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Linda Martini
Hard Club, Porto
3-/03/2017


O que é que cemitérios judaicos em Sarajevo têm a ver com Linda Martini? Provavelmente nada, mas foi deste nada que começou a viagem ao mundo dos quatro que algures nos anos 2000 mudaram a forma como olhavamos para a música cantada em português. Ainda, aquele que viria a ser um lotado Hard Club, se enchia e a Bósnia e as suas idiossincrasias tomavam conta do pedaço em formato sedução (que me desculpe o jovem entradote por ouvir as suas conversas) que serviria de mote a tudo o que se passou nas, quase, duas horas seguintes.

Uma valsa entre quem já nada tem a provar e um público que sente mas que é exigente no que toca à escolha do par. Sirumba está prestes a fazer uma ano. É diferente, assim como diferente foi a recepção do público ao longo destes onze meses e a verdade é que, à excepção de duas ou três músicas, este último álbum não resulta ao vivo. A faca que corta em dois faz esquecer este capítulo exacerbando o amor pelo (s) outro(s) como o Hard Club à pinha fez questão de sublinhar em “Juventude Sónica”, “Amor Combate” ou a enorme, gigante, “Este Mar”.

Esse jogo de sedução entre uma dama sempre difícil de levar a jantar (público do Porto), mas que se atira desalmadamente a quem ama, e uma banda a quem não falta carinho e ânimo acabou, como seria de esperar, pelo reforço e confirmação de que os Linda Martini poderiam ter nascido em Aldoar ou na Corujeira tal o amor entregue. Amor com amor se paga e a ideia de um concerto no Coliseu do Porto ficou no ar.

Entre este deve e haver que passou pelos Linda Martini e Olhos de Mongol a dilacerar a alma a golpes de algum do que de melhor o post-rock português deu a conhecer (até conhecer os First Breath After Coma), sem esquecer os hinos “Juventude Sónica”, “Mulher-a-dias”, a inigualável “Belarmino” (toda uma metáfora irónica para uma banda cujos olhos não tocam o chão) ou a inevitável e última “Cem metros sereia” de Casa Ocupada, estas duas antecipada por um quis que alguém do público ganhou ao atirar um sonoro “Panteão”

Quem esperava uns “assassinos de sanidade mental” como os de início de carreira certamente não gostou. A matança agora é limpa, usa luvas e está cada vez mais longe de qualquer escatologia o que não significa que a “besta” não crave os dentes. Quando crava a malta canta…como acabou por acontecer.

Fernando Gonçalves
f.guimaraesgoncalves@gmail.com
09/03/2017