DISCOS
Mount Eerie
A Crow Looked At Me
· 10 Mai 2017 · 11:39 ·
Mount Eerie
A Crow Looked At Me
2017
P.W. Elverum & Sun, Ltd.


Sítios oficiais:
- Mount Eerie
Mount Eerie
A Crow Looked At Me
2017
P.W. Elverum & Sun, Ltd.


Sítios oficiais:
- Mount Eerie
Terapia de choque.
Só quem passou pela dor de perder um ente próximo conseguirá perceber A Crow Looked At Me. Todos os restantes irão - se o mundo ainda não lhes despedaçou por completo a humanidade - sentir uma ponta de empatia, despejar três ou quatro lágrimas sobre os headphones ou a agulha do gira-discos, eventualmente desejar abraçar, com todas as forças, o homem que se esconde por detrás do nome Mount Eerie. Mas não o irão compreender. Sabemos que Elverum perdeu a mulher para o sempre nojento cancro, pouco tempo após esta ter dado à luz a sua filha. Mas não sabemos o que lhe passou pela cabeça naqueles momentos de agonia lenta, reproduzidos agora em 41 minutos e 30 segundos.

Isto não é um álbum. Não contém canções, melodias, versos, qualquer coisa que se assemelhe a um projecto musical. Escutamo-lo, uma e outra vez, e detectamos algo disso nos onze tecidos que o compõem: há uma guitarra, há variações na voz, no som. Mas isto não são canções, são um registo áudio da terapia pela qual teve de passar um homem de modo a que a morte, no caso a morte alheia, a morte da mulher que amava, não o enlouquecesse por completo. Parece exagerado? Só concluiríamos tal coisa porque - lá está - não iremos compreender, nunca poderemos compreender A Crow Looked At Me sem que alguém a nosso lado morra.

Ênfase no "morra", na "morte", na carga estupidamente brutal contida nessa palavra. Não se julgue que Elverum falou da morte de Geneviève Castrée com recurso a metáforas, analogias, figuras de estilo variadas, que conferem aquele toque sempre romântico à única coisa que, neste mundo ou nesta realidade, é certa. A Crow Looked At Me não pode ser comparado a dissertações recentes sobre a mágoa como Carrie & Lowell, de Sufjan Stevens, Skeleton Tree, de Nick Cave, ou Blackstar, de David Bowie. Esses contêm a morte; mas é uma morte floreada, uma morte que, de facto, pode ser transformada em canções passíveis de serem escutadas e reconhecidas pelo público.

O álbum - ou anti-álbum - de Mount Eerie não possui nada que se lhes assemelhe. É demasiado cru na sua violência. Demasiado directo na sua agonia. O fundo de um poço para o qual Elverum caiu assim que viu a sua vida a desfazer-se por culpa de um pâncreas. Ele próprio diz que A Crow Looked At Me é "quase música". De facto, o que se escuta é uma sucessão de frases em regime spoken word acompanhada por algumas cordas. Mas há que ir mais longe: nada disto é música, é um longo massacre emocional.

E isso está explicado logo ao início. Death is real / Someone's there and then they're not / And it's not for singing about / It's not for making into art, ouve-se. Paremos para meditar: falamos do mesmo homem que, nos Microphones, fez um disco como The Glow, Pt. 2. Do mesmo homem que se inspirou no black metal suicida de Xasthur para criar Wind's Poem. Do mesmo homem que, ao longo da sua carreira, se tornou conhecido pela sua folk negra e ruidosa (ou ruinosa). E nem ele consegue achar uma palavra mais apropriada para a morte que não essa própria palava. Até porque não se pode cantar uma morte como a de Geneviève.

Talvez se possa, no entanto, representar o amor que ficou por ela, detalhado no sentimento de perda que Elverum experienciou após a sua partida. É sobretudo terapia, mas é também uma lápide talhada por um viúvo. Lápide essa que relembra Elverum que Geneviève esteve na sua vida, que ele a amou como a nenhuma outra. Que, acima disso, lhe relembra que ela morreu e que há uma dor perpétua que o tempo não apaziguará - ou que, quando o fizer, isso significará o fim do amor. "Seaweed": Elverum lamenta o esquecimento das pequenas coisas de que a sua mulher gostava como sinónimo dessa passagem e desse fim. "Ravens": Elverum desfaz-se das antigas roupas da mulher. Idem. "Swims": Elverum relembra as visitas semanais à sua consultora... E como essa mesma consultora morreu apenas dois meses após Geneviève. Ibidem. Morte física e morte de alma. Morte constante, morte enquanto logos de toda a existência. E morte aceite, no tom sofrido com que exclama death is real! no final de "My Chasm".

Apenas uma coisa escapará, para já, à morte: a filha de ambos, hoje representação única de Geneviève. Também ela, um dia, irá passar por aquilo que passou o pai. Também ela se juntará, eventualmente, à mãe. Mas mesmo esse curto raio de esperança no regresso desta última é desfeito de imediato por Elverum: Sweet kid, what is this world we're giving you? / Smoldering and fascist with no mother. Isto não é apenas cru; é também agressivamente cruel. O que faz de A Crow Looked At Me o registo áudio mais pesado das últimas décadas, compêndio de um sofrimento corajoso (ou o contrário) que não voltará a encontrar paralelo no mainstream ou no underground. Acautelem-se. Não ouçam este álbum sem a percepção de que, um dia, também a morte vos baterá à porta.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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