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Festival Colossal
Antigo Matadouro de Santo Tirso
23-24/03/2018


Colossal tempestade. Vento e chuva em quantidades generosas vieram empurrar os cordeiros de Deus para o Matadouro. Acalmem-se os espíritos mais inquietos que, apesar de meter cordeiros e matadouros ao barulho, não se tratou de uma chacina ou de qualquer atropelo à dignidade animal. Estes foram de livre e espontânea vontade e, tanto quanto se sabe, saíram de lá inteiros, ou quase.

A primeira edição do festival Colossal, organizado pela Associação Cultural Alarido, teve lugar nos passados dias 23 e 24 de Março no Antigo Matadouro de Santo Tirso e levou aquele, outrora lugar de mortandade, a aurora de uma Primavera de vida que envergonhada em se fazer anunciar. Nu, El Señor, The Lazy Faithful, Psychtrus, The Sunflowers, Paraguaii e os djs da Alinea A foram os algozes de plantão.

Algoz nº 1 – Como matar com requintes de malvadez e ferramentas surreais

Sem bovino que se visse ou caprino que balisse, as operações começaram com larvas e baratas tontas que caminham em círculos trazidos por jovens “Isidore Lucien Ducasse”. Quem? Isidore Lucien Ducasse ou Conde de Lautréamont, poeta uruguaio autor da obra-prima “Cantos de Maldoror” que os Mão Morta levaram ao palco do Theatro Circo, Braga, em 2008 e que se consubstanciou no décimo terceiro álbum da banda. Crueldade, maldade, covardia e, acima de tudo, a estupidez humana refloresceram no palco do Colossal pelos tirsenses NU. Das narrativas cruas e surrealistas cantadas/declamadas pelo vocalista Rui Pedro Almeida ao maestro Urbano Ferreira (teclas) que orientava o rock experimental/mental retirado ao primeiro EP Sala de Operações nº338 (2016), tudo nestes sete homens NU pareceu incrivelmente perfeito. Dá-mos ao rock deles o epiteto de “mental” porque somos atirados para dentro do cérebro de um Buñel, de um Breton ou de um Kerouac em delirium tremens acabadinho de sair de “Big Sur” com uma força tal que nos mantém hipnotizados, o vídeo que acompanha toda a performance é disso um belo exemplo, do primeiro ao último segundo. Feira de atrocidades, divã de um psicanalista ou, simplesmente, a autoconsciência de um homem que se vê confrontado com a sua própria natureza, tudo isto são os NU em letra, música e vídeo: a porta de entrada nas profundezas dos Ser. Alguém pergunta: “isto é uma tourada?” Não, não é, respondemos nós. Se fosse, aqueles riffs electrizantes e as “larvas que alastram” na voz seriam bandarilhas que se te espetavam na alma.

Algoz nº 2 – Matar, mas pouco

Já o coche leva este novo Conde de Lautréamont a cantar Maldoror até à banca dos finos e já os fafenses com desejo de justiça e indie-rock afloram ao palco. Trazem, tocam e repetem o extended-play de estreia Alvorada Beat (Julho de 2017). Beach Boys sem praia, som de fácil assimilação mas sem grandes floreados técnicos, a música soa bem (apesar de problemas no equilíbrio do volume de alguns instrumentos), especialmente no tema “Dragging Smiles” que repetem entre convites a visitar Fafe. Haja justiça, não a de Fafe, há vontade de fazer dançar e divertir mas faltou Casal Garcia para se poder alcançar a alegria.

Algoz nº 3 – Descarnar sim, mas com jeitinho

Apesar de jovens, existe um sauvoir faire que implica muita sola gasta em cima do palco. Liderados por um Tommy Hogg bem-disposto, os Lazy Faithful surgiram em palco dispostos a dar um ar de um garage punk que, com o tempo e os álbuns, se foi metamorfoseando num rock n’ roll de sentido mais clássico e estrito. ”Vamos com tudo!” avisam. E foi com essa sede e com o robe de chambre de Nothing Goes On (1ª EP, 2012) movido a cargas de uma poderosa “Apologise” ou da magnifica “Heartbeat”. Esse vinho punk esgazeado proveniente da adega já bem recheada dos nada Lazy Faithful entrecortava-se com o adamado rock do último Bringer Of a Good Time, álbum em que a maturidade técnica e cénica da banda vem ao de cima, especialmente no bem trabalhado tema que dá nome ao álbum. Concerto sólido que, porém, não sabemos se fez pandã com a expectativa de grande parte dos presentes. Faixa etária mais jovem a quem a mais recente sonoridade não parece ter causado as mesmas comichões do garage primevo ou do single de 2016 “Nukin' in the Cookin'”. A noite terminou com Peter Mør ao comando da mesa de som e um estranho pequeno xamã sentado no meio da plateia…um xamã cuja história se adensará no dia seguinte.

Algoz nº 4 – Escatologicamente falando…

Dia dois de matança e no palco três dos quatro homens do barco Psychtrus já estão em palco. Necessidades fisiológicas impediam o baixista de estar a tempo e horas em cima do palco. Chamada para aqui, chamada para ali, eis que surge o Godot que esperávamos. E quem era Godot? Nada mais, nada menos do que o xamã da noite anterior. Baixista, xamã e homem com dores de barriga…acontece a todos. Sem movimentos estomacais que importunassem, a actuação leva-nos numa constante tropelia (a voz em alguns dos temas é completamente negligenciável) de rock mais ou menos psych a um indie com toques de blues e, em leve nota, a um jazz que não desmerece mas a quem ainda falta muito para se completar em toda a sua energia.

Algoz nº 5 – A mulher que mata cabras (e qualquer outro tipo de bicheza) com o olhar

Grant Heslov e George Clooney que nos perdoem (respectivamente realizador e actor principal do filme “Homens que matam cabras só com o olhar”) mas ao pé de Carolina Brandão são uns meninos. Enquanto fez e desfez como quis o portentoso tomo de rock intitulado Castle Spell (a critica do camarada Paulo Cecílio nas nossas páginas presta-lhe o devido tributo: http://bodyspace.net/discos/3265-castle-spell/) aconteceu e aconteceu-lhe de tudo. Enquanto a guitarra eléctrica e electrizante de Carlos de Jesus andava em pleno moche com a plateia, Carolina rebentava literalmente com o apoio do prato enquanto a raiva, que não raras vezes nos dispara para algo épico, lhe aguçava o desejo de destruição (o apoio podia estar apenas fodido à nascença mas a fúria no olhar após diversas tentativas de salvar a situação leva-nos a querer romancear a questão) lhe valeria, mais á frente, um dente partido. Foi há dois anos que este escriba se deparou com os The Sunflowers. Estávamos em Barcelos numa fria noite de Março ou Abril dos idos de 2016 e no palco de um quase deserto Círculo Católico de Operários de Barcelos o duo rebentava com um jugular The Intergalactic Guide To Find The Red Cowboy. Foram então, certeiros, sintéticos e completamente superlativos na rajada de psych punk que fizeram abater sobre nós. Se já atiravam a matar, com Castle Spell (2018) na mão e uma velocidade extra na engrenagem a voracidade deste rock sem grilhetas e bom-educação são a tempestade com que toda a gente gosta de levar nas trombas. E foi enquanto se preparava para afiambrar a harmónica que, Carolina solta um sonoro “foda-se!” acompanhado por um par de cuspidelas proletárias (as valentes) que lhe saem da boca mas que se lhe sentem em tons fogo no olhar. Toda esta vertigem fazia-se precipitar no semblante atónito e deslumbrado de um público completamente hipnotizado (naquele momento era possível pensar-se libertar Lisboa com aqueles dois majores ao comando e um par de AK47 na mão) e, caralho, feliz. Até um final que se desejava tardio, aquele olhar que mata cabras transformou-se no terror dos palcos, no rito sacrificial de dois músicos que merecem matadouros maiores e carne fresca para lascar.

Algoz nº 6 – Matança de elite

Se um matadouro foi local de respeito pela dignidade animal em The Sunflwoers, afinal de contas matar bicheza com o olhar ainda não está sob alçada do I.R.A., uns “alegres” Paraguaii deram “pouca treta” e mais música. Numa actuação que lançou um olhar transversal, ou quase, sob toda a sua discografia ouve espaço para uma “Godz”(Scope, 2016) cada vez mais perfeita e profunda, um hino à arte de bem casar electrónica e guitarra. Duas das melhores pérolas, não escondidas, do Portugal musical que andaram de braço dado com “Alien Love” (também de Scope) e temas do mais recente Dream About The Things You Never Do (2017) como “Tainted Love”, “Ancient Gurl” ou “Straight or Gay” quase a fechar o concerto, álbum que leva os Paraguaii a navegar em mais densas composições electrónicas. Pelo meio ouve tempo para “She”, ternura violenta estendida no tempo de um quase post que enamorou espíritos e elevou o sonho para uma troca de pedidos entre banda e público. Destes destaca-se, sobretudo, aquele vindo de um bíblico fariseu, vestido a preceito, saído do Mercado Nazareno que, por esses dias, montava banca em Santo Tirso. A voz do fariseu era lisboeta e o pedido implicava tocar Xutos. “Xutos não consigo…” sai direto e sem direito a recurso do palco. Entre este vai e não vai, sai um quizz que promete um disco entregue em mãos a quem adivinhar qual é e a quem pertence o tema que a banda vimaranense iria interpretar. O disco ficou em casa porque ninguém acertou no hit, bem, travestido de 94 chamado “Missing”, um original de Everything but the Girl.

Após Filipe, de sobrenome Gonçalves, fechar as contas dos djs da Alínea A, resta-nos deixar uma palavra de apreço por uma associação jovem que levou a bom porto o desafio difícil de experimentalizar a cultura em terras de mártir Tirso. Acessíveis e cheios de genica, os avenses Alarido deram tréguas e música a tirsenses ainda que, para isso, tenha sido necessário um matadouro.

Fernando Gonçalves
f.guimaraesgoncalves@gmail.com
11/04/2018