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The Doors: This is the end, my only friend





The killer awoke before dawn, he put his boots on. He took a face from the ancient gallery and he walked on down the hall. He went into the room where his sister lived, and then he paid a visit to his brother, and then he walked on down the hall. And he came to a door and he looked inside: "Father?", "Yes son?", "I want to kill you". "Mother? I want to..."

É difícil olhar para uma banda como os Doors assim que a adolescência passa a ser apenas uma memória e dúzias de outras coisas infinitamente mais interessantes encontram o seu espacinho nos nossos ouvidos. É um pouco como ler On The Road já depois de ter o curso feito, um emprego mais ou menos estável e fotografias tiradas para o Instagram um pouco por toda a parte. Quando se tem 14, 15, 16 anos, o livro é uma espécie de bíblia para todos aqueles que procuram a liberdade; depois disso - quando essa liberdade foi já conquistada, saindo da casa dos pais, tendo filhos, ganhando o seu próprio pão -, deixa de ser uma blueprint para passar a ser não mais que um artefacto histórico. O mesmo se passando com a "poesia" de Jim Morrison, que na verdade nunca o foi, e não será um qualquer Nobel póstumo a provar o contrário.

Ainda assim, mesmo que os rants de Morrison já não tenham o mesmo impacto na sociedade contemporânea que tiveram naquela fase pré-mainstream que o psicadelismo dos 60s atravessou, The Doors, o álbum de estreia da banda, continua imaculado a nível sonoro. Numa América à procura do seu sol, da sua paz, do seu amor, com coroas de flores na cabeça e LSD na ponta da língua, os Doors eram a outra face da moeda: a agonia de uma trip mal conseguida, a bomba que arrancava os braços a uma pequena vietnamita, o cheiro do sexo por oposição à candura da paixoneta. Não foi Apocalypse Now que transformou "The End" numa canção tão negra. Foi o seu negrume que a levou a ser utilizada no filme por Coppola.

Essa decadência consciente atravessa gerações e épocas diferentes. Chegados à "idade adulta", podemos já não querer foder as nossas próprias mães, mas queremos foder. Podemos já não querer partir à busca do mundo. Podemos ter dado espaço ao cinismo e a milhares de outros sonhos despedaçados. Mas bem lá no fundo ainda queremos chutar com violência as portas da nossa percepção - e as dos outros - numa busca por aquilo que habita o outro lado, seja este habitado por todo o tipo de monstros ou por ninfas imaginárias. Queremos fazer a revolução não deste lado da vida, mas do lado da morte: expelir Deus do seu trono e instalar o nosso próprio juízo.

Nesse sentido, haverá melhor banda-sonora que "Break On Through (To The Other Side)", que será sempre tema para revoluções, sejam elas quais forem, seja qual for o background social de cada um? O other side existe em todas as culturas e para todos os rebeldes. Um lugar melhor, um lugar diferente, longe desta e de todas as realidades. Um lugar real ou mental, sonho erguido a pólvora quente e sob uma camada de rock pesado. Não admira que Iggy Pop se tenha inspirado nos Doors e na figura de Morrison para criar os seus próprios Stooges - que acabariam por elevar esta sonoridade a volumes assustadores. Há aqui algo de místico, e podemos constatá-lo sem que seja preciso deificar Morrison ou as suas palavras (mas podemos fazê-lo com o órgão de Ray Manzarek... Devemos, aliás).

Cinquenta anos depois faça-se o teste: coloca-se o disco a rodar uma, duas, mais vezes. Mas na realidade basta uma, basta chegar ao solo de "Light My Fire" e constatar que aqui habita um quarteto rock fantástico, uma bandeira anarca voando no meio de uma América apodrecida e entorpecida. Houve melhor a partir daí? Sim, houve. Mas isso é válido em todos os cânones - e esse estatuto, pelo menos no que toca aos Doors, é mais que merecido, não obstante a romantização da morte do seu vocalista. Mas que seria o rock sem a decadência?


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
04/01/2017