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Sun Blossoms / No Age / Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs
Lisboa, Galeria Zé dos Bois
11-/9/2018


Dizem-nos que a culpa é da rentrée, mas o facto é que a Galeria Zé dos Bois estava demasiado despida para uma noite em que o cardápio era triplo e de peso; pouco mais de meia sala, ou talvez nem isso. Considerando que já vimos aquele mesmo espaço a rebentar pelas costuras e com suor a escorrer pelas paredes, foi uma sensação estranha aquela que passou por nós. Prontamente apaziguada pela aparição de cada um dos três dançarinos desta noite de Super Ballet: Sun Blossoms, No Age e Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs.

O primeiro, cuja invasão de palco num certo concerto de Black Lips ainda é lembrada, não foi para ali com rodriguinhos. Chegou, viu, venceu. Começou com efeitos e ruído muito, fez-se acompanhar por guitarrista e baterista e debitou riffs a fazer lembrar os melhores Sonic Youth, naquela que foi a apresentação do seu novo EP, Cruising. A voz parece englobar as agruras de uma adolescência alternativa, sozinha no mundo da carneiragem, e alimentam o que se crê serem bonitas canções de amor. Entrou e saiu sem dizer pão e ainda acabou a acertar com o suporte do microfone numa conhecida fotógrafa da nossa praça, em momento punk rock. No total, 20 minutos de pura loucura que foram muito melhores que muitos concertos que duram horas.

Os segundos, também com um novo trabalho na mala, Snares Like A Haircut, mostraram doses cavalares de ruído e procuraram não partir o video do aquário com tamanha demonstração de força - mesmo que os curiosos, que lá fora divertem quem está cá dentro, tivessem provavelmente gostado disso para poder ver melhor. Ruído, por vezes insuportável, mas sempre rock; depois do ruído, seguiam pela "canção" propriamente dita e faziam-nos baixar um bocadinho mais à terra, com um rock americano-juvenil a fazer lembrar uns Japandroids mais pesados. Mas foi mesmo o noise, essa coisa transcendental, a revelar-se perturbadoramente belo.

Os terceiros, já os havíamos visto partir tudo num saudoso Reverence quando ainda em Valada, banda com um nome tão comprido quanto a força que mostram ter em palco, um sludge que não parece querer dar nem pedir muitas cedências. O disco novo está quase aí a chegar... Agradecendo a permanência do público naquela sala, a uma terça-feira à noite (e já depois de algumas pessoas terem ido embora após os No Age), os Pigs x7 (às vezes cansa escrever tudo) fizeram uma sessão javarda de peso, alimentados por um discípulo de Henry Rollins que, em tronco nu e suado, ia gritando algumas palavras de ordem. O conselho é: vejam-nos sempre que puderem.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
02/10/2018