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As dez melhores canções de sempre neste preciso momento #5 - Harris Newman



Mais uma ronda pela rubrica “As melhores canções de sempre neste preciso momento” encontra o canadiano Harris Newman (Sackville, entre outros projectos, e solo) a coçar na cabeça e a confessar a dificuldade de escolher os dez melhores temas de todo o sempre. Mas porque são neste preciso momento, amanhã já poderiam ser outras. Harris Newman não esconde projectos passados em que participou e nem sequer aquilo que o fez pegar em certos instrumentos pela primeira vez. É aliás quase autobiográfica a sua selecção. Quase que dá para ver as linhas com que a música de Harris Newman se cozem. Assim, fica desde já o convite e a sugestão de actividade salta pocinhas CD, a acontecer em qualquer altura, de preferência antes de Accidents with nature and each other, o último disco de Harris Newman.

© Teresa Ribeiro

1 “Lysol”, Melvins: Acho que adormeci a ouvir este disco mais vezes do que todos os meus outros discos da minha colecção juntos. Se sobreviveres aos primeiros dez minutos de castigo, a tua recompensa são algumas das melhores versões alguma vez gravadas – o Alice Cooper nunca soou tão bem. Menção honrosa para “Dopesmoker” de Sleep.

2 “Nub”, The Jesus Lizard: Duane Dennison é a razão pela qual eu toco guitarra, e esta faixa é um dos momentos mais brilhantes, apesar de eu conseguir viver muito bem sem o solo de guitarra. Simples, eficaz, brutal. Tenho saudades desta banda.

3 “Approaching of the disco void” (Live in Tasmania), John Fahey: A razão pela qual eu toco guitarra acústica. Gravação assustadora. Uma vez li que até o próprio Fahey tinha medo desta canção. Fez-me perceber que a guitarra acústica podia ser barulhenta, rude, irritada, punk.

4 “Silver Planes”, Hrsta: Talvez isto seja mau gosto já que eu toco com esta banda agora, mas eu não tinha nada a ver com eles quando este disco foi feito. É preciso muito para eu gostar de um disco tipo cançõezinhas, mas este consegue. Inquietante e etéreo, o disco que o David Gilmour gostaria de ter feito.

5 “Hi-hat”, Phleg Camp: A minha primeira grande influencia, uma banda alimentada pelos Jesus Lizard e pelo Neil Young e que consegue de certa forma soar como ambos ao mesmo tempo. Este tema consegue ser uma colherada de country-blues, avant rock e minimalismo, e agitar tudo em algo que não sendo original soa totalmente único. Se encontrares este disco (Ya'red Fair Scratch), compra-o. Eu tenho três cópias.

6 “For the Turnstiles”, Neil Young: É mais ou menos o único senhor de canções que consegue ter consistentemente a minha atenção. A maior parte dos discos de meados de 70 são, na minha opinião, intocáveis, mas quando ele vai de uma extremidade a uma outra extremidade, é aí que eu acredito que acontece a magia. Menção honrosa para a banda sonora de Dead Man, que eu plagio sempre que posso.

7 “Rottura”, Polmo Polpo: Outra vez, um artista com quem me envolvi mas muito depois de este álbum ter sido feito. Acho que o 12" Riva/Rottura é provavelmente uma das melhores faixas de electrónica que alguma vez ouvi, mas esta canção é melhorada na sua colocação em The Science of Breath pela forma que a faixa antes dela, "Low Breathing" desagua na "Rottura". Faz-me suspender a respiração todas as vezes.

8 “Louder than a Bomb”, Public enemy: Tenho de admitir que o meu conheço sobre rap cobre cerca de cinco anos, de 89 a 94, e tudo depois disso é apenas uma grande mancha cinzenta. Mas sempre que eu ouço algo novo, tipo Jay-Z, o Kanye, etc., etc., etc., eu aprecio e percebo de onde eles vêm, mas quer dizer, vá lá gente, é quase um insulto considerar estas pessoas como operando no mesmo género como o Chuck D.

9 “Sphinx unto curious men”, Glenn Jones: Um grande, subvalorizado tocador lírico, que chega mais perto de contar contos de fadas com música instrumental do que qualquer pessoa que já ouvi. Acho que esta faixa alcança uma dimensão extra quando ele a toca ao vivo, não demora muito até que estejas a caminhar com o Glenn naquele cemitério em Bóston…

10 “A Little at a time”, Micah Blue Smaldone: Não consigo dizer quantas vezes ouvi esta canção, e mesmo assim fico com pele de galinha todas as vezes. O Micah cospe isto como se não fosse nada com ninguém, ele faz parecer tão fácil, e eles às vezes caminho bastante perto de linhas que eu não tenho a certeza se deveriam ser caminhadas (não muitas pessoas seriam capazes de se safar com a parte de falsetto nesta faixa), mas ele sabe sempre onde parar. Vi-o a tocar há algumas semanas atrás, ele fez uma versão de “The Divine Invasion” do P.G. Six que fez o tempo parar. Somos todos três minutos e meio mais novos por causa do Micah.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
16/01/2007