DISCOS
Jonathan Wilson
Rare Birds
· 02 Abr 2018 · 21:23 ·
Jonathan Wilson
Rare Birds
2018
Bella Union


Sítios oficiais:
- Jonathan Wilson
- Bella Union
Jonathan Wilson
Rare Birds
2018
Bella Union


Sítios oficiais:
- Jonathan Wilson
- Bella Union
Soft rock.
Quando o Bono, o tipo cuja carreira faleceu algures nos anos 90 (com alguns espasmos post mortem ali no início do milénio), nos diz que a música rock se tornou "demasiado feminina", isso significa, na verdade, uma miríade de coisas. A primeira, a de que ele não faz puto de ideia daquilo que diz. A segunda, a de que ele não tem sequer moral para dizer o que disse, quando em toda a carreira dos U2 só encontramos, na boa, umas dez canções que vão de encontro à sonoridade típica de angry white males por esse mundo fora. A terceira, a de que o Bono(mia) utiliza "feminino" como um adjectivo estereotipado, como sinónimo para algo que seja frufru e simpático e suave e cheio de florzinhas.

A quarta, bem, a de que ele até tem alguma razão: tem sido no hip-hop que encontramos mais exemplos recentes de música que vá até ao osso, ao passo que a cena rock já se esqueceu que o soft rock, tirando algumas nobres excepções, foi uma cagada que destruiu para sempre a ideia que tínhamos da guitarra eléctrica como força para a mudança. Ou, pura e simplesmente, para a libertação de uma raiva contida e alimentada pelos dilemas da vida moderna em sociedade. E tanto o esqueceu que decidiu reavivá-lo, gerando merdas inenarráveis como os War On Drugs, que (idiotas) dizem ser hoje "das melhores bandas rock do mundo", seja lá o que isso for.

E o que acontece quando se casa o soft rock com a modinha psicadélica também tão em voga hoje em dia? Acontece Jonathan Wilson, músico com uma certa aura de "culto" (em Portugal, devem contar-se pelos dedos das mãos e dos pés as pessoas que são realmente fãs dele), que parece mais ser músico "de músicos" do que dos palcos - e se calhar é por isso que Roger Waters o convidou para fazer parte da sua banda. A retromania está mais que viva e já contaminou tudo à sua passagem. Hoje, os artistas novos não querem suplantar os seus antecessores; querem estar a seu lado. A ambição morreu.

Só que há um grandesíssimo problema, mesmo por entre todas estas críticas feitas ao soft rock e ao Jonathan Wilson, a notar; os discos que tem posto cá fora são realmente bons - não bons num sentido indiferente da coisa -, mas musicalmente ricos, traços magníficos de uma América que só conhecemos através das canções, um caldeirão que junta dentro de si um cowboy dos estados do sul e um hippie com a cabeça (des)feita em ácidos. A América de gente como Jonathan Wilson, que se deve estar bem a cagar para se o soft rock é aceitável ou não para os meninos da velocidade e do peso.

Rare Birds é o seu último trabalho, um álbum onde encontramos tanto uma canção gingona como "Trafalgar Square", logo a abrir, Wilson desfilando pelas ruas da cidade de cigarro na boca à procura de um bar onde tocar um blueszito, "Over The Midnight", oito minutos de piano, guitarra e sintetizador a conferir a tal aura eighties a versos como Yeah this world it is burning / But don't it feel incredible?, as cordas de "49 Hairflips", aquela voz estranha, em cântico, de "Loving You" ou o country de "Hi Ho To Righteous". Um álbum raro, onde cada estilo é minuciosamente interpretado, onde o facto do rock ser suave até parece uma bênção. Se ao menos todos o soubessem fazer assim.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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