NWW List: Melomanias (II)
· 21 Fev 2015 · 16:07 ·


291 nomes, outros tantos discos. O Bodyspace continua a aventurar-se numa das listas de discos mais acarinhada pelos melómanos: a dos Nurse With Wound.

Pekka Airaksinen
One Point Music
O Records (1972)
Pekka Airaksinen
Buddhas Of Golden Light
O Records (1984)
Músico finlandês, Pekka Airaksinen tornou-se conhecido por ter formado os Sperm no final da década de sessenta, abandonando a banda no início da década seguinte e desaparecendo do radar durante vários anos. Lançou um álbum em 1972, One Point Music, exercício de musique concrète no qual encontramos percussão livre e confusa sob uma electrónica de baixa fidelidade, nomeadamente em "Pieni Sienikonsertto - A Little Soup For Piano And Orchestra Op 46,8", a primeira faixa, e uma mistura quase caótica de sons alienígenas que o SETI Institute não desdenharia, com guitarra e órgão eléctricos distorcidos e emaranhados numa busca de um algo cósmico.

Em 1984 editou o seu segundo trabalho a solo, Buddhas Of Golden Light onde, para todos os efeitos, dá início a um projecto que dura até hoje, e que já rendeu dezenas de discos (o seu mais recente álbum data de 2012 e intitula-se Other Power, tendo o selo da finlandesa Harmönia): álbuns de tributo ao Budismo e suas deidades, religião da qual é praticante. Buddhas..., a introdução, mistura habilmente ritmos de uma Roland 808 com electrónica inspirada pelo free jazz, num registo semi-funky de onde sobressai principalmente o groove de "Sukirti" e "Ratnasikhin". A reter.

Airway
Live At LACE
Los Angeles Free Music Society (1978)
Começaram como um projecto a solo de Joe Potts, músico ligado aos Le Forte Four, conjunto experimental da década de setenta que misturava influências que iam desde o jazz e o rock à musique concrète. Estes últimos faziam igualmente parte da Los Angeles Free Music Society, colectivo de artistas californianos que partilhavam as mesmas ideias radicais e confrontacionais, sempre com uma pitada de humor, de onde saíram também os lendários Smegma e cuja influência se estende a bandas como os Sun City Girls ou os Hijokaidan.

Mais do que continuar essas experiências iniciais com os Le Forte Four, Potts cortou de vez com qualquer noção de estética e editou, sob a designação Airway e já com banda (Chip Chapman, Vetza McGill, Rick Potts, Dennis Duck, Juan Gomez e Tom Recchion), um 7'' homónimo e um disco ao vivo que capta aquilo que devem ter sido as actuações feéricas dos Airway à altura: um psicadelismo noise de ritmo bruto e guitarras soando a furacão, sob as quais eram testadas, por meio de tape delays, mensagens subliminares que na gravação são imperceptíveis - ainda antes de a moral majority norte-americana tentar levar a questão do subliminar a tribunal.

Disco essencial para todos aqueles que não amam tanto o rock como a sua total destruição, Live At LACE, com todos os seus gloriosos erros de captação, e com todo o poderio sónico que daqui emana, não poderia senão ser o único registo dos Airway de finais dos anos setenta (reunir-se-iam em 1998 para um concerto no Santa Monica Museum Of Art, que deu origem a um segundo, Live At Beyond The Pink [2001]), de tão selvagens que se apresentam. Música verdadeiramente livre, indomável.

Albrecht/d. & Joseph Beuys
Performance At The ICA London 1.Nov.1974
Samadhi Records (1976)
Throbbing Gristle with Albrecht/d.
Music From The Death Factory
Reflection Press (1976)
Albrecht/d.
Abstract Energy
Samadhi Records (1985)
Nascido Dietrich Albrecht em 1944, alterando o seu nome legalmente anos mais tarde, pouco se sabe de Albrecht/d. para além das suas ligações com o movimento Fluxus, tendo colaborado com Joseph Beuys, um dos mais influentes artistas alemães do século XX. Foi enquanto convidado deste, aliás, que se apresentou no Institute of Contemporary Arts de Londres, em 1974, para uma sessão de música improvisada incluída na exposição Art Into Society - Society Into Art. Da gravação dessa performance registamos uma música bucólica, percussão e flauta lembrando o Bon Odori japonês, com ocasionais cânticos.

Albrecht/d. colaboraria igualmente com uns Throbbing Gristle em início de carreira, ainda sem Peter Christopherson; Music From The Death Factory é um registo editado em cassete em que os encontramos indefinidos, longe ainda da sonoridade industrial que os tornaria reconhecidos. Aqui, Albrecht/d. encontra-se a cargo da percussão, que aparece esporadicamente nas duas faixas que compõem a cassete, enquanto Genesis P-Orridge, Cosey Fanni Tutti e Chris Carter tomam conta da electrónica, claramente influenciados pelo kösmiche alemão da altura. O resultado é um registo de música ambient/drone sem grande interesse para além da curiosidade histórica.

Mas para além destas duas colaborações, Albrecht/d. editou também Abstract Energy em 1985, disco que age como uma compilação de todo o seu anterior trabalho no campo musical. Aqui encontramos não só pedaços das colaborações supramencionadas como ainda penetramos no seu trabalho a solo, contendo o disco "fragmentos" do seu primeiro LP, Endless Music, pérola rara e perdida editada em 1974. A primeira faixa, "Endless Music Goes Zen", foi gravada em Fevereiro de 1980 na Academia das Artes de Berlim, peça de improvisação livre pautada por sons de crianças que se escondem sob percussão tensa e que é cortada a meio pela flauta, num registo estético que não está muito distante daquele encontrado em Performance At The ICA London 1.Nov.1974.

Alcatraz
Vampire State Building
Philips (1972)
"Simple Headphone Mind": canção que começa em registo jazzístico, desemboca em psicadelismo e regressa a uma suavidade quase bossa nova, como se os Alcatraz lutassem contra si mesmos, sempre com o baixo a debitar groove. É assim que começa Vampire State Building, primeiro disco da banda alemã, editado em 1972. Título ridículo, é certo, para um disco que não fez história dentro do krautrock, já que só os mais aficionados do género o terão escutado.

Não fez história, mas "Simple Headphone Mind" e o tema-título, jazz-rock electrizante que vai adaptando a velocidade conforme o tempo, bem que a poderiam ter feito. Infelizmente, não é apenas com duas canções incríveis que se faz um bom disco; o francamente mau sotaque inglês que escutamos em "Your Chance Of A Lifetime", blues branco decididamente chato, deixa-nos logo de pé atrás após aquela maravilhosa primeira faixa, e "Where The Wild Things Are" não faz por nos acordar. Caso para dizer que os Alcatraz, tivessem eles feito exclusivamente temas com mais de dez minutos, seriam gigantes. Como assim não foi, limitaram-se a editar "apenas" cinco discos nos últimos quarenta anos, o último dos quais até data de 2013.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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