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Wovenhand / Filipe Felizardo
RCA CLUB, Lisboa
05-/05/2017


Há alguma coisa na guitarra de Filipe Felizardo que nos arrepia até às entranhas. Deve ser aquele ruído arrancado aos melhores sonhos dos e com os Rallizes Dénudés, aquela espécie de electricidade introspectiva que nos capta a atenção, como se Carlos Paredes houvesse tomado ayahuasca num deserto alentejano, com céu e mar enquanto miragens. O seu talento não necessita de mais elogios; apenas de olhos para ver e ouvidos para ouvir - e quem os tiver, que o faça. No RCA, explorou uma vez mais as possibilidades da guitarra eléctrica através de motifs em tons de sludge, ele que, por vezes, parece tocar de forma quase automática, as cordas ditando os dedos e não o contrário. Felizardo é o canalizador de uma energia mística e insondável, ao qual nem um ateu conseguirá ficar indiferente...

...e, sabemo-lo bem, esta era uma noite de contornos quase religiosos, ou do outro lado do cartaz não estivesse David Eugene Edwards, que enquanto Wovenhand tem criado alguma da country mais pesada daquele lado do Atlântico - um lado ainda por conspurcar pelos colonos brancos, um lado nativo-americano com os seus próprios deuses e os seus próprios monstros, mesmo que a figura, nas letras, seja a do Cristo (mas Cristo nasceu na América. Há muito que o sabemos). Um cântico tribal antecipa a sua entrada em palco, o mesmo cântico com que fecharia antes do encore, como que para provar que, mais que um concerto, a sua presença no RCA era a de um ritual.

Ritual esse feito a galope por uma estrada de terra, passando por "Hiss", "Crystal Palace" ou "Hired Hand", todos eles temas presentes em dois dos grandes discos da sua carreira enquanto Wovenhand: Refractory Obdurate e Star Treatment. Canções de faca e alguidar benzendo recém-nascidos em bares perdidos na noite, na sua mui idiossincrática Americana, a que bebe de todas as fontes e feitios. Acompanhado por uma banda absolutamente robótica, que não se deixou distrair ou enganar e que permaneceu, sempre, em busca da perfeição sonora, Edwards ia mantendo os olhos fechados ou semicerrados durante toda a actuação, instando o público ali presente (em bom número, não obstante o preço dos bilhetes) a fazer exactamente o mesmo. Religião, repetimos, com o mesmo peso do nome e da fé em Swans, fosse através de uma guitarra ou de um bandolim eléctricos. "King O King", a fechar, foi a hosanna no topo da missa. Melhor só se tivesse actuado em Fátima.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
09/05/2017