace foi obrigado a interromper as férias de Spencer Krug, algures no México, para conhecer mais aprofundadamente os planos e métodos que movem um dos mais inquietos escritores de canções da actualidade.
Eras capaz de me contar como correu a última digressão de Wolf Parade? Ficaste entusiasmado com as soluções oferecidas pelas novas canções?

Foram necessárias algumas digressões para entendermos realmente o que estávamos a fazer com o novo material. Quando chegámos a meio da nossa mais recente digressão, tudo passou a soar mais coeso, até que, de repente, o Hadji Bakara, o outro teclista, anunciou que não estaria disponível para os concertos na Europa. Levou isso a que, durante a segunda metade da digressão, na Europa, tocássemos como um quarteto e não como um quinteto. Eu tocava piano, o Dan tocava guitarra, o Arlen tocava bateria e o Dante ocupava-se da guitarra e do baixo. Subitamente, demos por nós sem aquela camada adicional de ruído de teclado. Isso permitiu-nos escutar as “estruturas rock” das nossas canções na sua forma mais essencial. Canções que já podíamos tocar, mas que, naquela altura, escutámos de um modo diferente, mais exposto. Achámos que isso foi desafiante de uma boa maneira, excitante e recompensador. Abraçámos essa disposição mais simples e próxima de um rock cru, e acabámos por nos divertir muito em palco enquanto tocávamos pela Europa. Resumidamente, diria que tudo correu imprevisivelmente bem, e, no fim, estávamos agradavelmente surpreendidos com o resultado ao vivo destas novas canções.

Sei que tocaste em algumas partes da Suécia na última digressão com Sunset Rubdown. Impressiona-te a apreciação popular que se sente na Suécia em relação a escritores de canções algo atípicos nas suas letras e temas?

Não sei se estou a entender bem…

Refiro-me a como a Suécia parece ter um maior entusiasmo na adesão a escritores de canções – como o Jens Lekman, por exemplo – que dificilmente chegariam ao Top 10 de outro país, pelo facto de não serem tão formatados para rádio como um tipo como o Jack Johnson...

O público sueco foi caloroso e receptivo, sim, mas não mais do que em outras partes da Escandinávia e da Europa, tanto quanto me recordo. Todos os públicos que encontrámos na Europa pareceram-nos entusiasmados e receptivos. O mesmo acontece nos Estados Unidos. Acho que as pessoas sabem ao que vão. Acho que terminaram os dias em que os fãs de Wolf Parade vinham aos concertos de Sunset Rubdown na esperança de ver uma versão diferente de Wolf Parade. A Suécia não me pareceu diferente de outros países em termos de mentalidade aberta. Ainda assim, não passei tempo suficiente na Suécia para saber o que tocam nas rádios ou como são culturalmente. Acredito que seja verdade aquilo que referes, mas não tenho experiência própria. É porreiro a Suécia ser assim.

Continuas a gravar demos mais rudimentares das músicas de Sunset Rubdown, que, depois, ganham toda aquela corpulência instrumental? Acreditas que a tua perspectiva em relação à utilidade das demos mudou muito desde que começaste?

Não, já não faço demos, porque trabalho com um grupo de pessoas fantásticas e extremamente talentosas. Procuro inseri-las na escrita de canções o mais cedo possível. Escrevo uma canção no piano ou na guitarra, e toco-a para eles, e explico onde quero ir e que melodias gostaria de frisar, em que momento e como, etc.. A partir daí, trabalhamos como um grupo. Fragmentamos a canção e agrupamo-la depois como uma banda, e permitimos que a canção nasça sob o olhar de todos, com cada um consciente do papel do outro. Se optasse por entregar separadamente as demos, imagino que cada um chegasse depois à sala de ensaio com uma ideia muito diferente da direcção que os outros instrumentos deveriam seguir. Actualmente, é muito melhor definir tudo em simultâneo, até porque o contributo deles atribui tanta identidade à banda como as minhas estruturas e voz. Agora trabalhamos como um conjunto. Sem demos.

Como se sucedeu a adaptação do Mark (Nicol) aos Sunset Rubdown? Quais são as suas principais qualidades enquanto músico?

O Mark aprendeu as canções muito, muito depressa. Inicialmente, ele juntou-se a nós como percussionista adicional, com a possibilidade de poder tocar baixo numa ou duas canções. Mas, atendendo a que sua formação passou pela bateria, adaptou-se ao baixo com extrema facilidade. O facto de ele tocar guitarra facilita a adaptação às escalas do baixo, e o seu à vontade na bateria levou a que tocasse as linhas de baixo de um modo incisivo a nível rítmico. O novo baixo adicionou muita energia a canções antigas, e não resistimos a que tocasse baixo mais vezes do que planeáramos. E a memória dele é fantástica. Ele aprendeu quinze canções em apenas duas semanas ou coisas assim. Ele ainda ajuda na percussão de uma ou outra música, mas, se fosse necessário restringi-lo a um instrumento, teria de ser o baixo, o que até é engraçado, quando sempre pensámos que passaríamos bem sem ele…


Nunca soube ao certo se músicas como “Stadiums and Shrines II” e “Snakes Got a Leg III” faziam parte de suites maiores. Agrada-te deixar uma canção aberta às suas próprias sequelas e prequelas?

Esses exemplos que referes, ou sempre que coloco um II ou um III num título, são apenas canções que foram gravadas em duas ou três versões diferentes, sem deixarem de ser a mesma canção. É possível que eu tenha feito sozinho uma versão, que acaba por ser lançada, e depois desenvolva, com a banda, uma outra versão mais ruidosa, que funciona bem também e merece ser partilhada, acabando por sair na sua versão II. Porém, ocasionalmente divido e multiplico motivos, temas, ou ideias líricas em duas canções separadas, e fico assim com duas abordagens diferentes apontadas a ideias semelhantes. Passo depois a acrescentar Part I e Part II a cada um dos títulos. Tudo isso não faz muito sentido e talvez seja desnecessário, mas poupa-me de tentar encontrar explicações para ocasiões em que uso o mesmo verso em duas canções diferentes ou coisa assim. Creio que nomear as canções desse modo indica que estou consciente do que faço, ou assim espero. E, basicamente, sim, aprecio quando os temas de uma canção terminam em aberto e prontos a conduzir a uma segunda canção, que faça parte de um mesmo todo, ou de um corpo maior. Gosto de pensar que existe uma linha comum a tudo o que faço e que um dia será facilmente reconhecível como algo óbvio e transparente, e não vago e abstracto, tal como me parecem actualmente grande parte das ideias e a forma como as exploro.

Sei que gravaste como Fifths of Seven um disco que estava destinado a ser o único com esse nome. Quão libertadora é a oportunidade de compor para um projecto isolado como esse? Quando gravas como Sunset Rubdown preocupas-te mais em manter uma certa continuidade?

Sim, tal como referia, procuro manter uma estrutura transversal ou um sentido de continuidade nas gravações ou concertos associados a um mesmo nome, como Sunset Rubdown ou Wolf Parade. A partir daí, atrai-me a ideia de criar um novo pseudónimo para explorar ideias que possam surgir do nada. Desse modo, não sou obrigado a enquadrar essas ideias para que satisfaçam as minhas expectativas ou as das outras pessoas em relação ao que os Wolf Parade “são”, por exemplo. Podem evoluir naturalmente, sem serem forçadas. Gosto de pensar que conceitos ponderados levam a melhores canções. Por isso, sim, quando se trata de um projecto isolado, como Fifths of Seven, ou algo que nunca será tocado ao vivo, como Swan Lake, existe certamente uma sensação de liberdade criativa, uma falta de expectativas e de peso, que simplesmente não se verifica no segundo ou no terceiro disco de uma banda “no activo”. É chato, mas é a verdade.

E até que ponto já estás habituado a transitar entre Sunset Rubdown e Wolf Parade?

Estou muito habituado. Não representa qualquer problema. Aprendi a planear tudo antecipadamente. Guardo uma quantidade de reservas criativas para cada um dos projectos em que estou inserido, e tento certificar-me de que os preencho com noções pertinentes. Tento adivinhar quais das minhas habilidades se enquadram em cada banda. Na verdade, ambas são bandas rock. Logo não implica um grande desafio alternar criativamente entre uma e outra. A nível de calendário, tudo passa por planeamento e comunicação.

Colaboras com alguém no EP que estás a preparar centrado na marimba?

Não, só eu toco na cena da marimba. Já está praticamente acabado, o que é uma pena porque acho que não pode ser lançado antes de Setembro na Jagjaguwar, que já tem preenchidas todas as datas de lançamento de Primavera / Verão. O calendário está cheio. É um disco cheio de marimba e bateria, e gosto de como soa. Por isso, é desnecessário o envolvimento de outra pessoa. Trata-se de um disco a solo e ainda não sei bem com que nome vou assiná-lo. Posso escolher Sunset Rubdown, embora esse seja o nome de uma banda completa, ou optar pelo meu novo aliás, que é uma espécie de alter-ego realmente disposto a entregar-se ao hippie que tem dentro de si.


Já produziste um conjunto de canções considerável na pele desse alter-ego?

Não. Existe um sete polegadas limitado, que poderá ser lançado não sei bem quando. À parte disso, apenas o EP de marimba e umas ideias soltas.

Foi divertido tocar no ATP organizado pelos Explosion in the Sky? Pudeste ver outros concertos?

Sim, foi fantástico. Os festivais costumam ser estranhos, mas este foi porreiro. Os meus concertos favoritos foram os de Silver Jews e de Battles. Tenho a certeza de que foram muitos os grandes momentos. Recordo-me dos Animal Collective usarem uma luz de arco-íris controlada por Midi e de ficar impressionado com o alto volume dos Dinosaur Jr.. Devo, mesmo assim, confessar que tenho dificuldade em concentrar-me na música durante os festivais, quando tanta merda acontece ao mesmo tempo. Depois de angariar a capacidade mental para apreciar duas ou três bandas, ando por ali a absorver estímulos aleatórios sem prestar especial atenção ao que seja. Acho que nem toda a música foi feita para ser totalmente digerida e reflectida enquanto se pisa um relvado sintético, com a preocupação de encontrar um lugar para deixar um copo de plástico vazio.

Durante o tempo que passas em digressão pela Europa, é habitual teres a oportunidade de cultivar o interesse por lendas e contos europeus? Não é também esse tipo de coisas que se infiltra nas letras de Sunset Rubdown?

Estaria a mentir se dissesse que tenho um interesse activo por lendas e contos europeus. Tenho um interesse vago e generalizado por folclore e mitologia de todo o mundo, mas não o alimento com uma investigação académica, ou mesmo de qualquer maneira. Ocasionalmente, posso até escrever sobre personagens ou lugares como metáforas para as minhas interpretações do bem e do mal, do amor e do ódio, ou da ausência desses. Prefiro inventar o meu próprio enredo e folclore do que roubar desavergonhada e incorrectamente os mitos e religiões de outros lugares e outros tempos. Assim acontece no último de Sunset Rubdown, quando, a determinada altura, eu e a Camilla estamos a cantar para Apolo, a censurá-lo por espalhar a sua inspiração poética com demasiada liberdade, permitindo, assim, que gente como eu e outros tipos tenham uma voz no mundo. Depois troçamos da sua irmã Artemis, por ser “fácil”. Ela gosta de andar à caça e de disparar sobre coisas, mas quem não gosta? Contudo, possuo um conhecimento extremamente limitado do que ambos representam na mitologia. Estou apenas a aproveitar o nome deles e a transformá-los nos meus personagens. Ou seja, na minha mente usam óculos escuros para protegerem os olhos do brilho produzido pelos seus corpos de semi-deuses; a Artemis tem uma alça do soutien à mostra ou cena assim. É dessa forma que os contos e lendas se infiltram nas minhas canções e escrita: como fragmentos emprestados que me ajudam a criar uma mitologia própria e a veicular uma ideia de um modo que seja mais divertido cantar.

Parece-me que aquele projecto das Polaroids, mantido pelo David Horvitz com Xiu Xiu, servia também para construir alguma intimidade com os fãs, assim como para documentar a boa forma da banda. Procuravas algum desses aspectos, quando aplicaram um modelo semelhante a Sunset Rubdown, ou gostavas apenas do trabalho do David Horvitz?

Eu gosto do seu trabalho, ou mais especificamente de como ele não leva a fotografia a sério, como acontece com alguns fotógrafos. Até certo ponto, ele subverte a ideia de pefeição na imagem de uma banda, usando máquinas descartáveis e fotografando aleatoriamente, remetendo-as depois aos fãs sem as seleccionar. Gosto muito dessa ideia. Existe uma certa vulnerabilidade aí. Acaba por tornar a banda mais humana aos olhos dos fãs, que recebem as fotos, antes de serem filtradas, editadas, planeadas e literalmente vistas. É muito honesto, basicamente, e é por esse motivo que eu estava mesmo entusiasmado.

Ainda acreditas que pode ser consumada aquela tua colaboração com o Jamie Stewart? Que qualidades suas mais te atraíam quando iniciaram contactos no sentido da colaboração? Tens preferência por algum disco de Xiu Xiu?

Não tenho um disco favorito de Xiu Xiu, mas o Women As Lovers caiu-me no goto. Adorava ainda fazer qualquer coisa com ele, mas devo admitir que, neste caso, fui eu que larguei a corda. Estive muito ocupado no ano passado e sabia que, se levasse avante a colaboração que tínhamos em mente, acabaria por lhe enviar coisas abaixo da média. Basicamente, não tinha boas ideias em reserva. Já percebi que avançar só por força do entusiasmo, mesmo quando não se tem ideias, acaba por resultar em algo merdoso e não na beleza inicialmente procurada. É melhor aceitar que essas coisas não acontecem por magia. Ainda assim, existe sempre uma esperança, mas encontra-se tão distante como sempre. O Jamie é, para mim, um extraordinário compositor: totalmente concentrado, rigoroso na atenção dedicada ao detalhe e incrivelmente consciente e ponderado na forma de preencher o espaço. Não acredito que grande parte de Xiu Xiu, se tanto, seja apenas improviso. Penso nele como um compositor louco, ao estilo de Stockhausen, e é por isso que seria realmente desafiante e óptimo trabalhar com ele.

Guardas boas recordações da tua primeira passagem por Portugal, na digressão com Destroyer e Frog Eyes? Recordo-me desse concerto ter sido excelente.

Toda a digressão foi hilariante. O Dan Bejar comeu chocos com tinta. O Carey “The Calimocho Kid” Mercer destruiu uma quantidade enorme de copos de vinho tinto caros ao misturá-los com Coca-Cola. Mas recordo-me de todos estarmos muito enamorados com Lisboa. É uma cidade linda e descontraída. Já voltei duas vezes, desde aí: uma para visitar e a outra com Sunset Rubdown. Foi caro ir até aí para o nosso último concerto, mas valeu a pena. Ficámos em Portugal durante mais três dias. Não contes ao resto da Europa, mas Portugal é o meu favorito…

Algumas das recompensas dessa digressão contribuíram para que avançassem com Swan Lake?

Sim. A primeira vez que falámos disso foi como uma piada. Uma piada que começou nessa digressão com Destroyer e Frog Eyes. Achámos que era hilariante formar um colectivo de escritores de canções, e gravar depois discos com as nossas limitadíssimas capacidades técnicas e débil domínio dos instrumentos. A partir daí, o potencial da piada tornou-se divertido ao ponto de ser irresistível. A culpa foi do Carey, o verdadeiro instigador de Swan Lake.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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