DISCOS
Unknown Mortal Orchestra
Unknown Mortal Orchestra
· 27 Out 2011 · 09:59 ·
Unknown Mortal Orchestra
Unknown Mortal Orchestra
2011
Fat Possum


Sítios oficiais:
- Unknown Mortal Orchestra
- Fat Possum
Unknown Mortal Orchestra
Unknown Mortal Orchestra
2011
Fat Possum


Sítios oficiais:
- Unknown Mortal Orchestra
- Fat Possum
Disco com trinta minutos que demora horas a entrar: mas o resultado acaba por ser positivo.

As canções dos Unknown Mortal Orchestra (usa-se o plural, mas este é na verdade o projecto de um só homem, Ruban Nielson) hão-de ter feito bastante gente feliz no verão que passou. Quem ainda não as ouviu, irá ser feliz no inverno que está aí a vir. São nove temas de cerca de meia hora, mas arrastam-se durante dias: ouça-se "Ffunny Ffrends" ou "Thought Ballune", e descubra-se o porquê. Seja do funk gingão da guitarra, seja do psicadelismo omnipresente, Unknown Mortal Orchestra tem tudo para ser um sucesso vindo quase do nada. Ou teria; infelizmente, perde em adoptar a produção lo-fi costumeira das bandas de quarto de hoje, sendo algo que soa não de forma propositada e com excelentes resultados - como por exemplo em Arcade Dynamics, do génio Ducktails - mas de força forçada, um go with the flow que lhe retira muito do brilho. O que é uma pena. Fosse este um álbum mais polido e seria uma criação pop maravilhosa. Assim merece só um Bom+.

Mas olhemo-lo de uma perspectiva mais abrangente. Unknown Mortal Orchestra é um disco que poderia muito bem ser explicado adoptando o slogan da Radar: passado, presente e futuro, cada qual com o seu papel no disco, todos contribuindo para um certo misticismo em torno do mesmo. Misticismo que começa no nome, claro. A ideia que Nielson tem da pop encontra semelhanças evidentes com a de Ariel Pink, outro grande mago: os nove temas de Unknown... são todos eles potenciais singles de rádio, mas, ao mesmo tempo, não o são; são demasiado estranhos para terem aceitação por parte das massas e, ao mesmo tempo, têm tudo para o serem.

Encontramos então o presente nas canções dos Unknown Mortal Orchestra; a vontade enorme de querer criar canções pop com o mínimo possível e/ou indispensável, algo a que se tem assistido, para o bem ou para o mal, com maior frequência (normalmente, tem sido para o bem). Os dois temas supracitados são exemplo claro disso e acrescente-se-lhes o ritmo contagiante de "How Can U Luv Me". E por ser presente, espelham naturalmente o presente: o culto inteiro à roda da retromania. A escola de Nielson é a mesma de centenas de outros projectos espalhados pelo mundo, as suas influências demasiado óbvias para serem ignoradas.

E é esta retromania que, como não podia deixar de ser e como o próprio nome indica, lhe transmite a sua condição de passado. Um passado que é cada vez menos longínquo, devido ao poder enorme do DiY e da internet, claro está. E se isso se deve à velocidade com que a informação se processa hoje em dia, ouvir Unknown Mortal Orchestra não é questionar se Nielson conseguiu um concluio perfeito entre a pop mais inocente dos Beatles e os riffs de garagem chique dos Strokes circa 2001. É saber se um projecto que é tão nitidamente produto da moda indie se vai conseguir soltar da mesma.

Traduzindo por miúdos: existe futuro na música no neo-zelandês? O mais provável é que não, por não haver em Unknown... ponta qualquer de experimentação e de vontade de saltar para um mundo desconhecido. No entanto, há quem diga, e se calhar cheios de razão, que o futuro não interessa e que há é que aproveitar o presente enquanto podemos. Ao ouvir este disco pela primeira vez, não concordaremos. Ao nele pegarmos uma, e outra, e outra vez, sem estar à espera, as canções entranham-se, não mais de lá saem, e o futuro é algo que cada vez interessa menos. O carpe diem funciona e é, neste mundo louco e veloz, a única filosofia aceitável.

Dito isto regressamos à estaca zero, a que não entra em questões epistemológicas: Unknown... é um bom disco. Tem belas canções, sabe bem o seu lugar no contexto musical e isso não o incomoda. Não é retro no contexto nostálgico da palavra, nem olha para cima com sofreguidão. Tem os pés bem assentes na terra e no agora. Merece ser discutido por quem o quiser discutir, ou ouvido, simplesmente, por quem o quiser ouvir. Merece também que "Ffunny Ffrends" seja canção de anúncio de automóvel. Mais não merecerá, mas também não pediu nada. Tem qualidade. É o que interessa.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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