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Festival SEMIBREVE
Theatro Circo, Braga
11-13/11/2011


Olhando para o cartaz da primeira edição do SEMIBREVE, uma palavra – e uma palavra apenas – vinha à cabeça: luxo. A nata da nata da electrónica experimental – na falta de melhor palavra – reunida em Braga em três dias que muito prometiam. Mas como da promessa ao cumprimento vai uma longa distância, foi preciso chegar ao fim-de-semana propriamente dito para perceber que nasceu aqui um dos melhores novos festivais portugueses; um festival com projecção internacional (havia muita gente a não falar português pelos corredores do Theatro Circo); algo que queremos ver repetido em 2012.

O primeiro dia do festival ofereceu um sortido de sabores distintos: primeiro, na sala principal do Theatro Circo, Qluster, o projecto do histórico Hans-Joachim Roedelius (Kluster, Cluster, Harmonia, não chega?) com Onnen Bock desenhou paisagens de belíssima qualidade harmónica e humana perfeitamente contempladas pelas projecções que neste tipo de concertos ajuda não raras vezes a digerir alguma – inevitável – falta de acção em palco. Podem ser menos ácidas e mais polidas que noutros tempos, mas as explorações de Hans-Joachim Roedelius e Onnen Bock permitiram uma bela viagem inaugural. Foi o primeiro de três concertos bastante diferentes naquela noite.


Descendo para a sala secundária do Theatro Circo encontramos Taylor Deupree e Stephan Mathieu, máquinas, uma espécie de cítara e muitos ebows. A partir da melodia criada pelos ebows na espécie de cítara, a dupla foi construindo um espaço de improvisação que usou e abusou do confronto com o silêncio e do minimalismo. Mesmo que o resultado não tivesse sido interesse (e foi), o processo foi muito curioso de se ver. De volta à sala principal, Jon Hopkins, que colaborou já com nomes como Herbie Hancock, King Creosote ou os Coldplay, apresentou um set que andou a meio caminho entre o experimentalismo – muito corte e cola, muito ruído bom – e as batidas mais pronunciadas – e, na maior parte das vezes, demasiado pronunciadas. Foi bom ver Jon Hopkins trabalhar no duro o seu set e foi bom vê-lo retalhar e esquartejar batidas; foi menos bom seguir pelo caminho fácil. Mas foi uma boa viagem para terminar a noite.


O segundo dia reservava logo um enorme viajante: nada mais, nada menos do que Fennesz que, com a ajuda de Pedro Maia nos visuais e com a sua guitarra (que leva tudo para outra dimensão), construiu belíssimas paisagens de tons azulados e carregados, plenas de intenção e emoção, eminentemente cinematográficas e constantemente interessantes. Os cinquenta minutos da actuação passaram a correr e ficou, como é habitual, apetite para mais. Havia mais na sala secundária, produção nacional pela primeira vez: blac koyote, o projecto do portuense José Alberto Gomes, continuou a apresentar o seu disco de estreia naquele que foi o concerto mais live de todos os concertos no Semibreve: houve teclados, bateria e muita percussão num concerto que começa na electrónica e depois transforma-se noutra coisa qualquer (pós-rock às vezes?). Algures entre a música cerebral e a música emocional, blac koyote foi construindo paisagens impressionistas com a linha do horizonte bem bem lá ao fundo.

A fechar a noite, uma verdadeira força da natureza da música electrónica. A força foi tanta que Alva Noto, tanto baixo, tanta batida, ameaçou claramente derrubar o PA do Theatro Circo – e chegou a temer-se o fim antecipado do concerto. Apesar de cerebrais e complexas, as composições de Alva Noto são de uma intensidade natural que permitem, com naturalidade, um contacto directo e físico com a matéria-prima. Tal como acontece com Ryoji Ikeda, e apenas para ter um termo de comparação, a música de Alva Noto é uma experiência sensorial, física, humanizada. Uma detonação para os sentidos; tivesse durado mais duas horas e ninguém teria levantado um pé. A não ser que fosse para acompanhar as batidas. Notável.

A fechar, e com pena (pois ainda não havia acabado e já o SEMIBREVE deixava saudades), o segundo nome português do festival: Vitor Joaquim, bem acompanhado nos visuais por Hugo Olim, mostrou o seu trabalho visivelmente amadurecido com o passar dos anos, altamente informado e ajuizado. O seu trabalho é sobretudo de desconstrução: há muita beleza mas está maioritariamente escondida, tornando o desafio mais interessante, mais recompensador. A meio da tarde, não se poderia imaginar nenhum sítio melhor para se estar depois de escapar ao mau tempo a caminho de Braga.

Por falar em condições atmosféricas, a música de Murcof - aqui com a presença essencial do projecto visual Anti VJ - é dada a mudanças bruscas de temperatura, cor e pluviosidade. Apesar de ter fugido bastante aos seus discos (sobretudo aos primeiros), a viagem que Fernando Corona reuniu as condições suficientes para ser uma interessante degustação de batidas e ambiências. A música que o mexicano produz, inconfundível, é fruto de um apuramento estético tal que se tornou quase imagem marca. Apesar das saudades dos tons e cores de Martes ou Utopia, Murcof e Anti VJ fecharam com chave de ouro um festival que, ainda agora começou, e já se tornou indispensável. SEMIBREVE, volta em breve.

André Gomes
andregomes@bodyspace.net
22/11/2011