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Vários Artistas
Sonic Mania - Original Soundtrack
· 08 Nov 2017 · 11:13 ·
Vários Artistas
Sonic Mania - Original Soundtrack
2017
Crimson Productions
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Sonic Mania - Original Soundtrack
2017
Crimson Productions
Isto é música?, ou, apanha 50 anéis e salta duas vezes
A música que se ouve em videojogos é música?

Ou, indo mais longe com a questão:

A música que se ouve em videojogos é arte?

E, em sequência dessa,

Os videojogos são arte?

Desde há muito tempo que se assiste a uma discussão sobre o valor artístico dos videojogos, que tem colocado gamers e críticos numa luta acesa. Os primeiros, naturalmente, argumentam que a utilização de elementos expressivos - gráficos, música, enredo - validam o valor artístico de um videojogo. Ou, em alternativa, caem num argumento falacioso: os videojogos são arte porque já foram expostos em museus como sendo peças de arte. Uma perspectiva mais legalista indicará que o são porque são protegidos por direitos de autor, tal qual qualquer outra peça artística. E há mesmo quem os compare à arquitectura: são arte, que pode ser vivida pela audiência segundo os seus próprios critérios.

Do outro lado da barricada, os argumentos não são menos feéricos. Roger Ebert afirmou em 2005 que os videojogos não seriam arte porque ninguém foi, até hoje, capaz de criar um videojogo que pudesse rivalizar com as grandes obras da literatura, da música ou do cinema. A questão da interactividade - poderá ser uma peça de arte se a pudermos modificar de qualquer forma? - também afasta potenciais validações. Os videojogos, enquanto meras extensões de outros jogos mais tradicionais, como o xadrez, não podem ser vistos como arte, porque não passa pela cabeça de ninguém definir o xadrez como arte.

E voltamos ao ponto de partida: é possível definir certos elementos de um videojogo, como por exemplo a música ali presente, como arte?

Tendo já sido criado um campo de estudos académicos sobre a música em videojogos - ludomusicologia, chamam-lhe -, a questão permanece por responder, ainda que, de forma geral, a música de videojogos pareça ter conquistado um grau maior de respeito que os videojogos em si. Isto porque pode ser, apesar de tudo, dissociável do meio em que se encontra. Dentro de um videojogo, pode interagir com os jogadores dependendo das escolhas que estes façam (o que a torna numa espécie de música aleatória), mas também pode ser apreciada pelos jogadores fora dele - ao passo que um jogo não pode ser apreciado se não estiver a ser jogado.

Esta característica explica porque é que existem hoje em dia tantos artistas influenciados pela música que ouviram num videojogo ou, até, pela ideia de música de videojogo em si (os Crystal Castles, por exemplo). Explica porque é que a febre pelo vinil chegou também às bandas-sonoras de videojogos, ou os passos dados para colocar Yuzo Koshiro (Streets Of Rage, Revenge Of Shinobi...) num panteão da música electrónica. Explica a existência de orquestras sinfónicas a interpretar temas de Final Fantasy ou de The Legend Of Zelda. E explica o porquê da banda-sonora para Sonic Mania, o último capítulo na história do ouriço mais rápido do mundo, ser tão deliciosa.

Mais questões: não é possível atribuir um valor artístico à música que aqui se ouve? Tendemos a pensar que sim - já que esta música é a expressão particular de um grupo de compositores, em especial o português Tiago "Tee" Lopes, sobre uma ideia: o mundo de Sonic Mania. É arte, e é arte pop, porque é música que vai beber de inúmeras influências dentro da música popular, do rock ao hip-hop, do house ao jazz. A banda-sonora, disponível em vinil através da Data Discs (que se tem divertido a fazê-lo com inúmeras bandas-sonoras), é talvez uma das coisas mais frescas de 2017. E nem sequer foi preciso jogar Sonic Mania para o perceber.

Há um eco de shibuya-kei e da pop japonesa e/ou coreana logo a abrir, com aquele que é o tema de abertura do jogo, "Friends". Há snippets de qualquer coisa - de ecrãs de título, de cenas curtas, do menu de opções. Mas é em relação às "zonas" (e qualquer fã do Sonic sabe o que são "zonas") que encontramos os momentos mais altos da banda-sonora de Sonic Mania. Encontramos a alegria no meio da repetição. Como o fazemos com tanta e tanta música de dança.

Sonic Mania, para quem não está familiarizado, é um jogo no qual o ouriço azul voltou ao lugar onde foi imensamente feliz: o 2D. O jogo foi inspirado e criado de forma a trazer de novo à memória os tempos gloriosos da Sega nos anos 90, contendo inúmeras "zonas" repescadas aos jogos mais antigos - e, como não poderia deixar de ser, a banda-sonora reflecte-o; Tiago Lopes não se distancia muito daquilo que já era a música altamente satisfatória de Masato Nakamura em Sonic The Hedgehog e Sonic The Hedgehog 2, mas os seus reworks conferem um grau modernaço aos temas mais velhinhos.

Basta escutar "Green Hill Zone" ou "Chemical Plant Zone", que em muito pouco diferem dos originais, mas que soam incrivelmente limpas - e tão capazes de nos enviar para um mood nostálgico como a visão de uma Mega Drive e do ano de 1993. Não que "Tee" Lopes se fique pela memória - os "actos" (e qualquer fã do Sonic sabe o que são "actos") contêm a sua própria visão dos originais, em remisturas que mais soam a originais por mérito próprio; tal como em tantas "canções", o compositor pegou numa peça e tornou-a sua, qual Johnny Cash dos videojogos... E daí chegamos à fenomenal reinterpretação, em modo rock épico, do acto 2 de "Lava Reef Zone".

Mas é precisamente nos temas de facto originais que Lopes mostra o porquê de Sonic Mania ser uma lufada de ar fresco: em "Studiopolis Zone" escutamos uma synthpop dançável, completa com reminiscências de ambiente jazzy, sedutora e alcoólica. E em "Mirage Saloon Zone" - especialmente no acto 2 - é um house borbulhante que nos leva para outros patamares. É arte? É música? A filosofia para quem a pratica: para nós é só um momento espectacularmente bem passado e um "álbum" melhor que tantos outros com melhor imprensa.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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