DISCOS
Geronimo
Geronimo
· 10 Jan 2008 · 08:00 ·
Geronimo
Geronimo
2007
Three One G


Sítios oficiais:
- Geronimo
- Three One G
Geronimo
Geronimo
2007
Three One G


Sítios oficiais:
- Geronimo
- Three One G
O radar do inclassificável exibe sinal activo de um repetitivo rock titânico que se desintegra por ser incapaz de se manter intacto.
Sobre a utilização da repetição na música pode-se dizer que não é do domínio exclusivo da pop mais empenhada em lucrar através da lavagem cerebral. Com a mesma convicção, pode-se apontar a repetição como um método conjugável com a infiltração de uma complexidade que aparenta maior volume, nem que seja quando mantém contraste com o estável minimalismo do que lhe é contraposto. Como representantes disso, surgem à cabeça dois clássicos adormecidos, mas merecedores de eterna estima: Jesus’ Blood Never Failed Me Yet, do compositor Gavin Bryars, e Consume Red do lendário colectivo japonês Ground Zero - ambos combinam, com dinâmicas diferentes, um persistente trecho sonoro invocado em sucessão contínua e um outro pólo instrumental mais livre nos seus movimentos. Numa situação inversa, encontram-se, por exemplo, os Battles, a que muito se apregoa a desinibição de um rock matemático de ponta, mas aos quais raramente se aponta a persistência em mecanismos de repetição (escancarada nas mais marcantes “HI / LO”, “Atlas” ou “Leyendecker”).

Se a violenta desintegração da repetição fosse o conceito-matriz de uma missão especial incumbida a três astronautas pouco comunicativos, Geronimo seria o nome inscrito na etiqueta da cassete que contivesse a reportagem da agência Reuters a respeito desse acontecimento. Geronimo, a estreia do trio homónimo com antecedentes nos Sleestak e Slowrider, é tudo aquilo que o seu carácter único deixar descobrir através de uma cortina de insanidade instalada por um rock perdido nos malhas anabólicas do metal: é bússola em que o ponteiro aponta tremulamente para a mesma direcção, tentativa visionária e semi-fracassada de garantir a colonização de um terreno musical virgem, os Bohren und der Club of Gore a interpretarem "Also Sprach Zarathustra" nos confins da galáxia, campo minado atravessado pelos revolucionários aparelhos de fabrico Trogotronic (a descobrir http://www.trogotronic.com/), um exercício que tem por filosofia o pânico, o alarme e tudo mais que ofereça densidade a um ambiente de cortar à faca. Geromino é uma ida ao dentista da qual se regressa com as unhas dos pés ensanguentadas. Medo, muito medo.

Se for exceptuado “Facepeeler”, como destoante bónus de atitude rock mais declarada e histeria suficiente para convencer os (sobreviventes) fãs de Locust que possam seguir religiosamente as novidades da Three One G, sobra um disco afectado por uma febre de náufrago que aceita como regras vigentes aquelas que levam um terço da sua dimensão a ser preenchida pelo vácuo do silêncio e o seu brio épico a depender apenas de percussão e baixo monstruosamente distorcidos (numa espécie de compasso industrial suspenso). Mesmo que venha David Yow, venenoso ex-vocalista dos Jesus Lizard, proporcionar algum estimulo através do seu cameo que é murro em cheio na zona abdominal, Geronimo sufoca-se a si mesmo pelo (por vezes penoso) arrasto a que sujeita os seus estilhaços de rock corpulento e mutante. Pertence ao espaço ser infinito, é certo, e o realizador James Cameron pode muito naturalmente adoptar este como um objecto pornográfico da sua predilecção, porém, tudo aponta para que este desigual colosso venha a cumprir anos perdido na incerta deriva da obscuridade – como um meteorito no espaço.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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