As melhores canções de 2016
· 12 Jan 2017 · 09:56 ·
© Sofia Miranda

Como se explica a devoção que se pode nutrir por uma canção? Como se explica a familiaridade e a viciação? Como sobrevive uma canção ao tempo? Quais os seus significados? Corta. Melhor nem ir por aí. Mesmo. Escolher as melhores canções do ano já é complicado quando baste – e não queremos mesmo transformar isto num exercício de semiótica. São ao todo 60 canções diferentes, lavrando um território muito distinto - porque uma “canção” – com aspas - pode ser uma coisa muito diferente entre si. Uma canção pode ser um longo instrumental de 10 minutos ou uma curta explanação que siga todos os cânones e regras da música pop. E podem viver todas em paz e tranquilidade. Olhamos para 2016 e escolhemos aquelas que são para nós as canções que mais impressionaram nos seus doze meses. E não é coisa pouca.


André Gomes
1
"Blackened Cities"
Melanie De Biasio
Chamar “Blackened Cities” de canção tem dois problemas: o primeiro é que esta tem 24 minutos, o segundo é que é um disco inteiro. Mas é uma canção, acima de tudo. E é muito mais do que uma canção: nos seus 24 minutos, a belga Melanie de Biasio constrói uma sinfonia perfeita que mistura jazz, minimalismo, pós-rock e tudo aquilo que possa juntar-se no caminho. É um sítio notável este que todos estes músicos construíram; um sítio de uma beleza desarmante, de um encanto irresistível. QQue viagem, senhoras e senhores, que viagem.
2
"Lazarus"
David Bowie
Entre “Blackstar” e “Lazarus”, a escolha é difícil. Habita em ambas o mesmo mundo de melancolia e despedida. Mas “Lazarus”, até pela sua capacidade de síntese, levou a melhor. É impossível apreciar hoje Blackstar, o disco, sem saber que é uma mensagem de adeus. E isso torna tudo mais intenso, mais significante, mais urgente. David Bowie encenou a sua morte e fê-lo com a classe que está ao alcance de quase nenhuns. Aquele saxofone é a melhor melodia fúnebre que alguma vez conhecemos.
3
"Moving On"
Roosevelt
Aquele início gingão diz imediatamente tudo. Aquele baixo, aquela melodia, aquele saber estar, aquela classe. No disco de estreia de Roosevelt, Marius Lauber conseguiu alguns sucessos mas nenhum sequer parecido com este. “Moving on” é, nos seus 4 minutos e 43 segundos, puro luxo. É a prova que entre os homens e as máquinas os homens podem sempre levar a melhor. “Moving on” é como uma espécie de droga, um vício incontrolável. Esta canção é do mesmo material do que os sonhos são feitos.
4
"Farthest Distance (Iris)"
Hannah Epperson
Primeiro chega o violino tocado em pizzicato, depois com o arco. E depois chega a voz de Hannah Epperson, pura como a neve, um sopro delicado de beleza e encantamento. E depois há um feitiço natural, instantâneo. Iniciam-se os loops com melodias que já desenvolvemos certamente na nossa imaginação. E aí sabemos que esta canção é para todos nós. E se tudo isto não chegasse, as quatro vezes que aquelas vozes cantam, já bem perto do final, a frase “I can’t even find silence in the wasteland”, levam tudo para outra dimensão.
5
"The Community Of Hope"
PJ Harvey
Polly Jean Harvey está numa forma incrível. Talvez a melhor forma da sua vida, se vocês acham que as suas canções são agora ainda mais interessantes do que no início da sua carreira. “The Community Of Hope” soa luminosa mas é puro engano: as suas letras falam sobre o projecto HOPE VI, nos Estados Unidos, que levou à demolição de habitação social em bairros com elevada criminalidade. PJ Harvey mudou o foco das suas canções, mudou inclusive a sua envolvência sonora e, na verdade, nunca soou melhor.
6
"Drunk and On a Star"
Kevin Morby
Havia muito por onde escolher no novo disco de Kevin Morby. Podia ser “Dorothy” ou “I Have Been To The Mountain”, poderia ser até “Singing Saw”, mas é “Drunk and On a Star”. E é-o sobretudo por uma montanha de pequenos detalhes: aquele baixo quase invisível, o manto de cordas em suspenso, aquela voz – aquela voz! . Tem meia dúzia de meses mas, sem qualquer tipo de exagero, é já um clássico. É um clássico antes de o ser. E é a prova – apenas uma – da relevância que Kevin Morby teve em 2016.
7
"Wanted 2 Say"
Samaris
A melodia chega primeiro mas é aquela batida hermeticamente desenhada que conduz a canção do seu início até ao fim. Ainda que a grande estrela da canção seja a voz purificadora de Jófríður Ákadóttir, uma das mais “revelações” de 2016. A canção sugere um certo mistério, uma certa sensualidade e mais um par de coisas não identificáveis. E fica no ar uma certa confusão, uma certa incapacidade de perceber a sua real intenção, o que lhe dá um charme ainda maior. É uma canção para dançar que não dá bem para dançar. Só se for sozinho. No escuro.
8
"Breadandbutter"
El Perro Del Mar
“Breadandbutter” é muito provavelmente a canção mais irresistível de um disco em si bastante sedutor. No seu novo disco, Sarah Assbring trouxe a pop mas juntou-lhe alguns ingredientes imprevistos: instrumentos asiáticos e a musicalidade própria do continente. E esta canção soa mesmo assim: ao encontro entre a pop e a música asiática com uma sonoridade tradicional. E soa gloriosamente bem.
9
"Pipe Dreams"
Nelly Furtado
Chegou tarde mas chegou em estilo. Mas não aquele estilo que conheciamos. Nelly Furtado não é a mesma. "Promiscuous", "Maneater" ou "Say it right" parecem agora canções de outra artista qualquer. “Pipe Dreams”, lo fi à sua maneira, com um vídeo a dar a mesma ideia, tudo estreado na Pitchfork, é Nelly Furtado a procurar reinventar-se. E a conseguir. Se as canções se seguem estão a este nível, ninguém sabe, mas esta chegou mesmo a tempo de impressionar.
10
"Ran Ran Run"
Pavo Pavo
Pode ser um lugar-comum – é-o certamente - mas “Ran Ran Run”, a canção que abre o disco de estreia dos norte-americanos, é feita de sonhos. E em duas velocidades: tanto é doce e pausada como logo a seguir aumenta o ritmo para ser mais pop e quase dançável. Apesar do detalhe da construção e do bom gosto dos materiais, “Ran Ran Run” é uma canção de uso fácil: ideal para dias de Verão, piqueniques e caminhadas no parque. Para usar com moderação; pode causar – e o mais certo é que cause mesmo - vício.

Fernando Gonçalves
1
"Nagmani ft André Barros"
First Breath After Coma
“Nagmani” acompanhada pelo piano de André Barros é a personificação do mito, são os doze trabalhos de Hércules musicados, uma epopeia heróica percorrida em quatro minutos e cinquenta e cinco segundos de exaltação que nos atravessam e nos ficam a martelar na parte mais profunda do ser. Piano, metais, bateria sobre um tempero generoso de electrónica e guitarras apontam o caminho do topo da montanha, uma montanha onde podemos chorar, rir, odiar ou simplesmente amar, porque esta “Nagmani” é absoluta, absolutamente vida. A música do ano para o disco do ano. Uma fissura ontológica no Ser da música portuguesa.
2
"Reynir"
André Barros ft Myrra Rós
O homem do piano em “Nagmani” do fenomenal Drifter dos First Breath After Coma assina, com a colaboração da islandesa Myrra Ros, uma das mais frágeis e tocantes peças de música que este rectângulo escutou este ano. Um piano de poesia enlevado pela voz élfica de Rós que rompe, serena mas decididamente, sentidos adentro.
3
"Fortitude"
The Baltic
Não veio do frio Árctico (referência a uma ficcional vila Noruega perdida no Norte que virou série das boas) mas bem podia ser essa a sua casa. “Fortitude”, malhão extraído ao novo e multifacetado Archipelago dos norte-americanos The Baltic, é música para noites de aurora boreal regadas a shoegaze e dream rock. Dream rock “lambão” que apetece pôr em loop até que lá fora as águas de Março anunciem a Primavera.
4
"Flight From the City"
Johann Johannsson
A que soaria uma valsa composta na contemporaneidade? Uma pergunta a que o compositor islandês parece dar resposta em “Flight From The City”. Retirado ao novo Orphee, este tema/valsa/tragédia parece ter saído da lira do mitológico Orfeu. Música que vai aos confins do “mundo inferior” tentar salvar Eurídice e quase consegue das mãos de Hades. Este “Flight From The City” poderá, tal como Orfeu, salvar uma vida, mas alcança o Olimpo e mantém a esperança.
5
"Daydreaming"
Radiohead
Das poucas bandas, senão a única, de quem se pode dizer que a espera, em relação a um novo disco é, de facto, “um arame”. Este, The Moon Shaped Pool, acabou por não corresponder às expectativas criadas (um álbum menos bom de Thom Yorke e companhia acaba sempre por ser melhor do que o melhor de muitas discografias), pelo menos na opinião deste escriba. Dessa amálgama de disco, quase lado B de qualquer coisa, alguns temas acabam por ficar para a posterioridade. “Daydreaming” é um deles. Frágil, como a condição emocional de Yorke aquando da feitura do disco, este tema navega e faz navegar pelos pesarosos silêncios da alma humana, de profundis valsa lenta.
6
"Holy Grounds"
Gangly
No início o mistério. Começaram na sombra e da sombra fizeram a marca identitária. Hoje, já perfeitamente identificados, lançaram durante 2016 dois singles. “Holy Grounds” foi o primeiro deles. Atmosfera magmática e misteriosa, “Holy Grounds” abre o caminho da sua sonoridade através de texturas trip-hop, a fazer lembrar os melhores anos dos Massive Attack, enredadas em vozes tão suaves quanto cativantes. Profanar solo sagrado nunca soube tão bem.
7
"I Have Been To The Mountain"
Kevin Morby
Legenda do que seria o momento em que Zaratustra descia da montanha no clássico de Nietzsche, “I Have Been To The Mountain” segue segura com a certeza que ninguém a sustém. Bem, quase ninguém. Só Morby, pois dela é pai e o percurso que a construiu é seu, percurso denso e profundo a que ninguém fica indiferente, o faz segurar neste tema que da magnífica linha de baixo faz a sua força motriz. Apenas mais uma nota para o vídeo desta música: absolutamente sublime.
8
"Make The Operator More Productive"
Khompa
Pois é, assim se vai fazendo História na Música. Sem voz, mas com um pulmão incrível, Davide Compagnoni aka Khompa recriou a bateria. Retirado a The Shape Of Drums To Come, “Make The Operator More Productive” é um dos baluartes desta orquestra de um homem a sós com a sua bateria. Rock, drum, tecno e uma bateria que os congrega debaixo da “pele” são o pano de fundo que ajudam a construir uma ritmada, quase óbvio, e melódica, não tão óbvio, “Make The Operator…”, a música do séx XXII.
9
"Shampoom"
Sensible Soccers
Cada vez mais seguros de si, os Sensible Soccers voltaram á carga este ano com Villa Soledade. álbum que no seu ventre carrega esta bela peça de filigrana electrónica denominada “Shampoom”. Nove minutos e quarenta e cinco segundos para pôr a mente a dançar (IDM não EDM) num fio tempo espacial coerente e absorvente. Claramente a melhor música do álbum e uma das melhores do ano.
10
"Big Pulse Waves"
Whales
Leiria e a sua Omnichord Records, uma vez mais, a trabalharem para o bem comum. Dos múltiplos nascimentos sonoros ocorridos na cidade do Lis, os Whales e a sua “Big Pulse Waves” foram um do que mais se destacaram. Desempoeirada e impregnada de dinamismo desinibido, “Big Pulse Waves” é uma pérola do indie-rock cujo único senão é ainda não ter irmãs. Não se apressem mas também não se demorem, a mala espera um álbum asap.

Nuno Catarino
1
"O Mundo é um Moinho"
Gisela João
Já toda a gente deve saber que Cartola compôs temas belos e imortais, mas esta música é mesmo das coisas mais tristes de toda a história da humanidade. E consegue ser ainda mais triste naquele documentário em que ele a canta para o pai. Para o seu segundo disco, Gisela João conseguiu fazer uma adaptação sóbria e sentida, sem nunca perder o eixo sentimental da canção, aquela tristeza infinita que tem tanto em comum com o fado (e igualmente meritória é a revisão fadista de “As Rosas Não Falam”).
2
"Because I’m Me"
The Avalanches
No ano 2000, naquela época ingénua em que éramos facilmente seduzidos por qualquer proposta de electrónica suave, o disco Since I Left You dos The Avalanches tornou-se rapidamente um fenómeno consensual. A expectativa era grande para o segundo disco, o regresso da banda muitos (demasiados) anos depois. E, se o primeiro single “Frank Sinatra” soava fácil mas algo enjoativo, já a canção “Because I’m Me” conseguiu conquistar sem reservas. Naquela toada de hip-hop nostálgico banhado a soul, a canção é irresistível e o respectivo vídeo é igualmente delicioso.
3
"The Heart is a Lonely Hunter"
João Hasselberg & Pedro Branco
O livro The Heart is a Lonely Hunter, de Carson McCullers, conta a história de John Singer, um surdo-mudo que vai estabelecendo amizade com novos vizinhos, no estado americano da Georgia nos anos 30. No seu disco assinado em parceria com o guitarrista Pedro Branco, o contrabaixista João Hasselberg apresenta uma composição que reflecte o estado de espírito melancólico do livro. Sem palavras, o sentimento é expresso pela melodia repetida, ainda reforçado pelas guitarras entrelaçadas de Pedro Branco e Afonso Pais.
4
"No Woman "
Whitney
Nem estava prevista aquela paragem mas, embalados na correria do Mexefest, lá fomos ao Tivoli. Quando lá chegamos já o concerto ia a meio, aproximando-se perigosamente do fim. Tivemos sorte, ainda havia lugares, meia dúzia, naquelas laterais, lá em cima de tudo. Deu para ver aquela parte final do concerto e ficámos imediatamente rendidos. Aquela voz aguda poderia ser irritante, mas o fundo instrumental e as voltas da melodia compensam. Há um fundo folk, guitarra, depois cordas e sopros (quase à lá Beirut). “I left drinking on the city train / to spend some time on the road”, canta Julien Ehrlich. Que regressem rapidamente à estrada e voltem depressa.
5
"Maria da Vila Matilde "
Elza Soares
Se a história de vida de Elza Soares já justificava curiosidade sobre o disco A Mulher do Fim do Mundo, a energia da sua música nova – auxiliada por um grupo de músicos mais novos - mostrou que a curiosidade era justificada. Um dos grandes temas é esta “Maria da Vila Matilde”, um verdadeiro hino anti-violência doméstica, relatado na primeira pessoa, de forma simples: “você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Na sua recente actuação no Coliseu dos Recreios a diva Elza Soares não só interpretou a canção de forma irrepreensível e enérgica, como ainda lançou, no fim da música: “Chega de sofrer calada, tem de gritar. Gemer só de prazer! Por favor, denuncie”.
6
"Vincent"
Car Seat Headrest
Se antes já se tinham iam escutando alguns temas aleatórios por aí, foi com a actuação de Car Seat Headrest no Primavera Sound (o do Porto, o da NOS) que chegou a consagração. Naquela tenda secundária ouviu-se aquele rock sequinho pleno de tensão emocional e eficácia acima da média. Mais tarde a audição dos discos Teens of Style e Teens of Denial confirmou a impressão deixada pelo concerto. “Vincent” é uma das canções mais memoráveis, com aquele crescendo de raiva juvenil: “they got a portrait by Van Gogh / on the Wikipedia page / for clinical depression / well, it helps to describe it”.
7
"Bolissol"
Sensible Soccers
Ao seu segundo disco “a sério” os Sensible Soccers passaram a trio. O grupo de Filipe Azevedo, Hugo Alfredo Gomes e Manuel Justo apresentou em “Villa Soledade” uma música fresca, espécie de post-rock descontraído, com pozinhos de electrónica e psicadélica. A veraneante “Bolissol” não é apenas um bom single de apresentação do disco, como acumula a função de música do genérico do programa “PBX” de Inês Meneses e Pedro Mexia. E cumpre, em óptimo nível, em ambas as situações.
8
"É preciso que eu diminua"
Samuel Úria
Samuel Úria diz-nos sabiamente que carga de ombro é legal (e, já agora, a bola na mão também, dependendo das circunstâncias, cf. página 82). Dentro desse belo disco encontra-se esta cantiga sobre o gigantismo e a dificuldade em lidar como mesmo. Por cima de um ritmo que soa a trote de cavalo, Úria faz desfilar uma letra deliciosa, alimentando um songbook que começa a fazer inveja.
9
"Dorothy"
Kevin Morby
Quando terminou o seu concerto na estação do Rossio, um grupo alargado de miúdas bastante jovens (“barely legal”, diriam os The Strokes) aproximou-se das grades na expectativa de conviver de forma próxima com o artista chamado Kevin Morby. O motivo para o entusiasmo juvenil? Um disco sólido chamado Singing Saw. Canções como esta “Dorothy”. A melodia que vai se desenrolando em círculos. Aquela eficácia pop. E aquelas letras que vão directas ao colo. “Hold my head, oh, and babe you know I'll cry”.
10
"Morro na Praia"
Capitão Fausto
Percebemos que neste último disco os Capitão Fausto conseguiram alcançar o seu ponto de rebuçado. “Morro na Praia” é um dos melhores exemplos, onde se combina uma letra simples sobre a entrada na idade adulta com uma música que segue a tradição faustiana, arranjos certinhos. Um pormenor delicioso: ali pelo meio, aos 57 segundos, aquela quebra, aqueles quatro segundos antes do “lalala” do refrão. Quebra a toada dos versos introdutórios, dá uma faísca, lança o refrão. E lembra a música dos Caravan, evoca a magia psicadélica da cena de Canterbury. Impecável.

Nuno Leal
1
"Blackstar"
David Bowie
1973. Alguém, algures disse a um amigo: o Bowie vai ter um disco do ano em 2016. Não sei se houve essa conversa, soa a ficção científica porque agora vivemos nestes números incríveis (pelo menos para quem nasceu em setentas do século passado), mas a verdade é que aconteceu. Todos o presenciámos. Este foi um dos anos de Bowie para o bem e para o mal. E o mal foi ter-nos deixado tão cedo. Mas deixou-nos também uma canção letal à primeira audição, acrescida de coincidência post-mortem que pela letra já não soa a acaso, soa a despedida, ele sabia. A sua riqueza sonora é como ouvir o nosso nome num testamento à beira da fortuna. O legado de poder ouvir Bowie para sempre, pelo menos até à nossa própria m
2
"A Single Hope"
Ian William Craig
Primeiro mergulha-se. Até ao fundo da piscina Fennesziana atrás do rádio onde lá no fundo se ouve uma FM qualquer de há décadas. E de repente, quando começa a faltar-nos o ar, surge, e ninguém me tira esta ideia, uma canção de Beach House do seu esquecido primeiro disco, com a voz da Victoria numa velocidade mais lenta, tão lenta que parece um homem: eis o Ian. Nessa sombra, sem ar, roxos, começamos a ver a luz do sol lá na superfície. E desatamos a subir devagarinho na esperança de ainda respirar.
3
"Female Vampire"
Jenny Hval
Hvalium sonoro. Não resisto à brincadeira com o nome da norueguesa que parece a caminho de algo cada vez maior a cada disco que lança. Canção poderosíssima, fantasma motorika etéreo num mundo Evax, capaz de fazer dançar pés de chumbo que de repente parecem balões cheios de hélio. Ui.
4
"Missoula"
Tasseomancy
Lena Platonos decide uma vez por todas fazer covers de Kate Bush. Algures no Canadá gelado mas sempre a ferver de ideias. Vencedor antecipado do Festival da Neurovisão 2016, sobretudo com os últimos 12 pontos dados pelo júri de Etérea. Tema membro do talvez melhor disco esquecido do ano: Do Easy. Se calhar até era a “29 Palms” do mesmo disco que deveria estar aqui. Era mais que justo. Mas assim também é.
5
"Augustine"
Blood Orange
No ano que Prince nos deixa, outro toma o seu lugar cada vez mais, com as devidas distâncias temporais e musicais. E um aroma extra a Terence Trent D’Arby, não necessariamente redutor. Devonté Hynes continua a dar-nos maravilhosos álbuns pop e por consequência canções como esta. Aquela quebra antes da explosão final, os segundos antes e durante, é algo assombrosamente soberbo. Nontetha, quem és tu?
6
"When It Rain"
Danny Brown
Pode até nem ser a melhor do disco-voador ao qual faz parte, mas pegou-me de caras. Hip hop psicadélico bitches? Se alguma vez alguém vos perguntar se há, claro que há, olha cá vai disto, tomem lá. Isto tem de sobremaneira lisérgica e estimulada os nervos todos à flor da pele, negra, mas não tão negra como a alma. E essa está-se a cagar se és branco, amarelo ou transparente. Dança mazé. O que conta é o espírito do túnel de luz intermitente à saída (não recomendo)(claro que recomendo)(às vezes).
7
"parte IV"
Black Bombaim & Peter Brotzmann
Parte IV? Partem tudo isso sim. O mestre Brotzmann a bordo da primeira nave espacial portuguesa que chegou a Marte. Vielen danke Peter, agora és parte de um dos melhores discos da história nacional. Para quem gosta de viajar em primeira classe. Esta analogia não funciona? OK, então furacão, tornado, ciclone, a onda da Nazaré a cair-te em cima no duche. Deixa-te ir.
8
"You Want It Darker"
Leonard Cohen
Sobre o título: se calhar queremos, no fundo, não sei. O mundo vibra com a morte mediática, verdade, e este cidadão canadiano teve-a, não pela surpresa (já era idoso) mas porque o julgávamos imortal. Mesmo. Foi alguém que na sua humildade ainda elogiou em vida a injustica poética que foi o Nobel para Dylan, quando a haver um laureado em Literatura, entre poetas músicos, seria necessariamente Leonard. Que até tem mesmo grandes livros escritos (ao contrário do Dylan que escreveu grandes canções mas só fez cocó em livro). Mas voltando à morte e à música, eis o testamento vital de um dos maiores fabricantes de canções de sempre. So Long, Leonard.
9
"Ultimate Care Excerpt Nine"
Matmos
Eu nem era muito fã de Matmos. Não era. Para não fazer só publicidade à máquina de lavar Whirlpool usada nesta obra de arte musical, esta música vai além da MieleAEGAristonBalaySiemensBosch. Um dia os robots controlarão os humanos mas por agora é a Humanidade que manda. A máquina do tempo algures entre o manifesto futurista e o nosso ido ano de 2016. Repito: Arte. Melodia centrifugada ao segundo, uma limpeza cerebral de nódoas de fritos e afins. Sai tudo.
10
"Pope is a Rockstar"
Sales
Na Era de Francisco isto não é verdade? O Papa argentino não é uma espécie de estrela rock, onde quer que vá? A teologia e a hierarquia pode até nem ser chamada à semiótica desta canção, mas ela tem algo de sagrado, a voz de Lauren é um eco num santuário nos nossos ouvidos em plena missa da simplicidade. Se calhar nem deveria estar aqui numa lista de um ano, mas passei o ano inteiro a ouvi-la. Mea culpa. Ámen.

Paulo Cecílio
1
"In Silico"
Pop. 1280
Cyberpunk, futurismo, fúria rock num só tema. Pancadaria da grossa, violência gratuita, guitarras e música industrial, electrónica opressiva em sete minutos. Os Pop. 1280, que tiveram em Paradise um dos álbuns mais subvalorizados do ano, superaram o soco no estômago que era "Bodies In The Dunes", ainda no primeiro disco, com uma das canções mais brutas do rock actual. Repitam connosco, nesta era da (des)informação, nesta era em que o Facebook e o Twitter ganham eleições e fazem revoluções, neste futuro próximo em que voltaremos a ter bem junto de nós o espírito da guerra, do holocausto e da pobreza: I dream in infrared. I dream in infrared. I dream in infrared. I dream in infrared. I dream in infrared. I dream in infrared.
2
"Doubt (Groundwork)"
Tundra Fault
Já o tínhamos escrito aquando da crítica ao EP: «"Doubt (Groundwork)" é o tema mais bonito do ano. Primeiro é a chuva que cai, gerando uma atmosfera noir pungente e insidiosa. Depois é aquela melodia, repetida como um lamento, que transforma a água num lacrimejar. E depois são as vozes, infantis ou infantilizadas, assustadoras como num carrossel dos Current 93, antes de tudo se transformar em noise quando já estamos perto do fim do filme. Magnífico». E, posto isto, que mais há a dizer? É ipso facto a coisa mais bonita, mais atmosférica, mais cinematográfica, que iremos ouvir em 2016. E até dá para a misturar com poemas de Herberto Hélder ou outro autor grandioso. Alguns tentaram-no na festa do Colectivo Casa Amarela, pelo menos.
3
"Girl In Amber"
Nick Cave & The Bad Seeds
Skeleton Tree é um álbum carregado de uma dor que ninguém quer, ou imagina, vir a viver. É um álbum que exporta a sua dor para o coração do ouvinte, que por simbiose o faz temer, que nos coloca no papel do Homem que perdeu uma boa parte da sua vida - no caso, um filho, mas poderia ser outro ente próximo, um amante ou uma amante, ou um amigo de longa data. Uma dor que não parece vir a ter cura nem com a passagem inexorável do tempo. Nem permite espaço à esperança. Num álbum todo ele pungente, destaca-se o choro compulsivo de - e provocado por - "Girl In Amber". Adaptável a todas as situações de miséria existencial, mesmo que a referência a "um rapaz de olhos azuis" não passe despercebida. Tragédia assoladora em menos de cinco minutos.
4
"Am I Wrong (feat. ScHoolboy Q)"
Anderson .Paak
Se não cair na tentação de aguar o whiskey delicioso que compõe o seu segundo álbum de estúdio, Malibu, Anderson .Paak pode muito bem vir a ser um dos grandes nomes da pop desta segunda metade da década. R&B, house, hip-hop, funk, o caldeirão é vasto. E dessa praia californiana chega "Am I Wrong", canção que conta com a ajuda de ScHoolboy Q para encher pistas de dança pelas noites de verão por cumprir. É um toque francês que atravessou o Atlântico e trouxe consigo uma das grandes malhas de 2016. E é dez vezes mais fresca que a "Uptown Funk" de Bruno Mars, para a qual abrirá na MEO Arena em Abril...
5
"Dust"
Parquet Courts
O rock não morreu, vai andando pelo underground onde melhor respira. O que tem feito, isso sim, é olhar demasiado para o passado. Mas quando isso resulta em discos como o novo dos Parquet Courts, perdoemos-lhe o conservadorismo. É Jonathan Richman quem nos fala aqui, é Richard Hell quem grita do outro lado, é Tom Verlaine a caminhar rua abaixo mirando a lua. É pó, e o rock tem estado um bocado cheio dele, mas se soprarmos quase que fica como novo.
6
"Satisfied"
Fat White Family
Há que dar o braço a torcer no que toca aos Fat White Family. Se é verdade que Songs For Our Mothers torna-se aborrecido ao fim de umas quantas audições, não menos verdade é que, ao vivo, a banda transforma as canções ali presentes numa granada de mão que explode e reexplode, como o fizeram no Reverence, num dos melhores concertos da edição deste ano do festival. E foi isso que nos levou a encarar "Satisfied" com outros olhos, e a valorizá-lo pelo que é: um grande tema de funk industrial. E um grande tema sobre broches. Achamos nós que é sobre broches.
7
"Fade"
Kanye West
À luz dos mais recentes acontecimentos, nem sequer dá vontade de colocar Kanye West numa lista dos melhores do que seja. The Life Of Pablo não o merece, certamente, esse que é sem dúvida o disco mais fraco de uma carreira que já contou com o magnífico My Beautiful Dark Twisted Fantasy e o sujo Yeezus. "Fade", no entanto, quase nem soa a Kanye - é house, puro e duro (claro, é "sacado" ao genial Mr Fingers), e o seu maior mérito é levar-nos a pensar que a restante hora que passámos a ouvir o raio do álbum não foi em vão. E agora que lhe reconhecemos a qualidade da malha, resta mandar o Sr. West para a real puta que o pariu.
8
"In Ashes"
Zeal And Ardor
A ideia era boa no papel - e nem sequer era insultuosa, como os Deafheaven ou Myrkur ou qualquer outro projecto que encare o black metal como campo raso para espalhar fofice e boa onda. O facto de ter nascido no seio dos trolls também ajudaria à festa. Zeal And Ardor nasceu da fusão do tremolo com espirituais afro-americanos, após um tópico no grupo de música do 4chan dar a ideia para se juntar black metal e nigger music (palavras deles), algo a que Manuel Gagneux - mulato e suíço - disse challenge accepted!. O problema? Devil Is Fine não é uma junção muito bem conseguida entre esses dois géneros. Aliás, apenas em dois temas se nota essa preocupação de Gagneux, ou Zeal And Ardor, de os aliar; o resto anda pelas guitarras death, pelo trap ou simplesmente pelo lixo. Devil is Fine deverá, no entanto, ser encarado mais como uma maqueta que outra coisa - uma experiência, um teste roufenho. No máximo, é interessante q.b. para termos curiosidade de saber para onde irá a seguir. "In Ashes" é a faixa melhor conseguida, quase conseguindo colocar-nos no meio de uma igreja satânica onde rapazinhos ardem e o gospel se faz negro e feérico. Se o álbum fosse todo assim, e mais longo, era o lançamento da década. Sem espinhas.
9
"Five Minutes"
Her
2016, the year r&b broke. Basta ver as inúmeras listas de fim de ano que têm circulado desde finais de Novembro: Beyoncé, Solange, Frank Ocean... O r&b tomou definitivamente conta dos gostos dos críticos e da juventude, saiu da toca racial que lhe estava atribuída há algum tempo; e para isso também terá contribuído a sua vertente mais indie, aquela que passa por debaixo dos radares e das mega-produções pop, vulgo "r&b para brancos"... Como os Her, dupla francesa descendente dos The xx e Weeknds desta vida, que este ano reeditaram a sua cassete de estreia. "Five Minutes" é, portanto, de 2015 - mas continua sexy o suficiente para figurar em 2016, e continua branca e indie o suficiente para encontrar estado de graça entre a comunidade que gosta-de-pop-mas-na-verdade-não, e continua interessante o suficiente para o ser mais que a bombástica mulher de Jay-Z. Sim, Lemonade é só chato. Carry on.
10
"Evencycle"
MJ Guider
De quando em vez, cai-nos em cima um álbum vindo não se sabe lá muito bem de onde, de um artista perfeitamente desconhecido a não ser que se tenha o mínimo de paciência, e de discernimento, para arriscar sacar a sua obra dos confins da Internet, num digging moderno que muitas vezes resulta numa daquelas descobertas que ficam para o momento - com sorte, até para a vida. Neste caso, o tesouro pirata vem de MJ Guider, mulher ligada à Kranky que este ano editou Precious Systems, o seu álbum de estreia, onde uma dream pop longe do cliché se alia a ritmos industriais e paisagens de decadência urbana onde uma flor nasce no asfalto, conforme a profecia de Drummond de Andrade. Os dez minutos de "Evencycle" espelham bem esse maravilhoso mundo criado pela norte-americana. Como não, até, dançá-los?

Rafael Santos
1
"Radio Silence"
James Blake
The Colour In Anything, como um todo, poderá não ter sido arrebatador, mas algumas das suas canções são verdadeiras pérolas. “Radio Silence” é uma delas, e está logo à entrada do disco. É melancolia pura. É a frustração de um amor que se esgotou, que se silenciou sem se perceber o porquê, e em que se manifesta uma obsessão para encontrar uma resposta minimamente aconchegante. O tema é uma lamúria hipnótica de um homem em busca de consolo. Isto é James Blake no seu melhor: um construtor de refinadas canções pop em que a fórmula passa essencialmente por dizer tudo com pouco.
2
"Ceramic People"
Nonkeen
Turbulenta viagem cósmica propulsionada por uma mesmerizante combinação jazz e kosmische, e um verdadeiro feito para os Nonkeen num disco que em muito é uma genuína celebração da amizade entre Frederic Gmeiner, Nils Frahm e Sepp Singwald, amigos de infância que tinham o amor à música em comum. Tinham e têm. Não é de estranhar que haja algo de magicamente nostálgico em The Gamble e The Oddments Of The Gamble, discos que o colectivo editou em 2016 com poucos meses de intervalo repletos de momentos improvisados que recuperam algumas sonoridades que os três criaram pouco depois da puerícia.
3
"We The People"
A Tribe Called Quest
"All you Black folks, you must go / All you Mexicans, you must go / And all you poor folks, you must go / Muslims and gays, boy, we hate your ways / So all you bad folks, you must go". Sim, o regresso dos mestres para uma última mensagem. E "We The People" nada tem de ambíguo: ela é política mordaz, e um horrível reflexo do estado mental dos Estados (des)Unidos da América, que em 2016 elegeu um conflituoso porco narcisista para suceder a um homem que tem desde 2009 o prémio Nobel da Paz algures numa das prateleiras lá de casa. Fuck me!!
4
"Pink No Kimono"
Kiki Hitomi
É impossível o coração não derreter ao som disto. A frágil voz de Kiki sobre os modestos, mas certeiros, padrões electónicos modo Gameboy de Jan “Disrupt” Gleichmar. Isto é pop sopeira pura; escorre o mais fino azeite virgem do principio ao fim; isto a que eles, de olhos em bico, chamam enke. "Pink No Kimono" é uma nova versão do clássico nipónico de 1973 "Shura No Hana" de Meiko Kaji, e é uma apaixonante recriação por ser fruto de um laborioso trabalho de amor; amor de mãe. Música popularucha japonesa com alguns perlimpimpins dub. Simples. Apontada directamente ao coração. Tudo de uma absurda dignidade.
5
"Gaia Cósmica"
Octa Push
“Gaia Cósmica” é de longe a enorme concretização dos manos de Carcavelos, que com Língua, o segundo de originais, atreveram-se a pôr o português, e a sua profunda relação com África, numa espécie de reconciliação espiritual com o que ficou amarrotado no passado; dois, três povos a colaborar para enriquecer a história futura. Tradição e modernidade de mãos dadas. Neste tema temos o crioulo de Cabo Verde do último caboverdiano triste em passos de dança com o entendimento tuga do broken-beat londrino. “Gaia Cósmica” soa genuinamente nosso porque vem de dentro para fora em pura harmonia; mais-valia, por outras palavras.
6
"Kimberley Hotel"
Hidden Jazz Quartett
Um dos momentos mais cool de Raw and Cooked, o disco de estreia de um quarteto-que-na-verdade-é-quinteto. Anthony Joseph é um manancial de poesia neste eloquente andamento jazz-funk chamado "Kimberley Hotel"; sóbria malha, digna de co-existir entre as malhas de Reflections de Gil Scott-Heron sem que alguém se ofenda com tal. O saxofonista Stephan Abel é o maestro dos Hidden Jazz Quartett; um projecto, na verdade, idealizado por Ralf Zitzmann, promotor das noites no Calamari Moon em Hanôver, que, volvidos alguns serões a ouvir DJs em modo jazz, começou a imaginar um secreto quarteto a improvisar atrás das cortinas do clube.
7
"Nikes"
Frank Ocean
É uma canção sobre muito e sobre nada: materialismo, família, amizade, sexo, amor não correspondido. Nikes reflecte a mente de Frank Ocean nas suas certezas e dúvidas. É uma janela aberta que expõe a nu um artista frequentemente amargurado. A produção requintada dá um tom honesto a tudo, apesar dos contrastes que suscita - hedonismo e melancolia; melancolia hedonista; hedonismo melancólico; se é que tais conceitos realmente existem neste mundo humano. É estranha a relação de forças, as contradições, mas é consequente. E no meio de tanta incerteza, é disso que estou certo em relação a Frank Ocean.
8
"Motorhome"
Underworld
A mensagem é daquelas banalidades que qualquer guru da auto-estima dispara à primeira oportunidade: "What don't lift you /Drags you down / Keep away from the darkside". Karl Hyde sente e repete-a, nunca até à exaustão. "Motorhome" é um dos temas que nos mostra os Underworld numa fase de reanimação anímica. Ela resultou de um período meditativo a que o projecto se sujeitou e que os levou à reconciliação com o passado, e com aquela linguagem techno pop que os tornou numa referência. A consequência geral foi Barbara Barbara, We Face a Shining Future, que é de uma poesia, luz, cor, calor, humanismo; ou seja, tudo o que a pragmática fuga para a frente fez desaparecer nos últimos anos.
9
"H"
Prins Thomas
Principe Del Norte não é disco com temas de A a Z. Ele fica-se pelo "H". E fica-se muito bem porque já quase tudo se havia ouvido num alinhamento repleto de perspectivas sobre a profundidade (sonora) do Universo. Em "H", com Prins Thomas rendido ao techno de Detroit, termina uma autêntica epopeia pelo cosmos. A viagem começou serena ao som de memórias kosmiche (Manuel Göttsching ou Klaus Schulze), enveredando a meio pela ambient de 90 (Namlock) e ganhou gás quando o disco-sound característico do norueguês começou a acicatar a caixa de ritmos. "H" é o culminar de uma longa aventura, a celebração da experiência de vida de um homem que perde muito do seu tempo em busca de mais uma partícula cósmica para nos maravilhar.
10
"Heptapod B"
Jóhann Jóhannsson
Arrival de Denis Villeneuve foi um dos mais relevantes momentos cinematográficos do ano de 2016. O islandês Jóhann Jóhannsson contribuiu. Ele, homem tão dado a descrever a relação Máquina-Homem em andamentos electrónicos minimais - por vezes saudosistas -, substituiu na obra da banda-sonora o elemento Máquina por Seres de Outro Mundo; seres em busca de salvação. Todo filme é sobre comunicação, ou melhor, a falta dela entre nós e os outros. Jóhannsson acrescenta músculo narrativo a uma história já de si impressionante. Ele aterroriza-nos com poucas notas; deixa-nos retesados em silêncios expectantes. Mas também maravilha-nos sem ter de despender muita energia; "Heptapod B" é disso um arrepiante exemplo.


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