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1969: O ano em que o zepelim levantou vo





Dizia Frank Zappa que o jornalismo rock, ou musical, é composto por «pessoas que não sabem escrever, a entrevistar pessoas que não sabem pensar, para preparar artigos para pessoas que não sabem ler». Estaria mais ou menos certo: o jornalismo musical é – ou transformou-se – num repositório de notícias banais sobre o penteado da mais recente coqueluche da pop, num compêndio de tudo o que as ditas “celebridades” escrevem nas redes sociais, ou até mesmo num mar infindável de rumores e/ou expectativas absurdas, consumidas ad nauseam por uma população cada vez menos melómana e com cada vez menos paciência para se sentar e escutar uma canção do início ao fim (já para não falar de álbuns, esse objecto cada vez mais anacrónico).

Não é difícil ao jornalismo musical enganar-se: cria hypes que são mãos cheias de nada, perde-se em saudosismos bacocos, procura ver filosofias patetas em músicas que mais não são que uma doce e inchada pastilha elástica. Ou então cai facilmente na armadilha do bota abaixo – despreza, do alto do seu “conhecimento”, artistas que o público segue com paixão e fervor. Claro que uma crítica feroz bem escrita será sempre melhor (para os escribas, para os leitores, às vezes até para os artistas) que o bajulamento despropositado. Mas pode dar azo a erros históricos.



Os Led Zeppelin são um desses casos. Formados das cinzas dos Yardbirds, banda britânica que conseguiu juntar no mesmo palco e nos mesmos discos dois ditos deuses das guitarras – Jeff Beck e Jimmy Page –, os Zeppelin nunca caíram no goto de quem, há 50 anos atrás, escrevia sobre música (a revista Rolling Stone foi uma das vozes mais ácidas). E não caem mesmo no goto de quem escreve sobre música hoje: “são uma cópia de outros artistas”, “são altamente sobrevalorizados”, “são só uma boys band [no sentido pejorativo do termo]”, “são só um mito, mais conhecidos pelo que fizeram fora dos palcos que em cima deles”. Bem, todas essas coisas são algo verdade; mas não soam mais do que rancorosas quando colocamos Led Zeppelin, o disco de estreia, a tocar, e chocamos de imediato com “Good Times Bad Times”:

In the days of my youth, I was told what it means to be a man
And now I've reached that age, I've tried to do all those things the best I can


É difícil permanecermos indiferentes a este riff de um blues eléctrico, aliado a uma certa tonalidade mais “comercial”, propositada, de forma a chegar rapidamente às rádios, e que lhe junta um solo magnífico por volta do minuto 1:30. “Good Times Bad Times” é o cartão de visita de uma banda que procurava rasgar com o seu passado recente – os Yardbirds – e até com a própria ideia de que eram um “supergrupo”, termo que só os Cream conseguiram elevar a um estatuto superior ao de novelty (contam-se pelos dedos de uma mão os chamados “supergrupos” que conseguiram fazer algo mais que apelar aos fãs das respectivas bandas individuais dos seus membros). Soa a uma banda a querer ser autêntica, uma banda a querer de facto inscrever o seu nome nos anais da história (e conta com uma prestação de Robert Plant que nos faz perceber onde é que Jack White foi buscar a sua).



A primeira faixa de Led Zeppelin conta-nos muito, mas não é ela quem o faz enquanto álbum: há o sofrimento de “Babe I'm Gonna Leave You”, gravada por Joan Baez anos antes; há “Dazed And Confused”, que foi canção antes de ser filme; há “Communication Breakdown”, o punk antes de sequer se saber o que era punk; e há aquele final, estupendo, com a estridência de “How Many More Times”. Mas, e será justo dizê-lo, ainda não foi aqui que os Zeppelin, apesar de toda a sua vontade, começaram verdadeiramente a voar; isso estaria reservado para o seu sucessor, apropriadamente intitulado Led Zeppelin II, ao qual basta começar com “Whole Lotta Love”... Led Zeppelin foi só a ignição.

Os Led Zeppelin bateram por entre o público porque eram uma espécie de anti-status quo da altura: não eram propriamente hippies, não andavam propriamente a tomar ácidos para fazer música ao som da qual tomar ácidos, não eram, politicamente falando, revolucionários. Eram o oposto das ideologias: puro músculo e sentimento, algo que, se calhar, faltava ao rock de então, mais preocupado com libertações e comunidades; eram a porta de entrada para um mui especial sentido de indivíduo – casaco de cabedal e mota rangendo pelo deserto, longe das lutas, longe de todos, contando apenas consigo próprios, buscando o sexo suado e não a transcendência limpa. Anarchy without a cause, como os descreveu o promotor Bill Graham. Faz sentido que muitos se esqueçam que eram britânicos; a sua sonoridade pesada e sem cedências assemelha-se mais à América do Manifest Destiny – e foi por esses territórios, também, que criaram nome. Nada mal para uma banda «com um nome estúpido», como afirmou Eddie Kramer, que haveria de se tornar seu engenheiro de som mais à frente...


Paulo Ceclio
pauloandrececilio@gmail.com
12/01/2019