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Sexta-feira 13, 13 nomes
Avenida da Liberdade 211, Lisboa
13/07/2007


Um sonho marcante é como um vespertino que traz um puzzle gratuito.

As coisas complicam-se em Inland Empire a partir do momento em que a agulha assenta sobre o disco que gira, mas só emite estática (e o vazio Hollywood). Alfredo Costa Monteiro e Plan recuperam as múltiplas maneiras sugeridas por Otomo Yoshihide para contestar a ortodoxia do gira-discos como instrumento, e baralham a luminosidade - cegando a cabeça da agulha – aos quartos onde convive aquela família de coelhos sinistros que se alojou na memória sem permissão.

Os Gala Drop contam agora com Afonso Simões (aka Phoebus e metade dos entretanto congelados Fish & Sheep) na bateria. A fervente meia hora parece-se muito com um jogo de Risco a seis mãos, em que os territórios disputados dividem-se entre os continentes do dub manco, estranheza xamanística a cada vez que Tiago Miranda dilata a voz, improvisação enquanto ciência questionável, Crooklyn in your face. Todos ganham.

O Calhau segregou banha sonora e lá estava o António para contar a história. Ou melhor, uma fábula onde o gargarejar de todo o tipo de samplers e aparelhos coabita com o ruminar de brinquedos e material analógico que a tecnologia foi expulsando da sua área de influência. Ninguém fica de parte. Nem mesmo a radiação de um telemóvel interceptada pelo amplificador ao centro de uma sala que tatuou a memória auditivamente tal como visualmente.

Mais saudável seria a terapia matrimonial que passasse pelo arremesso de ruído em vez de pratos e porcelanas. O resultado cacofónico é essencialmente o mesmo quando a instabilidade de uma paixão passa por uma guitarra que perdeu anos na selva e por um deck cheio de pedais indispostos a aspirar o ruído que sobra como cinza. Os ouvidos podem ser a ambulância, quando os Tropa Macaca são o acidente.

Os One Might Add encontram-se paredes-meias com Riff Drivel quase como se fossem os Run DMC e os Aerosmith em “Walk this Way”. Os primeiros asseguram que o robot de Ulysses 31 chegou a maior de idade e conquistou o sexo oposto com rituais de acasalamento invulgarmente rítmicos, o segundo vai empilhando a guitarra em camadas num cenário muito semelhante ao do teledisco “Bedtime Story” da Madonna, mas, neste caso, filmado com um orçamento de 3 euros.

O relógio de cuco pára quando David Maranha assenta as mãos sobre um órgão Hammond e deixa um mindinho assombrado sobre a mesma tecla transversal, para, com os restantes dedos, ir povoando o quarto escuro com crias de morcegos que aprendem a voar gradualmente.

O cenário adquire proporções que tornariam eufórico o próprio William Friedkin, o ditador que filmou O Exorcista: uma figura feminina contorciona o seu corpo sobre um órgão que nas suas mãos é um ritual pagão, enquanto Afonso Simões mantém bem acesa a chama cerimonial num timbalão. É justo apontar o segundo como o mais árduo trabalhador a pisar nessa noite o primeiro andar daquele edifício místico na Avenida da Liberdade.

A CAVEIRA conhece bem a minha mãe, mas, felizmente, isso não é recíproco. Não me parece que a minha santa mãe viesse a encontrar lugar vago, entre as suas recordações do Roberto Carlos, para uma dupla que, no seu mais carnal estado, oferece uma aula onde se desaprende o rock – fragmentando-o em doses individuais de pólvora sónica e obrigando-o subitamente a rever a tabuada do hardcore metralhado. O oráculo aponta para uns Butthole Surfers afónicos sorteados numa slot-machine onde as cerejas passaram também a ser limões.

Nem sempre cabe aos slogans arbitrar o rumo das iniciativas. A qualidade aleatória de um sonho ainda certifica alguém de que terá vivido, mesmo que à margem de uma consola de videojogos que, a bem da verdade, decide praticamente tudo por si mesma.

Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
13/07/2007