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SWR Barroselas Metalfest 2018
Barroselas
27-29/04/2018


Dia Um

Bastam uns míseros segundos a olhar para estas montanhas para perceber que tudo valeu a pena. As cinco horas de viagem, a retenção na estação de Campanhã porque, uma vez mais, a CP decidiu impor um atraso na chegada do intercidades ao Porto (fazendo-nos perder um urbano para Braga, e quase perder a subsequente boleia para a Correlhã), a comida de merda que teve que servir de almoço, o calor muito que se fez sentir à chegada e que nos fez pensar que esta coisa de vestirmo-nos de preto não é assim tão fixe quanto a pintam, a sede de álcool e a dor de cabeça enorme com que chegamos ao destino. Estas montanhas, leia-se, as do Minho, região indomável que nos lava o espírito assim que lá pomos os pés. Talvez seja o sangue a falar, talvez seja algo muito maior que a ascendência. Há aqui qualquer coisa de extraordinária. Apenas isso.

Extraordinárias, também, as mudanças com que nos deparamos à chegada a Barroselas para mais uma edição do SWR. Mais limpo, mais sossegado, mais "festival" que "experiência". Mais normies, também, e não apenas a trupe das t-shirts de death metal mal lavadas; há gente de fato, há crianças, há menos cães e menos bebedeiras. Mas bom, este era também só o dia zero, com os Paisiel a abrir - dupla composta por ritmo e um saxofone que mais parece uma guitarra eléctrica, tamanhos são os efeitos que dali saem. Naqueles curtos vinte minutos em que os apanhámos foram a coisa mais interessante do dia, e só porque a supracitada dor de cabeça nos fez regressar à cama, antes de podermos verificar como se comportaram as Putas Bêbadas num festival para metaleiros.

Mas metaleiro sou eu, és tu, e é a dupla limiana que esteve presente na primeira edição do SWR, quando uns tais Agonizing Terror eram cabeças de cartaz, antes do famigerado TóJó decidir matar os papás. E são-no os Mortuary Drape, a primeira banda que apanhámos no festival propriamente dito. Blackened death metal no volume máximo, rostos escondidos pelo corpsepaint e pelos robes que vestiam. Foram interessantes quanto baste, mas não superaram - nem poderiam superar - a força bruta dos Hexis, que regressaram a Portugal com álbum novo, Tando Ashanti, editado em 2017. Black metal que não liga a conservadorismos ou ortodoxias, chapada na cara digna de um punk hardcore, algum fumo e escuridão muita a ajudar à jarda: os dinamarqueses não tocaram tão alto quanto se queria (a culpa talvez tenha sido daquele segundo palco, onde os ouvidos nunca sangraram) mas mostraram que, dentro do metal, são das bandas mais interessantes da actualidade. Mesmo que só tenham tocado uma curta meia-hora.

Os Master's Hammer são uma banda histórica, tendo sido uma das primeiras a incorporar elementos sinfónicos no seu som e a adoptar uma postura próxima do avant-garde. Essa mesma sinfonia é escutada, ao início, por um público considerável que depressa se aglomerou junto do palco principal, naquela que era a estreia dos checos em Portugal. Há riffs diabólicos e vocais de bagaço, e um vocalista que mais parece o Jorge Palma misturado com o fatinho vermelho do Tó Trips, mas nem assim conseguimos gozar muito com eles; a música, black metal da velha guarda, é um bálsamo para os ouvidos após a pancadaria Hexis e antes da Teethgrinder, até que a bifana começou a parecer muito mais convidativa que o som.

Em Exhorder, há quem arrisque subir ao palco, sem ter grande recepção cá em baixo. Fazer crowdsurfing em Barroselas não é difícil, mas estás sempre dependente da vontade do povo em segurar-te. E, às vezes, essa vontade não é muita, especialmente se pesares uns quilinhos a mais. Ou se a música, que até é acelerada, mais não é que inconsequente - quase roçando essa palhaçada a que chamaram nu metal. C'mon, motherfuckers, give us the horns..., pede o guitarrista Vinnie LaBella, antes de se queixar dos cinco aviões que a banda teve de apanhar para estar em Portugal, e de mostrar que sabe tocar o tema d'O Padrinho em modo shred. É, eles sabem martelar; mas há algo que falta. Talvez sangue. Ou a noção de que este é um concerto com um atraso mais brutal que os comboios da CP, demasiado retido nos anos 80 e 90 para ser mais que anacrónico. Somos um pouco metal, um pouco punk rock, e também uma seca valente. Siga.

Os Obliteration não bateram uma jola fresquinha, mas Mortiis foi rei e senhor de Barroselas. Pelo menos para quem nunca pertenceu - nem quer pertencer - à tribo do metal. E porquê? Porque numa das capitais da guitarra eléctrica e do gutural, Mortiis decidiu tocar, na íntegra, os temas que compõem Ånden Som Gjorde Opprør, o seu segundo álbum de estúdio, música kösmische nascida não na Alemanha mas na Terra Média, banda-sonora de dezenas de escravos em masmorras fétidas e bafientas a serem torturados por cristãos em fúria. Sintetizadores e batida industrial e logo aos primeiros minutos percebemos que está ali o concerto do festival, perfeito para afastar poseurs. Ao som de uma verdadeira hatemachine sintetizada, o norueguês hoje radicado na Suécia trouxe um apocalipse medieval, mesmo sem passar Vatican Shadow, mesmo com a certeza de que passa mais tempo a maquilhar-se que a compor uma canção. E porque não? Esta música é simples, é certeira, e esvaziou a sala em poucos minutos. Mais que as palavras de quem assina este texto, vale a transcrição de uma conversa real:

- Conheces esta banda?
- Mortiis.
- E a cena é sempre assim?
- Sim.
- Não estava preparado...

Dia Dois

Trabalha-se, geralmente, menos ao sábado. Trabalham menos os que assinam esta reportagem/crónica/punheta, melhor dizendo. E tanto trabalham menos aos sábados que o melhor foi mesmo aproveitar a ausência de chuva e ir até ao fabuloso Altavista, bar/casa de campo/cerveteca perdida algures em Vitorino de Piães, onde se vendem cervejas com nomes bastante apelativos, como Satanás e Belzebu. Bem, se viemos a Barroselas, teremos de nos dedicar a um pouco de transubstanciação, certo? Ceeerto. E foi assim que o espírito se elevou (leia-se: embebedou) antes de regressar ao recinto.

Os Internment apresentam um death metal no pico da agressividade, uma banda-sonora perfeita para a derrota do Benfica contra o Tondela e para foder a cabeça ao Bruno da Wav. Mas, se é de agressividade que falamos, ninguém a demonstra melhor que os Process Of Guilt, hoje em dia expoentes máximos do metal nacional (daquele que não é bacoco, pelo menos). A banda colocou toda a aldeia a abanar, e só surpreende que não tenha sido detectado, pelas máquinas, o tremor de terra provocado por aqueles riffs. Um peso que fez dos Nifelheim, black metal ortodoxo, blastbeats e pouco mais, meros meninos. E com o qual Irae, apesar de ser um dos seus expoentes máximos em Portugal, não conseguiu rivalizar. Se calhar faltou-lhe ter à venda aquela t-shirt de Myrkur.

Dia Três

No sábado a festa acabou cedo porque Braga, e o open day do gnration, revelaram-se bastante mais apelativos que os Suffocation (nada contra). O domingo trouxe consigo os Agathocles, que gritam ali um who cares! que também poderia definir a sua música: é que ninguém quer mesmo saber deste grindcore bruto de canção curta, como mandam as regras, apesar dos agradecimentos à organização do SWR. Na memória ficou apenas um tema sobre impostos, e não somos contabilistas o suficiente para nos ralarmos.

Ralados ficámos com os Suma, que não conhecíamos e que pensávamos ser um offshoot de um determinado projecto no feminino. O sludge pesadão que apresentaram no segundo palco tirou-nos logo a vontade de fazer piadas; a indiferença, ali e à frente do palco, era uma impossibilidade. Fechamos os olhos e deixamo-nos ir pela mão corpulenta dos suecos, que pareciam querer competir com os "nossos" Process Of Guilt, juntando à sua sonoridade o noise e os samples que brotavam de um simples computador. Mostraram, a quem não os conhecia, que são uma daquelas bandas dentro do metal que preferem olhar para a frente que (apenas) para o passado. Que é algo que deve ser elogiado, sempre. E também nos mostraram que neste deserto que é a vida estamos todos perdidos. Lutar para quê?

Se a desolação tomou conta dos nossos corpos, logo de imediato os Carpathian Forest a sopraram para longe. A histórica banda de black metal veio a Portugal não para louvar o chifrudo, mas para serem bobos de uma corte que já os tem em demasia; noutras ocasiões, até teríamos achado relativa piada às bolachas atiradas para o meio do público, à versão da "A Forest", dos Cure, e ao facto de "All My Friends Are Dead" não ser uma versão de Lil Uzi Vert e sim dos Turbonegro. Nesta noite, depois de três dias de tanto peso, tanto metal e tanta vontade de exterminar a humanidade, permitam-nos ser um pouco trvezões da coisa: foi ridículo.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
17/05/2018