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José González & The String Theory
Coliseu dos Recreios, Lisboa
02-/10/2018


Foi um Coliseu dos Recreios bem composto aquele que acolheu o regresso do cantautor sueco José González, desta feita acompanhado pela The String Theory, orquestra que se divide entre Berlim e Gotemburgo e que tem vindo a colaborar com o músico. As canções com as quais González nos tem vindo a encantar há alguns anos são, aqui, transformadas: já não é folk, ou apenas música pop, mas algo muito mais épico e grandioso - não só devido aos instrumentos de cordas, que tudo transformam, mas também aos serrotes, à percussão, às electrónicas - tudo parece servir para dar um novo corpo àquela voz e àquele dedilhar de guitarra.

Foram as electrónicas as primeiras a fazerem-se ouvir, compondo uma névoa que foi crescendo até dar lugar ao batuque e, por arrasto, à guitarra de José González, que se atirou de pronto a "Far Away". Não é ele, no entanto, o líder, e sim o maestro que a seu lado vai dando as indicações necessárias à construção do ambiente certo. Um ambiente que por vezes surpreendeu, como no final de "Crosses": a canção termina de repente e o público presente fica em suspenso por um breve instante, não sabendo se aguarda ou aplaude. A segunda, claro.

"Abram" e "What Will", canções sobre «livrarmo-nos dos dogmas» e sermos livres, são acompanhadas por palmas da orquestra e, por arrasto, do público, num concerto em que mesmo o assombro de se estar perante algo que roçava a transcendência não impediu a comunhão. "Heartbeats", tema dos Knife que há muito passou a ser seu (algo só ao alcance das grandes versões), foi recebido de forma entusiasmada, assim como "Teardrop", dos Massive Attack, que só não é de González porque a original é cantada por uma tal Elizabeth Fraser...

"Stories We Build, Stories We Tell" faria o público colocar-se de pé, liderado por um maestro que, a dada altura, até berbequim tocou; no encore, a String Theory começa por mostrar-se a solo, antes de voltar a ser acompanhada por mais duas canções, uma das quais "Down The Line", que ganhou um ritmo bastante próximo do krautrock. Durante uma hora e meia, foi a música quem ganhou; não tem de ser sempre simples ou pastilha elástica. Até porque, em excesso, isso cria cáries.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
04/10/2018