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Vodafone Mexefest 2017
Lisboa
24-25/11/2017


A chuva bem que ameaçou, mas acabou por ficar bem longe da edição deste ano do Vodafone Mexefest, para gáudio dos muitos festivaleiros que esgotaram o evento e para tristeza de todos aqueles que ganham a vida através da agricultura. Não que aquele que parecia ser um verão perpétuo tenha marcado presença por Lisboa. O frio era muito, apenas atenuado pelas correrias constantes entre espaços, Avenida da Liberdade acima e Avenida da Liberdade abaixo. Para quem foi recentemente diagnosticado com fígado gordo, um pouco de exercício não parece mal. E teve mesmo que acontecer, porque dos shuttles nem viv'alma e os famosos autocarros só foram vislumbrados no último dia, e já por volta da meia-noite...

Mas o cansaço é, claro, psicológico. E, por falar em psique, não poderíamos pedir melhor para a nossa saúde mental que os riffs dos Killimanjaro, já a preparar disco novo. Ainda se lembram do Zé Roberto quando era novo? Hoje os seus estudos já não são perturbados por trolls que só querem beber e o seu estatuto de estrela rock parece estar bem firmado. Porque só uma estrela rock andaria à pancada com um punk, sob risco de partir o bracinho que lhe tem dado vitalidade (a ele e a nós, que o escutamos). Nos bastidores do Capitólio, espaço que permitia a imensa gente ver o que ali se passaria à borliú, os Killimanjaro foram iguais a si próprios e nem esqueceram "December". Venha o álbum.

Lá em baixo, numa Casa do Alentejo bem composta, os Fogo Fogo parecem ter querido fazer jus ao nome; o calor, talvez o único sítio nesta cidade onde se sentiu calor durante o Mexefest, era praticamente insuportável. Culpa das janelas fechadas e do seu próprio funaná, muito convidativo à dança e ao roça-roça, e que fez mexer (desculpem) os que até ali se deslocaram. Foram o tónico ideal antes de Primeira Dama que, e lamentavelmente, foi forçado a mostrar as suas canções numa Garagem da EPAL onde o som é e sempre tem sido uma valente merda. «Estou a 20 metros de tocar no Coliseu...», disse ele ao início. Para a próxima será mesmo melhor pô-lo lá.

Coliseu esse onde arrancou, pouco depois, Washed Out, nome de culto da chillwave e, sim, prova de que esse género ainda não morreu apesar de já estarmos em 2017. Se ainda é válido? Perguntem a quem encheu a sala pela metade, e depois perguntem aos que não o fizeram. Canções como "New Theory", retiradas ao sempre válido primeiro EP, continuam contudo a soar muito bem mesmo que o espectáculo ao vivo de Ernest Greene seja hoje em dia menos ressaca veraneante e mais psicadelismo electrónico e visual. E até há funk, há hip-hop, há house e há um tipo apostado em sair da caixa onde blogues hipsters o meteram.

Quem não soube onde se meter foi o muito público que tentou assistir ao concerto dos Songhoy Blues, que foram este ano a banda que todos quiseram ver mas que nem todos conseguiram. A fila que começava na Casa do Alentejo e que quase chegou ao Coliseu obrigou a grande maioria a limitar-se a ouvir o som que ia escapulindo cá para fora. Em todos os Mexefest há um concerto onde é mais difícil entrar do que ganhar o Euromilhões - e aos malianos saiu a fava. Se foi bom ou não, não sei; só lá entrei cinco minutos para passar à frente de toda a gente e meter nojo.

Novamente na Garagem, os Ermo fizeram um milagre: o som estava impecável. E só podia, virtude do excelso Lo-Fi Moda, para muitos o melhor álbum português do ano, fruto daquela que é a melhor banda portuguesa da actualidade e a segunda melhor de Braga. Electrónica hoje sem rosto, mundo virtual construído e desconstruído por laptops e voz, e quarenta e poucos minutos de uma história que ainda agora está a começar e já lhe pertence. Gigantes. Como os Orelha Negra são gigantes, mesmo que haja bacoradas do género «pensava que isto era dançável...», proferidas por miúdas betas de Cascais que provavelmente votam CDS-PP, 15 minutos depois de o concerto começar. Mais que em disco, é ao vivo que toda a glória hip-hop/funk dos Orelha espalha a sua magia, sobretudo em temas mais antigos, como "Throwback" ou a sempre genial "M.I.R.I.A.M.". Nem o véu que se posiciona à frente da banda, em palco, parece amenizar aquilo que é sempre uma enorme comunhão dos Orelha Negra com o seu público. E não há muita gente a fazer isso, hoje em dia.Com as pernas meio doridas do dia anterior, foi preciso fazer um esforço e correr até ao Capitólio para gritar por Gondomar. Que é como quem diz, gritar pelos Conjunto Corona, paródia do rap gangsta que é ela própria rap gangsta, ao bom jeitinho tripeiro. Os Corona, sempre demasiado gentis em palco, merecerão sempre o nosso muito apoio enquanto nos continuarem a fazer rir e gingar ao som do groove que permeia temas como "CV", ou nos continuarem a querer fazer partir tudo como em "Pontapé Nas Costas". No fundo, são uma banda punk. O resto da malta é que não sabe - eles parecem sabê-lo desde há muito. Num concerto onde não faltou o hidromel da praxe e um Homem do Robe a cambalear em palco e fora dele, onde cachecóis do Gondomar SC foram parar aos pés e ao pescoço do dB e onde o Nuno Dias estava bem lá à frente para uma vez mais ouvir aquele shout-out gostoso, só faltaram mesmo as putas. Faltam sempre, na verdade.

Com disco de estreia editado há pouco tempo, Iguana Garcia mostrou garra em mais um concerto na Garagem, mas onde não conseguiu o milagre dos Ermo na noite anterior. Ficou aquela sua dança alternativa, com algum glam à mistura, e gente mais preocupada em pôr a conversa em dia que assistir ao raio do concerto. Quando a malta se queixa dos telemóveis sobre as cabeças, eu recordo-lhes sempre que ao menos os ecrãs não falam. Bem, até ao dia.

Eram, talvez, o grande cabeça de cartaz da edição deste ano, fruto das boas críticas que o seu primeiro álbum tem vindo a receber. Os Cigarettes After Sex regressaram a Portugal para amar e ser amados, mas devagarinho, com muito lubrificante e preservativo, e com canções tão sensuais e onde se encontram versos tão românticos como, traduzido de forma livre, «és a Santa Padroeira do broche». "Young And Dumb", esse portento de canção, escutou-se logo à segunda. Depois, surgiram os "êxitos": "John Wayne", "Flash" ou "Each Time You Fall In Love". Os Cigarettes After Sex, quer vocês queiram quer não, são os Red House Painters para toda uma nova geração (e eu fui o primeiro gajo a dizê-lo, e tenho posts no Facebook que o provam); fazem chorar, fazem o coração tremer de emoção, fazem esta juventude querer pinar com beijinhos muitos à mistura. E isso, numa era onde só o ódio é manchete, é bastante fofo.

Vaiapraia é a primeira grande voz do queercore em Portugal, deslocando-se até à Garagem para um concerto cheio de punk e de gente, com o estimado Rodrigo a tirar selfies com os telemóveis dos fãs e a acabar de tronco nu. Punk, sim. Como não o ser quando uma sociedade te corta a vontade e o espaço? Mal acabou, foi hora de correr novamente para o Capitólio, com o Desportivo das Aves a moer a cabeça e Allen Halloween a revelar-se uma opção melhor do que aquela que poderia ter sido Julia Holter, tal era a sede de violência. Ali, houve "Drunfos" e "Killa Me", e houve rendições acústicas de temas seus e de Zeca Afonso, do álbum por lançar e que se chamará Unplugueto. E houve, também, prova de que o hip-hop tuga afinal está vivo. Durante anos e anos pareceu que não. Vivos também os Liars, hoje reduzidos a um único membro da formação original, e que foram até à Estação do Rossio para apresentar o seu novo trabalho, com Angus Andrew vestido de noiva e imensa gente passada dos cornos mal sou "Mess On A Mission". Como não poderia deixar de ser, já que é alta malha.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
06/12/2017