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The Soft Moon / Whispering Sons
RCA Club, Lisboa
12-/10/2018


O que Luis Vasquez tem vindo a fazer enquanto Soft Moon não é nada de novo: podemos traçar todas as suas influências com facilidade, desde o pós-punk britânico, passando pela EBM e pelos Nine Inch Nails, e chegando até mesmo ao techno. Mas não é a falta de novidade que impede o projecto Soft Moon de se ter revelado como um dos mais interessantes da década, apresentando todas essas sonoridades de uma forma fresca e vital, mordendo e rangendo por entre revivalismos das mais variadas espécies. Tal como acontece com todas as jovens bandas rock, Vasquez não reinventa a roda, mas construiu um bólide do caraças sobre ela.

No RCA, onde o norte-americano veio apresentar os temas do seu mais recente álbum, Criminal, foram os belgas Whispering Sons quem estrearam a noite. O quinteto soa mais a um caso de muita parra e pouca uva: são cinco elementos em palco, mas o barulhinho que se escuta só pode ser descrito recorrendo mesmo ao diminutivo. Há um ritmo minimal, quase de drum machine, um sintetizador e guitarras mais ou menos maltratadas, mas falta ali qualquer coisa para que não sejam mais que frouxos. E que não passa pelo/a vocalista (permanece a dúvida em relação ao seu género), que mais parecia interessado/a em emular Elias Rønnenfelt, dos Iceage, tanto nos trajeitos como na forma como colocava a voz.

Perante uma audiência composta por muitos apreciadores da subcultura gótica (o que também faz algum sentido: a música de Vasquez é mesmo para cortar pulso), foi o norte-americano quem se encarregou de trazer uma brutalidade animalesca para o palco. De um início bastante ritmado, onde o músico de mostrou mestre no que toca à nobre arte de bater numa lata do lixo, passou-se para a sua música de carácter maximal e para o ruído - o maravilhoso, frondoso ruído.

O mote era Criminal e nesta música há também uma certa aura de criminalidade, quanto mais não seja através dos títulos das canções ali presentes, simples e directos. Como, por exemplo, "Choke", onde a maquinaria confere um grau suado de tensão industrial à voz, afectada por efeitos, e aos versos mutilados: Take your time / Crush me right / Take your time / Crush me fine, quase um mantra. Um concerto fenomenal e extremamente vital que acabou não com nota 10/10, mas com 11/10: um par de bongos serviu para transformar o encore em algo semelhante ao techno de acordo com a cartilha dos Ninos Du Brasil. O rock não está morto, ainda mata.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
15/10/2018