ENTREVISTAS
Fuck Buttons
Botão que fode botão gera cem anos de distorção
· 28 Abr 2008 · 08:00 ·
No fundo, bem no fundo, o amor deles também é um combate, embora dotado de um mais extenso alcance emocional que, durante toda a descida dantesca de Street Horrrsing, leva o ponteiro (deci)bélico a avançar consideravelmente na sua escala, deixando ainda em aberto a possibilidade de existir sempre um extremo mais vermelho capaz de ser materializado na altura de encontrar os Fuck Buttons em palco. Benjamin John Power e Andrew Hung não desesperam por ver evaporada a ameaça de bluff gerada pelo hype que os insufla, mas criaram um disco que é credível cruzada na sua procura de graciosidade e esperança por entre seis mares de ruído incaracteristicamente obtuso. Atreveram-se a abotoar o botão mais duro de abotoar. Procuraram soluções musicais alternativas para acompanhar as reportagens televisivas que dão conta do terror semeado por um tigre ou gorila à solta numa cidade australiana. Recentemente, estiveram à conversa com o Bodyspace.
Entre o vosso ponto de partida e momento actual, crêem ter havido algumas viragens que tenham resultado em mudanças consideráveis ou todo o desenvolvimento estético sucedeu-se naturalmente?

A.H.: Foi definitivamente natural. A natureza da experimentação é extremamente libertadora e quando os acidentes levam a descobertas, o termo “experimentação” pode mesmo assim ser aplicado sem qualquer sentimento de culpa. (risos) Mas, a sério, os desenvolvimentos surpreendem-nos até a nós e é isso que torna tudo tão excitante dentro dos Fuck Buttons.

Que características peculiares fizeram de “Bright Tomorrow” uma faixa merecedora do seu próprio picture disc e videoclip?

B.J.P.: Estamos muito satisfeitos com a “Bright Tomorrow” e isso levou a que não tivéssemos qualquer tipo de problema em transformá-la em single.

O lado-b desse single, “Little Bloody Shoulder”, surgiu nas mesmas sessões que resultaram no Street Horrrsing? Qual foi o ritmo e sentimento geral verificado durante o processo de gravação?

A.H.: A “Little Bloody Shoulder” foi escrita antes dessas sessões e gravada ao mesmo tempo que o Street Horrrsing. Quando chegou a altura de gravar o disco na sua totalidade, tínhamos já desenvolvido a forma do concerto ao vivo até um ponto que o tornava praticamente pronto a ser transposto para disco. Foi por isso muito fácil e satisfatório o processo de transição para estúdio.

Têm trabalhado em novo material desde que o Street Horrrsing ficou completo?

B.J.P.: Nós estamos constantemente empenhados em produzir novo material!

Existem alguns ruídos rotineiros que vos interessem peculiarmente?

B.J.P.: Nem por isso. (risos)


Ainda vos diverte o facto de verem o u e o c do nome ser substituído por dois pequenos asteriscos naquelas publicações mais pudicas? Qual foi a mais estranha reacção que mereceram em relação ao nome?

A.H.: Perguntam-nos constantemente acerca de que motivos nos levaram a escolher o nome, quando o mesmo é tão difícil de ser publicado em determinados lugares. Ou seja, porque decidimos tomar parte na nossa própria sabotagem. Para nós, um nome é irrelevante, porque estamos mais interessados na música e acreditamos firmemente que a nossa música pode transcender todo esse tipo de barreiras. Posto isto, resta-me dizer que, sim, o nome ainda nos diverte muito.

Atendendo a que já fizeram a banda-sonora para um filme, é possível que venham ainda a lançar algo que combine som e visuais?

B.J.P.: Nunca digas nunca!

Quais são – se algumas – as partes pré-programadas que trazem para os concertos? Essa é uma daquelas opções que tentam evitar tanto quanto possível?

A.H.: O nosso processo de escrita efectua a exclusão natural dessas partes. Compomos e estruturamos a nossa música a partir de jams, levando isso a que a forma de tocar ao vivo seja parte inerente do processo de escrita. Na verdade, as coisas não ficam só por aí, porque tocamos também nos nossos quartos, onde o volume de decibéis é obrigatoriamente restrito, além de testarmos também a nossa música em concertos. As actuações informam-nos frequentemente acerca das qualidades e fragilidades de cada faixa e assim avança o processo!

Encontram-se entusiasmados com a perspectiva de vir a tocar no Festival ATP Vs. Pitchfork? Será um pouco como tocar em casa, não? Acham que o Street Horrrsing podia já adequar-se a um âmbito Don’t Look Back e ser tocado na íntegra?

A.H.: (risos) Sim, definitivamente. Adoramos o ATP e é realmente como estar em casa quando vamos ou tocamos lá. Adoramos também navegar na Pitchfork como se fosse uma segunda casa onde encontramos amigos e relembramos bons tempos. Já tocávamos o Street Horrrsing como um todo antes de ser lançado – pode ser que, certo dia, o voltemos a fazer.

Tendo em conta que têm raízes em Bristol, não posso deixar de perguntar se estão entusiasmados com a chegada do novo disco de Portishead?

B.J.P.: Claro. Estamos sempre entusiasmados com a chegada de nova música.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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