As melhores canções de 2017
· 18 Jan 2018 · 00:36 ·
© Sofia Miranda

Este ano decidimos fazer as coisas um pouco diferentes no que toca às canções. A rotina do dia-a-dia tem destas coisas. Em vez de publicar listas individuais, e não há propriamente mal nenhum nisso, ousamos construir um mapa geral que represente a redacção do Bodyspace, procurar algum consenso. Primeiro somamos os votos individuais, depois limamos arestas, cortamos repetições, discutimos e debatemos e chegamos a um resultado final com as cinquenta canções que para nós mais fizeram sentido no decorrer de 2017. E há literalmente de tudo e mais alguma coisa: canções, canções-não-canções, electrónica, jazz, hinos, coisas mais ou menos estranhas. É uma espécie de compêndio de 2017. Não é definitivo, não quer ser impositivo, nem final. É só o nosso 2017 em canções.


"Never Been Gone"
A.S. Fanning
Quando aquele teclado quente entra no cenário já sabemos que vem aí coisa boa. Depois chega uma guitarra no horizonte, a reluzir lá ao fundo, e aí sabemos que estamos no sítio certo. A voz de A.S. Fanning torna tudo ainda mais claro: esta canção é sobre nós, de alguma maneira, de alguma forma. E se não é devia garantidamente ser: ninguém devia passar por esta vida sem sentir pelo menos uma única vez que uma canção versou sobre a sua existência. Sim, esta canção é mesmo uma dessas canções. André Gomes
"Reverie"
Arca
Como uma espécie de duo Aphex Twin – Chris Cunningham latino, Alejandro Ghersi e Jesse Kanda continuam a inovar na parelha grandes canções-grandes videos. Uma cover ultra-abstracta do clássico venezuelano de Simon Díaz, “Caballo Viejo”. Alejandro operático como sempre, perfeito na desconstrução, sem medo de arriscar, qual matador metade homem, metade máquina cybertaurina, personagem criada num vídeo ainda mais bizarro que a própria música. Clássico doloroso de uma alma exilada de uma Venezuela 20.18 mártir de tudo e mais um pouco. Nuno Leal
"Feels Like Heaven"
Ariel Pink
Ainda que Dedicated to Bobby Jameson tenha sido (pelo menos para aquele que escreve estas palavras) uma autêntica desilusão depois desse pedaço de céu que foi pom pom (2014), é nele que encontramos uma das melhores adições ao cancioneiro de Ariel Pink. “Feels Like Heaven”, pedacinho de algodão doce tornado canção dream pop dos anos 80 com produção deslavada e de baixa fidelidade, é mais uma recompensa pela nossa fé inabalável no talento de Ariel Pink para lapidar, mesmo nos seus piores momentos, autênticos diamantes musicais. João Morais
"Rain"
Bicep
Se nos tivessem pedido em Janeiro passado para adivinhar a origem do nosso sample favorito do ano, dificilmente teríamos apontado “Husn Hazir Hai”, canção interpretada por Lata Mangeshkar em Laila Majnu, filme indiano de 1976. Felizmente, Andy Ferguson e Matt McBriar não vêem as coisas da mesma maneira, e juntaram ao dito sample uns pozinhos de reverb, uma batida 4/4 viciante e uns sintetizadores frios. O resultado? “Rain”, peça maior de Bicep e, arriscamos a dizê-lo, um dos temas que mais estragos fizeram nas pistas de dança em 2017. João Morais
"Rollin (feat. Future & Khalid)"
Calvin Harris
Funk Wav Bounces Vol. 1 foi O disco de um Verão quente, estando recheado de canções frescas e a tresandar a areia e maresia (ou ao cloro da piscina). Mas acima de todas eleva-se esta “Rollin”, com uma série de trunfos a seu favor: a secção rítmica constante e gingona, a maravilhosa participação de Future e Khalid, a trazerem à lírica um negrume que contrasta (sem destoar) com a ligeireza de Calvin Harris, e, a colar tudo, uma linha de sintetizador ondulante e hipnótica, ideal para as noites quentes a andar de carro de vidros abertos. João Morais
"Não me confunda"
Castello Branco
Confusos ficamos nós no final da canção. Não há nada a apontar aqui; não há nada errado, nada a mudar. É “só” uma canção pop perfeita no ritmo (tão brasileiro), na melodia (tão luminosa), nos arranjos (tão certeiros). É uma de várias canções perfeitas do segundo disco do brasileiro Castello Branco mas é certamente a mais apurada de todas elas. Pode ser um passo em frente no seu som mas a alma de Serviço continua por cá, tão frágil quanto forte, tão misteriosa como transparente, sempre irresistível. André Gomes
"Deadly Valentine"
Charlotte Gainsbourg
Amor, amor para a vida. Era belo se a vida de todos assim fosse: conhecer a pessoa certa na infância, crescer ao lado dessa pessoa, venerá-la até ao fim dos dias. Dos cínicos: uma fantasia digna de contos de fadas. A quem vive assim, ao lado do primeiro e único amor: abençoada sorte; foi por ai que Charlotte concebeu esta pérola pop: “This song mixes wedding vows with an offbeat tone. I wanted to express the idea of a lifetime engagement; a couple running to church, from childhood to old age, a lifetime path”. Bem dito, e bem feito! Rafael Santos
"16 Psyche"
Chelsea Wolfe
Quando Chelsea Wolfe sofre, nós sofremos com ela. Quando canta, paramos para a escutar. Quando resvala para campos mais próximos da chama eléctrica do metal, não podemos senão sentirmo-nos assomados pela pujança que imprime às suas canções - como em Hiss Spun, o seu novo álbum, e principalmente em “16 Psyche”, tema sobre a loucura e sobre a salvação que não encontra para si, nem através de todo o sexo do mundo. The world’s bent, afinal de contas. Paulo Cecílio
"Tua Cantiga"
Chico Buarque
Num ano marcado - e muito bem - pela força do feminismo, Chico Buarque voltou aos discos e foi alvo da censura cega. "Tua Cantiga" é uma canção de amor clássica, com todos os arranjos à moda antiga e mostra uma paixão pela voz de uma personagem ficcional (masculina). A polémica deveria ter terminado quando se percebe que se trata simplesmente de uma personagem e não reflecte uma visão da sociedade do autor; e nem deveria ser necessário evocar que Chico escreveu e interpretou dezenas de canções que assumiram a perspectiva feminina, sempre com uma sensibilidade ímpar. Para lá de todo o ruído, excelente regresso de Chico Buarque às canções originais. Viva Chico! Nuno Catarino
"Apocalypse"
Cigarettes After Sex
Todo ele, o disco de estreia, é de uma candura irresistível. Não revela qualquer ambição de grandiosidade pop; o tom é o mesmo de início ao fim, os acordes limitados, a escrita revolve em torno da mesma temática – amor e corações partidos –, os refrões óbvios e orelhudos. “Apocalypse” resume a essência do álbum. “Sharing all your secrets with each other since you were kids/ Sleeping soundly with the locket that she gave you clutched in your fist”. E somos felizes assim… sonâmbulos a bailar ao som da mais doce inocência, belos tempos em que um pequeno beijo punha o coração a palpitar como um tolinho. Rafael Santos
"Sight Unseen"
Cloud Nothings
Num disco que, apesar de estupidamente bom, não deixa de ficar uns furos abaixo da urgência e agressividade das duas obras-primas que o precedem (Attack On Memory de 2012 e Here and Nowhere Else de 2014), “Sight Unseen” surge no último terço para provar Dylan Baldi não perdeu o toque. Abertura com guitarras logo a rasgar, um crescendo cheio de tensão e um grande final que nos fode um pulmão de tanto gritar o refrão que lhe dá título, esta canção é só mais uma sinal de que estamos perante uma das melhores máquinas emo/ punk deste lado dos anos 00. João Morais
"Spindrift"
Colin Stetson
Colin tem sido uma cordilheira majestosa de montanhas que têm dado a nascer rios que fluem com a força de todos os amanhãs rumo ao mar. Este Spindrift é mais um rio, um Nilo poderoso, entre turbilhões velozes e furiosos de saxofone e ocasionais tapetes mágicos de voz, que planam na nossa viagem sem nunca nos pedir bilhete, apenas que nos deixemos ir. Música jazz e ambiente numa fusão como Arte maior. Nuno Leal
"Joli Mai"
Daphni
Caribou, Manitoba, Daphni, chamem Dan Snaith o que quiserem; ele é produtor proficiente sob qualquer vestimenta, e já o é há anos – impressionantemente com poucos deslizes. Segundo álbum enquanto Daphni, independentemente de boa parte do alinhamento já ter constado do Fabriclive editado em Julho do ano passado, Joli Mai é um lugar de descoberta para o melómano que não quer perder um tema na sopa que é o longo mix. O tema selecionado para esta lista não é melhor, superior a qualquer um dos outros temas; é deep-house sensual, calorosa, noctívaga, hipnótica – que é o que este escriba mais aprecia no género house quando feito a preceito. Rafael Santos
"Solteiro"
DJ Lycox
Surgindo no final dessa autêntica viagem sónica em que embarcámos em Sonhos & Pesadelos, "Solteiro" acaba por ser a súmula de todos os talentos desfilados pelo jovem DJ Lycox no seu LP de estreia. Introspectivo, mas não ao ponto de descurar a pista de dança, e relativamente calmo, mas sem nunca esconder a tensão e a energia presentes centímetros abaixo da sua superfície, o tema assume-se como o cartão-de-visita perfeito para um disco que impressiona pela visão que apresenta e pelo futuro brilhante que promete. João Morais
"Shape Of You"
Ed Sheeran
É a melhor canção do ano. Fodam-se, haters. Paulo Cecílio
"High Street Drive By (Feat. Jesse Connelly & Ankhten Brown)"
Eyedress
Nas Filipinas a milhares de kms de uma Brooklyn fervilha uma cena R&B eletrónica bem interessante. Este Eyedress é um dos estandartes maiores, um Manila Ice que aqui muito bem acompanhado diga-se, criou um standard hiperdançável tão lo-fi quanto belo como águas turquesas do Pacífico. Nuno Leal
"Sauchiehall Withdrawal"
Golden Teacher
Reparem como ambos cabem aqui, o dance-punk e o afrobeat; e em vez de trapalhada há uma absoluta consistência. É o que poderemos chamar de hegemonia estética. Não foram os primeiros, não serão os últimos. Por agora, são eles a captarem perfeitamente – isto porque leram os livros certos de química! – a essência de gente grande de uma outra era; gigantes como Fela Kuti, Tony Allen, ESG ou Liquid Liquid, todos aconchegadinhos. O colectivo de Glasgow dedica-se à mais eficaz alquimia: pega no pó de África, recolhe a gravilha das ruas do South Bronx de inícios de 1980 e... BOOM: puro diamante! Rafael Santos
"The Human Journey In Search of Meaning"
Home
Se “Directions” foi a consagração de João Barradas junto da comunidade jazz mainstream, o projecto Home é a revelação de outra faceta. O jovem acordeonista virtuoso reuniu alguns dos mais talentosos músicos nacionais sub-30 para trabalhar um jazz mais aberto, mais próximo do rock. Esta balada, que cresce devagar, começa por se mostrar apenas com o acordeão midi, a guitarra e o baixo, depois apoiados pelo vibrafone (vibrante) de Eduardo Cardinho, abrindo-se espaço para um extraordinário solo da guitarra de Gonçalo Neto, para o grupo retomar o tema, fechado com toda a força. Belo. Nuno Catarino
"Danza darkscene"
JASSS
Tudo começa com uma máquina a operar, talvez o simular da batida de um coração. E assoma-se a melodia médio-oriental. Contacto! De imediato somos sugados para o mundo alienígena da espanhola Silvia Jiménez Alvarez. Todo o álbum de estreia, Weightless, é de um exotismo inusual; tudo soa a algo que já antes ouvimos – industrial, techno, dub, drone –, apenas rearranjado e exposto com poderoso sentido de aventura; Silvia não teve medo de experimentar. “Danza” é uma longa e incrível viagem; são nove minutos, hipnóticos, delirantes, a celebrar a vida no cosmos. Rafael Santos
"Anything Goes"
JFDR
A fragilidade de “Anything Goes” é verdadeiramente enternecedora. As suas melodias parecem retiradas de uma caixa de música: tudo se constrói a partir do silêncio e com ele. Sem exageros. O seu resultado final é a soma de pequenas coisas, pequenos sons, uma guitarra, há um teclado ali no meio, e depois a voz de Jófríður Ákadóttir, entre o sussurro e o pouco mais do que isso, sempre bela, como que a chamar-nos para dentro de casa no meio de um nevão. E depois entra tudo para dentro de um turbilhão e a canção desaparece sem deixar rasto. É magia. André Gomes
"Carbon 7"
Jlin
Podia ser a banda sonora de um famoso jogo de computador que marcou os jovens cyborgs na década de 40 no século XXIII. Afro-futurismo é uma definição que abraça generosamente esta miúda tímida que se torna um autêntico furacão glitch quando lhe dá para a música. Nesta galáxia tudo é uma viagem. Cada segundo de audição vale ouro. Música contemporânea de alta estirpe, eterna, essencial. Nuno Leal
"Where i'll find you"
Joan Shelley
Canção após canção, e disco após disco, a simplicidade de Joan Shelley continua a espantar. Ao longo dos últimos anos, a norte-americana tem sabido impor-se, sem artifícios, sem concessões e manias, como uma das maiores vozes da folk da actualidade. E esta canção tem todos os ingredientes necessários para atingir o sucesso: a guitarra-maravilha de Nathan Salzburg, a voz de Joan Shelley e uma “história” que apetece ouvir ao detalhe do início ao fim. Assim até parece fácil, não é? André Gomes
"Sideways Fall"
Joshua Abrams and Natural Information Society
A repetição faz maravilhas. A repetição faz maravilhas. A repetição faz maravilhas. A repetição faz maravilhas. Este Sideways Fall é um exemplo perfeito, mini-orquestral, madurado, sincronizado, aveludado, épico, amplamente suado. Uma viagem psicadélica de largos minutos que se recomenda que um dia seja feita ao vivo, se possível. Como se Steve Reich se tivesse juntado aos Amon Duul II. Nuno Leal
"Truth"
Kamasi Washington
O épico “The Epic” não está esquecido, mas Kamasi Washington já seguiu em frente. O enorme tema “Truth” é a despedida perfeita do disco, às voltas de uma melodia sedutora, sempre em espiral. No ano em que alguns descobriram a música hipnótica de Alice Coltrane (via Luaka Bop), o saxofone de Washington mostra que o jazz contemporâneo também se deixa levar pena hipnose. Nuno Catarino
"DNA"
Kendrick Lamar
Não estávamos à espera. Depois de um To Pimp a Butterfly (2015) intenso e pessoal, mas desprovido de instrumentais à altura do título de banger do ano, é preciso repetir: não estávamos à espera. Mas depois surgiu esta “DNA.”, primeira canção propriamente dita de DAMN. , e de repente temos o Kendrick de “Backseat Freestyle” de volta: graves a distorcer e à beira da destruição de qualquer coluna, uma batida que não deixa ninguém parado e um rapper no topo da sua forma, a cuspir versos em todas as direcções. João Morais
"City Music"
Kevin Morby
São quase sete minutos de puro encantamento. Tudo executado com uma classe tremenda. Baixo e bateria e depois chegam as guitarras, entrelaçadas e apontadas ao céu. Maravilhosa equação. Tudo pausado, tudo cuidado, tudo fácil. E depois é ouvir Kevin Morby falar da música e das suas cidades, com a locomotiva em movimento. E deixar aquelas guitarras subir à cabeça. E depois, a meio da canção, tudo se revela uma enorme celebração que estava a ser preparada para todos vocês. Celebremos então. André Gomes
"Call the Police"
LCD Soundsystem
Foi um dos “lados” do EP que marcou o regresso de James Murphy e a sua trupe volvidos anos sobre a derradeira despedida. E é um dos lados mais fascinantes – pela energia, a fúria melancólica, a nostalgia (Bowie, o intemporal “Heroes”), a Berlim punk e ébria do início de 80 a amarrotar de vez os velhos costumes. E há os desabafos costumeiros a que Murphy já nos habituou, o seu entendimento do mundo e da história, as agonias da idade – as crises e frustrações. “Your head is on fire, your hands are getting weak/ We all, we all get stupid in the heat/ You've basted your brains/ With the shatter and defeat up on the street/ And this is nowhere.” Rafael Santos
"Istian"
Lee Gamble
Lee Gamble é manhoso neste “Istian”, este que foi o primeiro avanço de Mnestic Pressure, álbum editado em Outubro pela Hyperdub: um ritmo a lembrar vagamente o drum n´bass, ou um two-step esmigalhado vezes sem conta pelos punhos de Lee, uma voz fantasmagórica, um sintonizador programado por um cientista louco, melodia abstracta, nevoenta; o que é isto exactamente? Dificilmente este tema assentará na pista de dança – os seus dois minutos e meio limitam-no só por si –, mesmo assim há um apelo irresistível à dança. A questão aqui é mesmo cerebral: a dança acontece dentro do crânio; só o cérebro se liberta e pula desenfreado. Eu gosto dessa imagem, apesar de burlesca! Rafael Santos
"XO TOUR Llif3"
Lil Uzi Vert
As mutações pelas quais o hip-hop tem passado nos últimos anos são extraordinárias - o que não quer dizer que, por vezes, essas mutações pareçam ser uma regressão em vez de evolução. Tal é o caso do trap, party music em jeito minimalista que, mais que nos fazer celebrar, só nos irrita. Como em tudo, há naturalmente excepções, como Lil Uzi Vert, que imprime ao beat trap de “XO TOUR Llif3” uma angústia adolescente e uma raiva que associaríamos mais a guitarradas. Mas não admira; ele até curte Marilyn Manson e tudo. O abismo à distância de um verso: All my friends are dead... Tudo por causa de uma mulher. Tinha que ser. Paulo Cecílio
"In Your Life"
Lord Echo
Multi-instrumentista, elemento dos The Black Seeds, Mike “Fabulous” August, operando por conta própria como Lord Echo, tem exaustivamente pensado e repensado – em coerência com o espírito da comunidade de músicos jazz de Wellington, NZ – como dar o giro à clássica matriz soul-jazz imiscuindo house-funk-dub-afro para que o novo seja brindado como vintage. No recente Harmonies há uma daquelas pérola difíceis de ignorar, seja pela maviosidade, a paixão, romantismo ou a mais doce nostalgia. “In Your Life” é soul de Marvin Gaye se ela alguma vez se tivesse cruzado com o dub de Lee “Scratch” Perry, isto nos saudosos 70… Portentoso! Rafael Santos
"Boa Companhia"
Luís Severo
Num 2017 que se revelou particularmente cinzento e difícil, esta canção foi um dos poucos raios de sol capazes de nos devolver o sorriso nos lábios e nos pôr a cantarolar que nem uns tolos a cada repetição. Um doce recheado de guitarras melosas e versos de um amor juvenil e algo incerto que já todos vivemos, "Boa Companhia" é pura perfeição pop vertida em três minutos e vinte e três segundos que passam a correr e, sem dúvida alguma, a pérola maior do assombroso registo homónimo de Luís Severo. João Morais
"The Last Ten Years"
Mark Eitzel
Naquele que é o melhor disco de Mark Eitzel nos últimos muitos anos, e o norte-americano tem belos discos nas últimas décadas, “The Last Ten Years” é muito provavelmente a sua melhor canção. Pela sua sinceridade, pela sua qualidade sónica e até pela luz. Mark Eitzel está bem consigo mesmo; pelo menos tão bem quanto lhe é possível estar. Mesmo que o ouçamos dizer aqui que passou dez anos a tentar desperdiçar meia-hora. Está tudo cabeça dele. Mark Eitzel não desperdiçou nada. E esta canção é apenas mais uma prova. André Gomes
"Tá Tranquilo, Tá Favorável"
MC Bin Laden
Certo: “Tá Tranquilo, Tá Favorável” não foi editada este ano. Mas encontrou o seu lugar, de forma absolutamente natural, no EP que Bin Laden editou para levar o seu nome até à América (não que, com esse moniker, tal fosse preciso...). Invejosos dirão que é música da favela, que é demasiado simplista, que não é música sequer. Será preferível pensar nela, e em todo o baile funk, como o punk rock para uma determinada camada da população brasileira, para ser exportado em massa e mudar a forma como se dança em todo o mundo. De forma absolutamente tranquila. Tudo a fazer o famoso sinal do Ronaldinho. Paulo Cecílio
"Afro Blue"
Melanie De Biasio
O momento mais alto de um disco repleto de momentos apaixonantes – a simplicidade, a eloquência, a intimidade. "Afro Blues" já conheceu diversas roupagens e esta, a da belga Melanie De Biasio, não é apenas mais uma a colorir outro disco de jazz, blues ou soul. A estratégia passou por despir o clássico de todos os velhos adornos, assentar a voz no centro, alguma feitiçaria em electrónica minimal para os acabamentos... E eis: uma abordagem de elevada dignidade que deixaria Mongo Santamaria intrigado e Oscar Brown radiante. Rafael Santos
"Strobe"
MHYSA
Click, click, click, esta miúda motherfada rainha lo-fi de um certo grime continua a surpreender tudo e todos com a fantasia etérea dos seus temas. A um nível Uberetéreo acrescento, qual Obélix caído no caldeirão do Narcos, este tema tem o poder de por tudo a dançar como se o rabo fosse um balão gigante a encher-se de hélio à medida do sonho. Verdade. Estava lá e vi. Nuno Leal
"T-Shirt"
Migos
Bastou um shout out de Childish Gambino para que os Migos se transformassem num fenómeno. Só assim o poderia ser; mesmo que o flow, por vezes, nos irrite sobremaneira, a qualidade dos instrumentais mais do que justifica a sua inclusão em qualquer lista de artistas a seguir com carinho. No fantástico Culture encontramos “Bad And Boujee”, mas “T-Shirt” consegue elevar-se muito mais que esse êxito - beat arrastado e narcótico, vozes embriagadas é uma cadência que não se sobrepõe ao ritmo: melhora-o. Falta muito para Culture 2? Paulo Cecílio
"1 Night (feat. Charli XCX) "
Mura Masa
Quando juntamos um dos mais promissores talentos da produção britânica a despontar em 2017 com uma das nossas maiores paixonetas da pop irreverente cantada no feminino, o resultado só poderia ser este: "1 Night", uma canção de paixões fugazes e, como o próprio título indica, de uma só noite, que nos puxa com o seu ritmo infeccioso e os seus steel drums a cheirar a calypso e nos prende a cada repetição. Se querem banda sonora do roça-roça que não suja a roupa de azeite, não encontrarão melhor que isto. João Morais
"Broken Star"
Nadine Khouri
O título faz todo sentido: esta é uma canção dos astros. É uma canção que brilha. E é uma canção brilhante. A voz de Nadine Khouri é, ela mesma, um planeta. A única parte que não faz sentido neste título é a parte “Broken”. Nem a canção tem danos aparentes, nem Nadine Khouri é menos do que uma estrela em ascensão. A produção de John Parish é, claro está, imaculada. Não há nada fora do sítio. Nem uma guitarra, nem uma sílaba, nem um tom. Os sonhos também são feitos disto – com alguma sorte. André Gomes
"Cachupa"
Pega Monstro
As irmãs Maria e Júlia Reis não falham e ao terceiro disco deixam mais um marco inesquecível para a história do rock português. Agora produção é mais limpa e a música parece ser mais ambiciosa, entre a promessa enérgica de “Partir a Loiça” e o terno “Fado da Estrela d’Ouro”. A cereja chega na “Cachupa”, canção em três partes, tríptico que arranca com uma entrada abrasiva (“Dei-te milho p’ra cachupa / nem quiseste descascar”), mas evolui para fechar com a declamação de um poema de Fernando Pessoa, “O moinho do café”. Nuno Catarino
"Mercury"
Planetarium
Sufjan Stevens, Bryce Dessner, Nico Muhly, James McAlister: super equipa Planetarium; projecto de olhos postos no cosmos, nos planetas do nosso sistema solar, nas mitologias da antiguidade. E porque passaram eles tanto tempo de olhos postos nas estrelas? Sufjan explicou-o no All Songs Considered da NPR: “Life is so abundant here, and yet we’re so obsessed with the exterior of here. That’s what’s so interesting, there’s a sort of beautiful, perfect order to life on earth that’s so mysterious and so profound. And yet, as people, we really fuck it up. We’re so dysfunctional”. Essencialmente com Nico Muhly ao piano, a voz de Sufjan, uma canção poderosa que põe o comum mortal em busca de uma divindade que explique tudo, TUDO! Rafael Santos
"Rita"
Primeira Dama
Alguns dirão que a inclusão deste tema se deveu a outros motivos, mas não: é porque é realmente boa. Enquanto Primeira Dama, Manel Lourenço tem sido um dos estertores da nova canção portuguesa, juntamente com o parça Luís Severo, e tem no seu álbum homónimo um belíssimo conjunto delas. “Rita”, logo a abrir, com o teclado em altas e versos que não precisam de ser muito floreados para que mostremos o nosso carinho por todas as Ritas do mundo, é o expoente máximo de um disco que só nos deixa água na boca para o próximo. Paulo Cecílio
"My Foolish Heart"
Ralph Towner
Nas “liner notes” do disco o guitarrista (e multi-instrumentista) Ralph Towner confessa que se apaixonou pelo tema “My Foolish Heart” ao ouvir a versão do trio de Bill Evans com Scott LaFaro e Paul Motian e que essa foi mesmo uma inspiração para o seu percurso pessoal na música. Em homenagem a essa inspiração, Towner regressa ao tema e interpreta o clássico a solo. A sua revisão com guitarra clássica é reverencial, respeita todos os cantos da melodia deliciosa, mas não deixa de incluir o seu subtil toque pessoal. Nuno Catarino
"Weaver"
Richard Dawson
Sir Richard, quem sabe, um dia, provavelmente não. Este Ricardo Coração de Leão Folk não quer fama, vender discos, embora tenha feito decididamente alguns dos seus maiores clássicos melódicos para futuros concertos. Temas orelhudos não faltam no seu Peasant, embora peque (e ainda bem) por tornar tudo sempre mais complexo do que algo orelhudo deverá ser. Melodia e as letras brilhantes, num desenrolar-voltar-a-enrolar de um novelo psicadélico de lãs de muitas cores. Nuno Leal
"Amar Pelos Dois"
Salvador Sobral
Era impossível não estar aqui a canção que, após décadas de esperanças vãs para quem liga a festivais da Eurovisão, concretizou o SONHO, o MILAGRE. Sem azeite e com a pimenta de muita gente não acreditar que o pudesse fazer, porque não tinha muito a ver com o actual género de temas que ouvem por lá. Há uns 30 anos sim, talvez, achavam. Agora a Eurovisão já era só de boys e girls bands. Enganaram-se todos. E a música é mesmo uma pequena e simpatica joia criada por dois irmãos fraternos que será justificadamente eterna. Nuno Leal
"Mirage Saloon Zone Act 2 ~ Rogues Gallery"
Tee Lopes
Que audácia leva alguém a inserir um tema escrito de propósito para um videojogo numa lista de melhores canções do ano? A de quem tem a certeza de que o trabalho realizado pelo português Tiago Lopes na última aventura do ouriço mais azul do mundo, Sonic Mania, em nada fica atrás das grandes produções pop de estúdio ou dos rasgos lo-fi de milhares de putos nos seus quartos. Nostalgia? Nada disso; nada mais que presente. O primeiro a passar isto num DJ set ganha um fino. Paulo Cecílio
"93 Me and Fred and Dave and Ted"
The Magnetic Fields
Não é fácil escolher apenas uma canção do mega-épico “50 Song Memoir”, a autobiografia de Stephin Merritt em forma de canções. Podemos ficar com "'93 Me and Fred and Dave and Ted", canção simples que relata a história de quatro amigos, também amantes, filtrada com o seu típico humor e ironia. “We were young and vaguely in love / and who needed money or drugs?” Nuno Catarino
"Guilty Party"
The National
Instituição indie por excelência, os The National são como um produto de fabrico alemão que nunca falha, especialmente no que toca a canções que ardem em lume brando. Conduzida por um piano triste, engrossada pela bateria meio apressada, com uma linha de guitarra triste e rodopiante ali pelo meio e com Matt Berninger a versar, naquele seu jeito terno, sobre a dissolução de um casamento que há muito perdeu a chama da paixão, “Guilty Party” traz-nos os norte-americanos a serem tristes como só eles podem, numa perfeição que só eles conseguem. João Morais
"Pouco e Pouco"
Tim Bernardes
A jóia perfeita da globalização. Aqui só imagino que esta é a canção perfeita que Arto Lindsay procura há décadas. Um clássico à partida norte-americano, folk até ao tutano, com arranjos dissonantes ao nível de Van Dyke Parks e uma letra no melhor pronúncia brasileira, parte de um conjunto de palavras de um álbum que transcende o poético. Pouco a pouco eu vou me conhecer melhor. Porque se quem sabe eu aceitar, Quem eu sou sem censurar, Toda a minha parte má, Poderia até te dar amor. E aquele final, carrossel, violinos, pianinho. George Martin do best, pós-Beatles, palavra-passe: Stackridge. Brilhante. Para ouvir até ao fim e logo recomeçar. Nuno Leal
"Far From Over"
Vijay Iyer
"As the arc of history lurches forward and backward, the fact remains: local and global struggles for equality, justice, and basic human rights are far from over. We hope that our music both reflects this truth and offers a useful residuum that might outlast it." A música fica mesmo, pela energia e criatividade de um supergrupo liderado pelo piano de Vijay Iyer: Steve Lehman, Mark Shim, Graham Haynes, Stephan Crump e Tyshawn Sorey. Música grandiosa, jazz do presente com respeito pelo passado, com noção da história e do contexto social. Nuno Catarino
"Love Is Love"
Woods
Os Woods não sabem fazem canções más. Ponto. Nos últimos anos, têm sido deles os maiores rasgos de genialidade psicadélica, sem sequer precisarem de se refugiar no krautrock, fazendo antes da folk e da flanela a base para temas que nos transportam para enormes prados verdejantes, onde o sol se põe com a candura de um beijo. É amor. Os Woods são amor. Paulo Cecílio

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