bodyspace.net


Kiss / Megadeth
Estádio Municipal de Oeiras, Oeiras
10-/07/2018


É preciso ter-se uma paciência de santo quando se gosta da música, em todas as suas vertentes e géneros e expressões. Paciência para ouvir cuidadosamente tudo aquilo que nos é colocado à frente. Paciência para correr o país, e às vezes não só o país, de lés a lés no sentido de ver e ouvir ao vivo mais uma banda, mais um artista, mais uma canção. Paciência para aturar as filas e filas de pessoas ou, neste caso, a única fila de pessoas, já que a entrada era apenas uma para milhares atrás de milhares de fãs de rock pesado. Paciência para não nos desmancharmos a rir com o metaleiro rufia que, à nossa frente, vai praguejando cobras e lagartos contra a organização deste evento, arranca cartazes, cospe no chão, bate nas grades, e no final é deixado pela sua mãezinha à entrada do Estádio... Etc., etc..

O mote de hoje era um só: o regresso dos Kiss a Portugal, 35 anos após a sua última passagem por cá. No entanto, também poderemos encarar este concerto em Oeiras como sendo de facto o primeiro que deram no país; é que, em 1983, os Kiss vieram, sim, mas sem os fatos, sem a maquilhagem, sem as palavras de ordem cartoonescas que fazem do seu espectáculo algo único. Foi como se quatro wrestlers se tivessem juntado para dizer que sim, independentemente daquilo que o outro chavalo que se tornou viral tenha gritado, isto não é real, porra! - e é sempre triste quando a percepção de uma criança de algo para ela maravilhoso é quebrada dessa forma.

Pois bem: na sua estreia à séria por cá, os Kiss (que hoje em dia, dos membros originais, são só dois - Paul Stanley e Gene Simmons) não deixaram nenhum crédito por mãos alheias e deram ao público português aquilo que este queria à entrada para o concerto: rockar e rollar toda a noite. Fizeram-no através de temas que marcaram muito bom rockeiro nos anos 70, como "Detroit Rock City", e outros que marcaram quem ouviu os Replacements antes dos Kiss, como "Black Diamond". E fizeram-no, sobretudo, através do espectáculo.

É que não se utilizou a palavra wrestlers por acaso. Os Kiss não são uma banda no sentido lato da palavra; são um grupo de atores de palco, que por acaso até tem umas canções engraçadas, mas que baseia toda a sua actuação no show-off próprio de quem sabe que tudo aquilo é a fingir - mas há que manter a audiência na expectativa.

Mais do que a própria música (e mesmo que se cante, a plenos pulmões, "I Was Made For Lovin' You"), o que fica para a história de um concerto dos Kiss, para além das fatiotas e do pré-corpsepaint, são o fogo-de-artifício e o fogo real que soprava em palco; os confettis e o fumo no final; Gene Simmons a cuspir sangue e a voar (com recurso a cordas, naturalmente) durante um solo de baixo; Paul Stanley a fazer slide do palco à régie, sobre o público; a voz de desenho animado deste mesmo Paul Stanley, que não se cansou de perguntar are you having a good time?, sabendo perfeitamente que é essa a ideia geral - divertir o público o mais possível, nem que se tenha que esquecer a parte musical da coisa; e foguetes a serem disparados da guitarra de Tommy Thayer. Tudo aqui foi levado ao extremo, como se estivéssemos numa Las Vegas montada propositadamente para nos receber. Tudo foi falso, mas encantador por sabermos que é falso. Tudo foi demasiado genial - e ainda não sabemos se nos iremos refazer da coisa. Lester Bangs tinha razão: Kiss Alive! é o segundo melhor álbum da história do ouvido humano.

Antes disso, até houve tempo para algo mais "sério", que terminou com um Dave Mustaine claramente embevecido e estranhamente bem-disposto a agradecer a presença de todos. Falamos, claro está, dos Megadeth, que num regresso a Portugal também há muito aguardado vieram apresentar os temas do último Dystopia, sem descurar um par de clássicos - e abrindo logo com "Hangar 18", de forma a que pudéssemos ignorar o resto do concerto em paz, ou pelo menos até "Symphony Of Destruction". Ou, pelo menos, foi o que tentámos fazer - mas aquela bateria militar, que mais parecia o som de bombas norte-americanas a cair em países do terceiro mundo, não deixou que o fizéssemos. No fundo, não há como não amar os Megadeth: se há bandas que fazem álbuns em que sonham cavalgar a trovoada, há outras que a cavalgam mesmo. Thrash 'till death, ou algo assim.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
11/07/2018