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NOS Primavera Sound 2017
Porto
8-10/06/2017


Passou um mês mas as memórias continuam bem presentes. Parece que foi há coisa de meia dúzia de dias. Como esquecer, entre outras coisas, a monumental tareia que Aphex Twin infligiu a todos aqueles que puseram os pés no Palco NOS, um espanto sonoro e visual - apesar daquela última meia hora de jungle que podia muito bem não ter existido - ou o banho de rock 'n' roll hipnótico de King Gizard & The Lizard Wizard?; como não lembrar a sensação de sentar naquele imenso relvado, olhar para os horários e, mais ou menos descomprometidamente, ver um concerto sabendo que o mais certo é que a coisa venha a render?

Como não guardar na memória ver uns Arab Strap em excelente forma entregar uma versão bem inspirada da portentosa "New Birds"? Como apagar da memória interna a "aparição" de Elza Soares à boleia daquele disco que trouxe a brasileira para as luzes de uma certa ribalta, naquele que foi um dos grandes momentos do festival? Como ultrapassar a força, o ritmo e a fúria de uns Run The Jewels a todo o vapor - e com sintonia quase total com o público?

Deu para ver os Evols numa muito merecida slot no Palco NOS e levar com todas aquelas guitarras nas bentas; deu também para espreitar um pouco dos rock de deserto de Songhoy Blues e aproveitar (com um algo inesperado pézinho de dança) a viagem para paragens distantes. Foi bom ver Weyes Blood abrir o livro da sua pop etérea e encantatória - mas não foi incrível - e foi curioso ouvir a country de Nikki Lane - mas foi pouco mais do que curioso.

Foi bom ver Miguel apresentar as suas canções R&B com uma muito competente banda (que injectou um lado mais rock onde não imaginávamos bem tal coisa), com grande destaque para o monumento pop chamado “Adorn”. Mais coisas, mais coisas, mais coisas. Foi bom ver Sampha, embora muitas vezes tivéssemos ficado com a vontade de estar a ver SBTRKT, e perceber que ao vivo aquela voz quase impossível é bem real e palpável.

E foi mesmo muito bom ver essa instituição chamada The Make-Up e o one-man-show que é o vocalista Ian Svenonius, que andou em cima do público, gritou, esperneou e fez a festa sozinho. Que é como quem diz, porque do outro lado estava um público que, independentemente de conhecer a história da banda, se mostrou absolutamente rendido.

Não deu para ver Justice, que no dia a seguir era preciso levantar o país, mas ouvimos dizer que deu festa. Não deu para ver Bon Iver porque ainda não entendemos muito bem o que se passou no último disco de Justin Vernon (e este que assina ficou bem embeiçado com o seu registo antecessor), nem os Metronomy porque, bem, o tempo deles já passou.

Não deu para ver Royal Trux - e com muita pena - por motivos de força maior nem uma data de outros nomes – por sobreposição de outros nomes ou de coisas da vida. Num ano de efectivo risco no que toca à programação (e quem disser o contrário está a mentir), o NOS Primavera Sound continua a afirmar-se na cidade como um dos momentos culturais mais relevantes e obrigatórios. Para o ano há mais.

André Gomes
andregomes@bodyspace.net
13/07/2017