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Festival Milhões de Festa
Praia Fluvial, Barcelos
23-25/07/2010




Barcelos Rock City

Barcelos está a crescer. E a arder: três dias em que a temperatura não baixou dos trinta graus levaram quem teve o privilégio de lá estar a aderir em massa à já famosa piscina - o momento deste verão pauta-se pela visão de dúzias de meninas indie em bikini, garotas de Ipanema passeando descalças, lolitinhas vaidosas com óculos em forma de coração, e tantos outros epítetos pervertidos. Podemos desde já adiantar o semi-sucesso da expansão da marca Milhões de Festa para a cidade - não um sucesso completo porque faltou a adesão de outra espécie de público, aquele que não fosse credenciado (e esses foram aos milhões). Mas não importa: conjugando os grandes concertos a que se pôde assistir com a organização impecável e o ambiente festivo, o festival de amigos para amigos fez novos amigos e muitos mais fará se continuar nesta onda. O que prova que, comparando com as grandes armas (leia-se promotoras), isto dos festivais de música é como a pornografia: amateurs do it better.

Fear & Loathing

Estávamos algures nos arredores da piscina quando as drogas começaram a fazer efeito. Coube a honra de abrir as hostilidades ao one-man soundsystem Tren Go! (só percebi a piada horas mais tarde), um homem e a sua guitarra e efeitos muitos - uma espécie de surf hypnagógico que funcionava como o prenúncio dos concertos futuros: rock bastardo e pop delicada. Muita gente nadando enquanto assistia (ou não) ao concerto, três ou quatro feios com vergonha do próprio corpo à frente do palco assistindo impávidos e apanhando escaldões (o escriba insere-se neste último). Pouco depois entravam em cena os BEARS, trio que se estreou nestas lides com um concerto em que fizeram juz ao nome: rock de riffs gordos como o Malato, que levou ao surgimento dos primeiros headbangers. O que vale a pena apontar neste dia é a actuação de Rudolfo, génio por trás do hate beat (diz ele) ou do pimbacore (digo eu). Porque um gajo que diz que tem tentacle hentai como influência merece sempre respeito.

E agora os nomes mais sérios: eram quase sete da tarde quando os Evols deixam de aquecer (retenha-se deste festival que a maioria dos soundchecks era feito minutos antes do concerto) e começam a mostrar as suas intenções psicadélicas: cargas e descargas de reverb e feedback a fazer lembrar uns Spiritualized ou um holocausto dos MBV (mas para meninos), guitarras caminhando sobre guitarras criando um ambiente que, conjugado com a vista sobre o rio e o sol a descer no horizonte, foi o ideal. O público era ainda parco - mas Jesus também só tinha doze apóstolos. Alguns problemas de som tornaram-se irrelevantes, especialmente quando desabam num cliché adolescente mas delicioso: we are going nowhere 'cause we just don't care. Pouco depois os Plus Ultra estreavam o palco principal (outra das coisas a reter, o tempo curto de cada concerto e o tempo de espera entre os mesmos proporcionou a que não se perdesse quase nada) com um som algures entre o hardcore e o metal, com a referência natural a Satanás para lá enfiada. Também na raiz hardcore, os Larkin subiram ao palco secundário com um concerto morno, culpa também de alguns punks demasiado apáticos para o moshing que se pediria. A jogarem em casa, foram os Glockenwise que proporcionaram o primeiro grande concerto do dia, com Nuno Rodrigues, vocalista, a incitar à festa (Bem-vindos ao Coachella português!). O punk rock dos Glockenwise faz-se de canções rápidas e divertidas, e arriscaríamos dizer que estão aqui uns dignos sucessores dos Vicious Five. Seguir-se-iam os Sizo, punks do Porto que tiveram um bom momento ao juntar numa espécie de mashup o riff de "Ghost Rider" dos Suicide com "Strychnine" dos Sonics.

Era já de noite quando os Men Eater subiram ao principal, com um público mais composto, maioritariamente trupes metaleiras semper fidelis à sua cena. A linguagem é mais sludge, os riffs são de soco na cara, e o peso sente-se no ar: por entre temas de Hellstone e Vendaval, os dois registos do grupo, mostraram um som coeso e que é uma das grandes referências do Portugal pesado de hoje. Men Eater, a salvar o metal nacional desde 2006 (ano da auto-destruição dos Moonspell, mas isso é outra história). Outros dos filhos pródigos da cidade, os Black Bombaim, deixariam depois que as suas guitarras falassem por si. Os riffs que transpiram parecem não acabar nunca; o stoner rock que apresentam levou aos primeiros sinais de ganza no ar. Os norte-americanos Valient Thorr abrem o set de forma épica, tal como épica é a barba do vocalista Valient Himself. Aterraram neste planeta para não deixar o lado mais saudável do rock morrer - e foi claramente esse, tanto nas palavras de Valient como nos riffs parte heavy metal clássico parte rock sulista que saíam das guitarras, que venceu. Quando uma banda se leva a sério não se levando a sério não poderemos desejar muito mais. Ainda os Faca Monstro apresentavam no palco secundário a sua espécie de dubstep apocalíptico já o grande nome do primeiro dia, os britânicos Electric Wizard, espalhavam a magia no ar recorrendo a temas do mais recente Witchcult Today e do clássico Dopethrone, obra-maestra do metal pedrado, com Jus Oborn, único membro fundador ainda presente, a encher o recinto de riffs arrastados e dedicatórias sonoras ao doom clássico dos Black Sabbath. O baixo volume não deixou que os tímpanos se furassem como muitos pretenderiam, mas a verdade é que os Electric Wizard assinaram um bom concerto que apenas pecou por escasso (mas como viemos a saber, cada concerto só duraria cerca de quarenta minutos). Destaque todo, evidentemente, para a enorme "Funeralopolis", não sem antes Oborn bater um recorde no que toca à rapidez com que se fuma um charro. Podia ao menos ter oferecido.

Paulo Cecílio
pedrop_ogenio@hotmail.com

All Summer Long

Ainda com milhões de festivaleiros a recuperar das doses massivas de electricidade da noite anterior, o segundo dia do MdF arrancou na piscina, com uma sequência de actuações e djs a animar o povo semi-despido. Desta tarde na piscina destacaram-se os Feia Medronho, com ironia pós-moderna e a participação especial do “homem de verde” (há registos vídeo, certamente). Mais a sério, o palco principal abriu com os Long Way to Alaska, que apresentaram uma folk/pop solarenga, bem adequada ao fim de tarde quente. Há ali boas ideias mas fica a sensação que o grupo está ainda em amadurecimento, com potencial ainda não explorado, a faltar ali qualquer coisa. Andámos até ao Palco Vice e seguiu-se Cavalheiro, pseudónimo artístico de Tiago Ferreira, que mostrou as suas canções com letras em português sobre músicas taciturnas. As músicas abordam temas como o Bom Jesus de Braga ou a vila de Fão (localidade onde o artista passou o Euro 2004, confessou). Uma das surpresas desta actuação segura foi a inclusão de “Cold Blooded Old Times”, original de Bill “Smog” Callahan, numa interpretação bem competente. Os Appaloosa trouxeram um electro-pop alegre: a voz da bela Anne Marie sustenta um conjunto de canções idílico-dançáveis, fofura alimentada a batidas e sintetizadores pré-gravados numa actuação que, não sendo deslumbrante, deixou alguns sorrisos. Já o duo Hype Williams trouxe a sua música feita de bases instrumentais arrastadas, sombrias e complexas, complementadas por vocalizações esparsas, numa performance globalmente inconstante.

O primeiro grande momento do dia chegou com os portugueses PAUS, que encontraram um recinto já muito bem composto. O concerto baseou-se naturalmente nos temas do fresquinho EP É uma água, com a potência da bateria siamesa em evidência, com o apoio enérgico de baixo e teclados. O pico do concerto chegou no penúltimo tema, “Mudo e surdo”, que contou com a participação de um percussionista extra, deixando o público em êxtase. Os velhinhos The Fall mostraram que, mesmo com 35(!) anos de vida, continuam uma verdadeira máquina rock, onde entra com todo o à-vontade a voz de Mark E. Smith (que canta como quem declama ou vice-versa). Smith começou o concerto com dois microfones à sua frente, mas não se deu por satisfeito antes de se servir de todos os microfones que encontrou no palco, debitando versos com aquela voz quase indecifrável. A certa altura o histórico vocalista abandona o palco para não voltar, a banda toca uma última canção, já sem o líder, e o concerto encerra de forma algo abrupta. Foi uma boa lição de história rock, apesar da curta duração - 40 minutos onde até houve mosh. O espanhol El Guincho levou a Barcelos a sua pop veraneante e não desiludiu os fãs de Alegranza. Pablo Díaz-Reixa cantou e manipulou samplers, percussão electrónica e esteve acompanhado por guitarra e baixo, o que deu à actuação uma dimensão mais orgânica. As canções acabaram por soar um pouco diferentes do som do disco, mas apesar dos limitados recursos da actuação “live” o espanhol conseguiu fazer a festa. Enquanto boa parte do público fazia “o comboio”, Guincho desvendou um pouco do disco novo, a editar em Setembro, e guardou para o final o hit “Antillas”, que obrigou o povo a dançar (ainda mais) freneticamente.

Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

Where were you when it happened?

Mesmo que depois da actuação aquilo que se ouviu mais, num sotaque absolutamente delicioso, foi isto é bué de seca, a verdade é que Dreams fez por merecer o convite para este festival com um concerto notável, onde a electrónica cujo estilo ainda não tem nome definido mas não interessa povoou a piscina e concedeu à tarde de maior calor dos três dias de Barcelos uma maior cor. Destaque para "Swimming In Pink Waters" (doce pop fabuloso) e as duas covers: "She's Lost Control", dos Joy Division (estranhamente muito mais negra) e uma versão suave de "So Bored" do incontornável rei da praia, Wavves. Logo depois foram os lisboetas Sunflare, com a participação especial de Nuno Rodrigues dos Glockenwise, que foram de todos os proponentes do novo Portugal eléctrico aqueles que mais perto estiveram de descobrir o propósito de uma guitarra eléctrica: fazer montes de barulho. O ruído fez-nos muito bem e até houve espaço para se destruir a bateria (Ninguém tem tarolas? Só tarolos?).

Os Riding Pânico, mistura de PAUS com Men Eaters (mas sem soar tão homoerótico) apresentaram-se no palco secundário ao final da tarde para descarregar adrenalina, bojardas atrás de bojardas de rock fervilhante que deixou o chão a tremer; semearam, lá está, o pânico. Os espanhóis Extraperlo, que continham nas fileiras os dois acompanhantes de El Guincho na noite anterior, entram ao som de Gabriel, o Pensador para mostrar a um espaço ainda praticamente vazio (tudo na piscina) a sua pop en español que, mesmo não sendo nada de extraordinário, apreciou-se bastante bem - e até teve direito a um comboinho de vinte pessoas que percorreram o recinto a dançar. Dos britânicos Ghost Of A Thousand quase se receou perderem completamente o público depois de se lançarem num señoritas y señores de boas-vindas, mas o patriotismo não rugiu e quem lá esteve (principalmente miúdos) aderiu ao mosh e ao circle pit que se formou virtude do hardcore cheio de gritos (principalmente para miúdos) que tocam os cinco rapazes (sendo que um dos guitarristas, juramos, era o sósia perfeito de Alex Kapranos). We'll never grow old, gritam eles, e se calhar têm razão. Já a lua cheia subia perigosamente por entre as árvores quando as guitarras dos Year Long Disaster uivam em diatribes etílicas, mas num concerto demasiado curto para saciar a sede de rock.

Poder-se-ia escrever uma tese de mestrado sobre o enorme concerto de estreia dos Monotonix em Portugal, mas é algo que se resume facilmente em três palavras: Puta. Que. Pariu. Nem o melhor dos vídeos do Youtube poderia dar um gosto daquilo que foi um autêntico guerrilla gig que deixou siderados (e esgotados física e psicologicamente) todos os presentes, especialmente aqueles que não arredaram pé de junto dos três israelitas, que munidos apenas de uma bateria e uma guitarra explodem em urgência punk, acabam com todas as noções pré-existentes de crowdsurfing, desencadeiam autênticas batalhas campais por um sítio onde apoiar os pés e percorrem todos os espaços do recinto com a casa às costas; um verdadeiro vírus de diversão que deixou muitos durante quase todo o tempo com o maior dos sorrisos na cara. O relacionamento público-banda culmina no salto de três metros do vocalista Ami Shalev para cima de dezenas de braços estendidos, tábua de salvação da tábua de salvação do rock. Shalom!

Paulo Cecílio
pedrop_ogenio@hotmail.com


This Is Happening

Uma das maiores surpresas do dia veio do Japão: Bo Ningen. Com um rock pesado altamente psicadélico e um vocalista andrógino em permanente pose teatral, estes japoneses apresentaram as melhores cabeleiras do festival e um espectáculo (sonoro, mas também visual) brutal. Recentemente regressados à vida após um longo interregno, os Karma to Burn mostraram dominar como ninguém o glossário do riff. O som clássico da banda de Will Mecum, Rich Mullins e Rob Oswald incendiou o público – e conseguiu fazer com que Chaz Bundick abanasse a perna. O final aconteceu com uma cover de Black Sabbath (o respeitinho é muito bonito). Para depois do “show” dos Monotonix (tarefa ingrata), ficou a actuação de Toro y Moi – que seria esperada por muitos, mas acabou por não convencer totalmente os fãs. A aposta no formato banda, com bateria e baixo na apresentação “live” revelou-se boa ideia, mas o concerto de Barcelos viveu alguns problemas: a voz de Chaz estava com o volume demasiado baixo, o som do baixo estava demasiado alto, o som global estava desequilibrado (pelo menos era o que se percebia da terceira fila). De boné na cabeça e t-shirt amarela com o número 7, Chaz Bundick desfilou as canções do óptimo Causers of This, mas o resultado global foi morninho.

Os Za! surpreenderam logo na entrada em palco: duo vocal a capella em cantos tribais. Passaram depois para um formato mais tradicional: guitarra e bateria (e vozes, claro), mas sempre imprevisíveis, ritmos quebrados, divagações sonicas, elementos de música africana, explosões enérgicas, uma música constantemente marcada pela surpresa. A certa altura o guitarrista deixa a guitarra e agarra um trompete, que fica a pairar, mergulhado de eco, sobre o groove pré-gravado (imagine-se o Miles da fase eléctrica em opiáceos). Partindo da linguagem rock o duo embarca numa estratégia de descontrução pós-Beefheart, de resultados sempre inesperados. Para o final de festa no palco principal ficaram os últimos representantes da armada espanhola presente em Barcelos, os Delorean. Com o disco Subiza ainda em processo de invasão, o quarteto vindo de Barcelona fez uma boa transposição das canções para o concerto, apresentando uma impecável sequência de temas festivos, altamente dançáveis, irresistíveis. O relógio apontava para as 3 da manhã quando abandonámos o recinto e reza a lenda que a festa ainda continuou pela noite fora (Crystal Fighters e South Rakkas Crew), mas já não estávamos lá para confirmar. Dezenas de guitarras, centenas de miúdas em bikinis, milhares de músicas, Milhões de Festa. Isto aconteceu mesmo. Para o ano tem de haver mais.

Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com