ENTREVISTAS
Deerhoof
A esquizofrenia do algodão doce
· 20 Abr 2004 · 08:00 ·
Em tempos em que o monge copista é rei (do rock), os Deerhoof constituem uma das mais refrescantes e inovadoras dádivas do actual panorama musical. Acabam de lançar Milk Man, disco que volta a levar-nos no carrossel imprevisível da loucura pela mão do terrível "homem do leite". Satomi Matsuzaki, Greg Saunier, Chris Cohen e John Dieterich são quatro monstrinhos endiabrados que nos fazem ver que o rock pode ser igualmente esquizofrénico e infantil, doce e rude, divertido e... bem, ainda mais divertido. Em discurso directo, John Dieterich acciona o modo alienação mental - como os Deerhoof tão bem sabem fazer - e partilha com o Bodyspace um pouco da sua saudável demência.
Então, porquê Milk Man? Porquê bananas e morangos? Batido?

Não tivemos grandes hipóteses. Milk Man é malévolo, e induziu-nos a fazer este álbum. Achas que poderíamos tê-lo feito de outra forma? Quem me dera que tivéssemos feito um álbum sobre noz-moscada e cilantro.

Não, acredito mesmo na maldade do Milk Man. Bananas e morangos parece-me bem. O responsável pela ilustração da capa do álbum foi Ken Kagami. Achas que ele conseguiu criar o imaginário certo para o álbum?

Na verdade, a arte do Ken existia muito antes da música do nosso álbum. Achas que conseguimos criar o imaginário correcto para a arte dele?

Completamente. E também acho que Milk Man é, de certa forma, o regresso à loucura e ao caos de Reveille

Talvez seja mais constrangimento solitário do que esquizofrenia. Queríamos usar mais sons de novo depois de termos feito Apple O', que tinha um sentimento mais live do que Reveille, talvez.

E estão contentes com o resultado?

Claro. Acho que é menos propenso a ser apresentado ao vivo que os últimos discos e isso constituiu um certo apelo para nós. Queríamos apresentar as canções numa forma muito clara e idealizada. Tem sido muito divertido tocar em muitos dos espectáculos recentemente porque estamos a aprender a tocar estas canções e a levá-las a sítios que as gravações não levaram.

Acham que o Barry Manilow ia gostar de Milk Man?

Não tenho a certeza. No entanto, gostava muito que o Neil Diamond gostasse.

Apple O' é um disco muito diferente de Reveille. Explora territórios bastante distintos daqueles normalmente explorados pelos Deerhoof. O que é fez com que isso acontecesse? Em que é que estavam a pensar?

O Chris juntou-se a nós no exacto momento em que estávamos a acabar Reveille, e ele achou que o álbum não se aproximava muito daquilo a que realmente soávamos como banda. A ideia dele para o nosso próximo álbum era que ele tivesse uma sonoridade mais live, que fosse música menos concreta ou qualquer coisa do género. Achámos que devíamos tentar.

Na vossa opinião, a que se deve todo o sucesso de Apple O'?

Não tenho assim tanta certeza que Apple O' tenha sido um sucesso. De qualquer das maneiras, não faço ideia porque é que as coisas foram ou não populares. Se Apple O' foi popular, foi, espero eu, por ser bom.

Lançaram três álbuns em menos de dois anos. Estão a competir com o Frank Zappa?

Se não estou enganado, o Frank Zappa está morto. Na verdade, de momento, estamos a competir com Dweezil Zappa, cuja música nunca ouvimos. Quem é que ganha?

Espero que ganhem vocês. E o que pensam dos Lightning Bolt ou dos Black Dice?

A primeira vez que vi os Lightning Bolt ao vivo foi numa pequena cave em Boston. Uma cave muito pequena mesmo. Eles são tão barulhentos. Pensei mesmo que era a coisa mais barulhenta que alguma vez tinha ouvido. Depois, tocaram os Thrones. Eu estava a um canto, e quando eles tocaram uma certa nota os meus olhos começaram a vibrar dentro da minha cabeça. Nunca tinha sentido nada assim até essa noite.

E em relação às Erase Errata?

As Erase Errata contribuíram, de uma forma muito particular, para o “tinnitus” que assola o meu ouvido direito.

Os vossos ensaios devem ser mesmo divertidos… como é que acontece o processo de escrita das vossas canções?

Os nossos ensaios não são assim tão divertidos como se possa imaginar. O Chris vive em Los Angeles, por isso não temos hipótese de praticar muitas vezes. Quando ensaiamos, encontramo-nos na casa dos pais do Chris, e praticamos dez horas por dia durante muitos dias seguidos. O processo de escrita é diferente em todas as alturas. Todas as canções são escritas de uma maneira completamente diferente da próxima. Muitas das vezes (“Panda Panda Panda”, em Apple O' por exemplo) o Chris escreve a maior parte da canção e a Satomi aparece com uma ideia para a melodia e para as letras. Em “Dog on the Sidewalk”, a Satomi tinha umas ideias para letras que foram colocadas ao lado de alguma música electrónica que eu tinha feito. Em “Milkman”, o Greg escreveu basicamente a canção toda e a Satomi introduziu as letras. Cada canção nasce de uma forma completamente diferente. Não queremos ter uma única forma de compor música porque isso tornaria as coisas chatas para vocês e para nós.

Onde é que encontram inspiração para escrever as letras das vossas canções?

Às vezes, quando ouves alguma coisa, uma palavra ou uma ideia, uma imagem vem à tua cabeça. Como um homem com uma pedra em vez de cabeça. Esse homem pode ou não ter um objectivo, mas provavelmente faz coisas. Talvez tenha de comer às vezes. Talvez as circunstâncias o impeçam de ver certas coisas. Ele talvez simplesmente to diga se o ouvires. Nós apenas tentamos ouvir.

Vocês vão mesmo salvar a música pop?

Não tenho a certeza de saber o que isso realmente é!

Vão pelo menos salvar-nos dos The Darkness?

Referes-te aos The Darkness ou aos “The Darkness ™”? De qualquer das maneiras, salvamo-vos disso.


A música está mais revivalista do que nunca… O que é que acham disso? É melhor ou pior do que um disco dos Rapture?

Não compreendo muito bem o revivalismo. Isto não é sequer uma crítica. É um truísmo. A forma como eu penso a música faz com que seja complicado para mim imaginar fazer música dessa forma. Não sei mesmo a que soa a música. Quero dizer, tenho muita dificuldade em dividir a música numa espécie de classes identificadoras. Não saberia mesmo como fazer um disco “rockabilly” convincente. É simplesmente uma coisa que eu nunca conseguiria pensar em fazer. Requer tantos factos.

Mas não gostas de nenhuma das bandas do assim chamado “movimento revivalista”?

Na verdade, nem sei quem elas são. Gosto simplesmente de bandas que tocam a música que precisam de tocar e conseguem fazê-la de forma honesta. Não gosto de sentir que me estão a enganar, pelo menos na maior parte das vezes.

Como é que foi dar concertos nos Estados Unidos da América, no Reino Unido, na Europa e no Japão no ano passado? Como é que as pessoas reagem aos vossos concertos?


Muito bem! Temos tido mesmo muita sorte, e todas as digressões têm corrido muito bem. Espero mesmo que possamos ir a Portugal um dia destes. Estive aí há muitos anos atrás (em Lisboa e em Sintra, entre outros lugares) e tenho um enorme desejo de voltar. Talvez possamos dar um concerto em Cabo Verde e esperar que os nossos amigos possam ouvir em Nova Iorque!

Conheces música portuguesa?

Tenho dois álbuns de música portuguesa que oiço montes de vezes. Um, é um dueto de Carlos Paredes com o Charlie Haden. Acho o Carlos Paredes incrível! Outro disco que oiço imenso é Plux Quba do Nuno Canavarro. Conheces? Foi editado pela Moikai há muitos anos atrás, e fiquei realmente ligado ao disco. É alguma da minha música electrónica favorita.

Nunca ouvi esse disco do Nuno Canavarro, mas já ouvi falar dele. Há muito pouca informação sobre esse disco, mesmo cá em Portugal. A propósito de pouca informação, gravaram uma versão de uma canção das lendárias Shaggs há uns anos atrás. Porquê uma canção das Shaggs? Elas são mesmo melhores que os Beatles?

Alguém nos perguntou se queríamos participar no projecto de covers das Shaggs, e nós ficamos bastante contentes pois elas tinham sido uma grande inspiração para nós, e porque era realmente um grande desafio imaginar como fazer uma versão de uma canção delas.

Estiveram recentemente em Londres para uma pequena tour. Como é que foi fazer a Peel Session e tocar no All Tomorrow’s Parties? Este é um ano em grande para vocês…

O All Tomorrow’s Parties foi fantástico. Não consigo sequer começar a contar quantas grandes bandas estavam lá. A maior chatice para mim foi não conseguir ver os White Magic, porque eles tocaram ao mesmo tempo que nós. Gosto mesmo deles. A Peel Session foi muito interessante e divertida. Esperamos lançar algumas dessas gravações lá para o final do ano.

Também têm outros projectos fora da banda … há alguma coisa que não possam fazer dentro da música dos Deerhoof?

Para mim, os Deerhoof são como a minha família, e eu sinto que o que temos é muito especial. É também muito importante para mim explorar música com outras pessoas. Isto, na minha opinião, não demonstra nenhuma limitação da parte dos Deerhoof. Alguns desses projectos existiam já antes do nosso envolvimento nos Deerhoof. Estaria a mentir se dissesse que não é difícil ter múltiplas bandas às vezes, mas para mim os benefícios ultrapassaram os problemas, pelo menos até este ponto.

Acham que ainda conseguem surpreender-se a vós próprios e à vossa audiência?

Não é complicado para mim ficar surpreendido. Fico surpreendido todos os dias com coisas que o Chris e o Greg e a Satomi fazem quando estamos a tocar. Quando estávamos a tocar no ATP, olhei, e a Satomi estava apoiada num só pé e a usar o outro para ir levantando o suporte do microfone muito lentamente. Parecia uma espécie de arte marcial. Não caiu. Segurou-o lá em cima no ar com o pé. A expressão facial dela era de aborrecimento. Achei aquilo bastante inspirador.

Imaginam-se a tocar daqui a quinze anos?

Referes-te aos Deerhoof? Claro, eu imagino. Pelo menos espero que sim. Estes tipos são os meus melhores amigos e músicos favoritos. É complicado para mim não me imaginar a tocar com eles.

Qual é a sensação de não serem estrelas rock?

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André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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