DISCOS
The Sunflowers
The Intergalactic Guide To Find The Red Cowboy
· 21 Dez 2016 · 15:37 ·
The Sunflowers
The Intergalactic Guide To Find The Red Cowboy
2016
Cão da Garagem


Sítios oficiais:
- The Sunflowers
The Sunflowers
The Intergalactic Guide To Find The Red Cowboy
2016
Cão da Garagem


Sítios oficiais:
- The Sunflowers
Chapada na tromba.
...ali estava eu, de olhos semicerrados, a percorrer todas as tabs do Google Chrome em busca de um pedacito de informação que fosse, de um volt mínimo de electricidade que espantasse a anomia como o fogo um animal selvagem. De algo que pudesse alimentar a imaginação, a mesma que desde a primeira classe foi elogiada por dezenas de professores, que no secundário se destinou a fazer rir as colegas com textos patetas sobre sei lá o quê. Demonstra uma grande capacidade imaginativa, pode ler-se nas dúzias de fichas de avaliação que foram sendo enviadas para casa. Agora já não demonstro nada para além do ennui e já não tenho colegas de turma a quem queira fazer rir.

Colegas, miúdas, sim, que eu sempre me dei melhor com as miúdas que com os rapazes. É no que dá nunca ter sido machão bom de bola. Aposto até que entre eles me chamavam paneleiro.

Ou talvez o ennui tenha estado presente desde sempre e a imaginação fosse uma fuga, como a música o foi mais tarde, quando lhe comecei a prestar a devida atenção. Na quarta classe, deram-me uma ficha onde perguntavam qual a música que ouvia. Sem pensar duas vezes, escrevi: rock. Não era uma verdade absoluta - na altura as minhas atenções estavam mais voltadas para a Mega Drive e para o Sonic -, mas era verdade. A minha primeira cassete, contra todas as expectativas que se possa ter ou não da minha pessoa, foi uma compilação da saudosa Rádio Cidade onde, entre outros, estavam malhões como a "Mr. Vain" ou a "La Kabra".

Em casa, não havia uma cultura musical forte. Vinis, só de música clássica, objectos obrigatórios em habitações portuguesas dos anos 90 como Mingos & Os Samurais, um 7'' da "Je T'aime... Moi Non Plus" e pouco mais de interesse. Mas a minha mãe, que tinha sido mais ou menos punk e esteve em Cascais 1981 para ver os Clash (e que, estupidamente, foi oferecendo CÓPIAS ORIGINAIS dos seus álbuns a amigos e vizinhos - o White Album dos Beatles ou o Velvet Underground & Nico, por exemplo), comprou por esta altura a banda-sonora do Forrest Gump. Provavelmente ouvi-a mais vezes do que ela. Porque tinha duas das canções mais rock n' roll de sempre, e que foram uma completa e real chapada num puto que nunca gostou muito de levar chapadas: a "Hound Dog" pela voz do Elvis e a "Break On Through" dos Doors (censurada, claro; só muito mais tarde ouvi a versão original e demorei a assimilar o "high" a seguir ao "she gets..." do refrão).

Descoberto o rock, descoberta de uma vida, descobri também o quão chata pode ser a solidão cultural. É que aqui, neste pardieiro de nome Alverca, nenhum dos meus amigos estava muito para aí virado. Mesmo na família, só tinha o "apoio" das irmãs, sendo que uma era fanática pelos Bon Jovi e a outra nutria um gosto salutar pelos Metallica. No ensino básico, odiava tudo o que a turma considerava "rock": Limp Bizkit, Crazy Town, o lixo todo nu-metal que ia entrando pela pop. No 9º ano, houve uma aula de inglês em que a professora pediu, como trabalho de casa, que escrevêssemos a letra de uma canção da qual gostássemos - e eu fui gozado por escolher AC/DC, por um tipo que praticava capoeira quase no século XXI. Ninguém merece.

Talk shit, talk shit, people always talk shit...

Onde eu basicamente quero chegar com isto é: é difícil ser-se fã de rock, como o sempre foi, por mais mainstream que o género se tenha tornado ou por mais morto que esteja hoje em dia. Que não está, excepto para a legião de idiotas que entopem as caixas de comentários de jornais e revistas sobre música, que se acham donos de uma certa autoridade musical porque tiveram aulas de guitarra e aprenderam a tocar um riff qualquer do Slash. Não, o rock não está morto, mas tem caído na repetição ou, pior ainda, na anomia; hoje todos querem ser hippies em vez de querer partir tudo. Também já caí na repetição com esta minha afirmação, exposta em dezenas de críticas a discos rock, mas, foda-se: continua a ser verdade. Ou seja, de um lado temos todos aqueles que não gostam de rock, e do outro todos aqueles que gostam de necrofilia. Os que habitam a zona cinzenta são manifestamente poucos.

Para alguém que, como eu, encontra no rock o fix necessário, que junta álbuns do género como o Hunter Thompson juntou malas cheias de droga rumo a Las Vegas, o estado do género é uma tristeza. Tem melhorado. E encontra neste mesmo disco dos Sunflowers, banda que me foi dada a conhecer do nada e pela qual me apaixonei como se tivesse voltado a ter sete anos e dois dentes da frente a menos, um terramoto - especialmente o rock que é feito entre portas. Sem menosprezar as dúzias de bons trabalhos que têm surgido. Ou menosprezando talvez um bocadinho, porque sou do rock mas também sou do black metal e quero que vocês se fodam.

Terramoto, ok, não, que é francamente impossível imaginar os Sunflowers a criar réplicas (quem me dera que assim fosse). Mas é uma bruta chapada na cara. Eu, que nunca gostei de levar porrada, vejo-me agora sedento por um ou dois bem mandados bofetões na face. Mas a imaginação, neste caso - e como em todos os grandes discos - leva-nos a outro lado. Leva-nos aos grandes desertos americanos, cercados por montanhas e com bombas de gasolina de cem em cem quilómetros, numa estrada estupidamente recta onde um descapotável vermelho acelera ao som dos Cramps e do Lúcifer que era a voz de Lux Interior, o contraponto exacto ao Deus da bondade e do amor que é Jason Pierce. Leva-nos a bares de motoqueiros que te partem a tromba se pedires a cerveja errada. Leva-nos ao êxtase do crowdsurf, que em qualquer outra religião abraâmica seria visto como uma espécie de baptismo. Leva-nos a dançar, pular, a rir. A querer partir coisas, partir tudo.

O vosso disco é uma chapada, disse-lhes eu no Reverence, reafirmando-o neste texto. Serei masoquista?

...ali estava eu, de olhos semicerrados - e abri-os repentinamente quando pus a tocar a "Cool Kid Blues", aquela guitarra surf misturada com ruído e uma lata descomunal presente na maneira como eles cospem a letra da canção cá para fora. Quando cheguei à "Post Breakup Stoner" já estava a cantarolar os lá lá lás e a contorcer-me de felicidade com a maneira como a Carolina evoca os girl groups dos anos 60. Na "Zombie" fui a correr ao carro para tirar de lá o taco de basebol - they're coming from the hills, afinal de contas.

Falei nos Cramps e poderia dissertar sobre o meu amor pelos Cramps mas seria injusto bater nessa mesma tecla. Os Sunflowers não querem ser os Cramps, querem mostrar-vos o dedo do meio, trollar-vos até desistirem de viver e insultar todos aqueles que ainda ouvem e gostam dos Cramps em 2016. No fundo, são meio hip-hop: que se foda o passado, o que importa é o presente. O presente é o tipo que não sabe surfar, a pizza de pepperoni, a bruxa que vos avisa que não deviam ter fumado tanta erva, o cowboy vermelho francamente impossível de encontrar. Mas é para isto que serve este guia; para localizar o cowboy vermelho, para localizar a alegria de ouvir rock que tem permanecido escondida, para imaginar que somos uns mauzões quando nem uma aranha conseguimos espantar da parede. Ou para nos afogarmos no tema-título, cientes que vai demorar um bocado até voltarmos a ouvir um disco rock assim. Por enquanto os olhos estarão abertos.

E só para perceberem como o destino funciona: na última malha eles usam partes da "In The Hall Of The Mountain King", de Edvard Grieg, que também era usada nos cartoons do Sonic. Do rock ao rock, portanto.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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