DISCOS
Cass McCombs
Dropping the Writ
· 28 Fev 2008 · 08:00 ·
Cass McCombs
Dropping the Writ
2008
Domino / Edel


Sítios oficiais:
- Cass McCombs
- Domino
- Edel
Cass McCombs
Dropping the Writ
2008
Domino / Edel


Sítios oficiais:
- Cass McCombs
- Domino
- Edel
Eis que, à terceira, um dos mais intrigantes songwriters da actualidade consegue ficar eminentemente próximo da perfeição insinuada por Prefection.
A inquietação provocada por Cass McCombs nos seus primeiros dois discos levou a que, por ocasião de uma resenha dedicada aos mesmos por aqui, a impaciência deixasse escapar a pergunta encravada até aí debaixo da língua:Até quando, Cass?. Procurava a questão aperceber-se da quantidade de tempo necessária até que este talentoso forasteiro se decidisse por colocar a magnificência da canção acima do seu potencial enquanto veículo de excentricidades - partindo do principio que esses pudessem ser valores separáveis (quando certamente não o eram em A, tal como em Prefection). Enquanto ponto final que cessa todas essas incertezas e uma dúbia gestão de capacidades, Dropping the Writ provoca a primeira grande alegria do presente ano ao ser um disco que se afirma inicialmente como um fabuloso e resistente conjunto de canções e que só depois se sujeita à pimenta e sal polvilhados pela mão mais rebelde que Cass McCombs reserva para contrariar a monotonia própria da normalidade.

A casa que Cass criou a partir do solo (o disco foi concebido de raiz e não de retalhos) é obra de um arquitecto em puro estado de graça (reflectida por toda a parte de Dropping the Writ) que parece finalmente capaz de estar à altura do seu jogo de charadas – quer seja pela utilidade certeira que oferece à guitarra eléctrica e acústica, ou por fazer com que, desta vez, as suas letras mais se aproximem da crónica de uma realidade paralela e não apenas de um malabarismo circense (como “Aids in Africa”, em A). Sem fazer suar a inspiração, Cass McCombs evade-se de todo o tipo de rotinas mundanas numa série de temas que bem podem servir como hinos prontos para adopção por parte de gente alienada e inadaptada, que tem no “mundo da lua” a sua pátria: nem por acaso, “Full Moon or Infinity” serve como cápsula de tudo isso e como tour de force no que respeita ao melhor aproveitamento possível dado a um sexto sentido melódico algures entre Simon & Garfunkel e Elliott Smith.

Mais alto levita Dropping the Writ por relativizar o peso dos seus episódios auto-biográficos ao invocá-los como se fossem sonhos recordados em termos incrivelmente detalhados ou dispersamente vagos (logo mais abertos a interpretações). É precisamente o detalhe (e o repetido ritmo marchante) que demarca e torna revelador “Lionkiller”, que será muito provavelmente o mais conseguido single de tema clínico desde “Bad Case of Loving You (Doctor, Doctor)” de Robert Palmer. Por outro lado, e longe do impacto directo de “Lionkiller”, ocupam-se as vozes e guitarras mergulhadas em éter – demasiado denunciador da sua origem 4AD via Cocteau Twins – de enublar e tornar mais baço tudo o pudesse ser especifico em “Morning Shadows” ou – em menor escala - “Deseter”.

A partir de agora só se pode esperar o melhor. Ainda a tempo, Dropping the Writ singra sobretudo por ter-se redimido de esoterismos passados e expandido o seu horizonte de possibilidades sem colocar de parte a aleatoriedade como factor que valeu culto a Cass McCombs (além da companhia de Ariel Pink numa digressão recente). Tal como nos casos de Beirut ou Richard Swift, prolonga-se por aqui o auge de uma puberdade musical que mais rende por não se ter acomodado à seriedade da idade adulta. Posto isto, é perfeitamente racional cruzar em figas os dedos na esperança de que Cass McCombs repita - ou até mesmo aperfeiçoe - a naturalidade inclassificável deste Dropping the Writ que, para já, fica bem posicionado na ainda muito indefinida grelha de partida para a corrida a disco do ano.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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