RETRO MANÍA
Syrinx, os melhores sintetizadores que nunca ouviram.
· POR Nuno Leal · 21 Fev 2017 · 23:56 ·


Agora que a Neil Younglândia, terra também conhecida por Canadá, é oficialmente o país mais cool do mundo, chegou o tempo de vasculhar bandas por essas bandas, passe a má figura de estilo. E eis esta preciosa obscuridade vinda: Syrinx. Mais uma vez nas primeiras audições, constatamos que não se lucra quando se está demasiado à frente do seu tempo. Estes canadianos de meados de setentas se fossem de oitentas ou noventas ainda estariam demasiado à frente. Eles são de agora, o tempo apanhou-os mas mesmo assim isto é som de franja. Uma minoria absurda que graças ao critério da editora RVNB Intl. teve acesso o que apenas uma ultraminoria tinha: a música sagrada destes tipos, John, Doug e Alan de seus nomes.

Perdidos no tempo em listagens Prog, o seu som é tão original que apenas tem alguns pontos de comparação. Ali mesmo no Canadá com a Tonto's Expanding Head Band (que venero há décadas sem nunca ouvir falar de Syrinx, porquê meu Senhor?) e em Itália com os Sensation's Fix. Seja pelo uso massivo e melódico de sintetizadores, a forma como a percussão entra com laivos orientais tão na moda na altura mas refeitos de intemporalidade, com os clichés limpos pela tecnologia circundante, provavelmente os melhores teclados e botões que havia naqueles idos 40 anos atrás. ARP 2500 por aí fora. Mas com a introdução do sax e as cordas, vão mais longe, oh o sax e as cordas, quando surgem no horizonte, são new age alienígenas. Acreditem que eu perguntei a opinião a um marciano e ele disse que sim. Um anónimo nos comentários do Youtube diz que os viu ao vivo a fazer a 1ª parte de Miles Davis em 1970, no Massey Hall de Toronto. Nem quero imaginar o que terá sido. E pronto, toda esta introdução para vos dizer que estes gajos inventaram em 1971 os BOARDS OF CANADA!





São daquelas faixas que faz boquiabertar (se o verbo existisse) qualquer melómano interessado em electrónica. Mas há mais: os gajos inventaram em 1971 os TUXEDO MOON!



Mas voltemos ao uso inusitado das cordas, eis dois imponentes momentos cinematográficos de nenhum filme ainda.



Ou para acabar mais este momento inclassificável de bom.

Koto Ensemble Of The Ikuta School
· POR Paulo Cecílio · 12 Jan 2017 · 14:16 ·


Apesar da facilidade que existe, hoje em dia, de viajar até e comunicar com todos os povos do mundo, há lugares que permanecem um mistério. Por cada Awesome Tapes From Africa ou talento emergente da cumbia digital, há culturas e músicas que, seja por falta de apoio mediático ou por puro desinteresse ocidental, não têm outra escolha senão a de ficar à sombra, esperando que alguém chegue até elas - não que o seu objectivo primordial seja, evidentemente, dar-se a conhecer.

O Japão (e muitos outros países asiáticos e da Oceânia) habita um pouco esse limbo informativo; aquilo que chega até aos nossos ouvidos melómanos prende-se quase exclusivamente com a sua visão da nossa própria música. Podemos perfeitamente passar tardes a ouvir Boris, álbuns de shibuya-kei, ou até mesmo a sua versão da pop de alta energia que domina os seus topes de vendas. Mas isto não é (todo) o Japão. De fora desses nossos trabalhos arqueológicos tem ficado a música dita "tradicional", num país que nunca deixou de o ser, apesar do hipermodernismo quase cliché potenciado pelas nossas visões de cidades afogadas em néons e tecnologia de ponta. É um país contraditório, e para o melhor entendermos temos também de nos expor a esse lado mais conservador.



Editado em 1973 no mundo ocidental pela Lyrichord, Japanese Koto Orchestra abre um pouco a porta para aquilo que é ipso facto a música autóctone deste lado do mundo. Dos seus autores, pouco se sabe, tirando as suas assinaturas: Koto Ensemble Of The Ikuta School e Master Musicians Of Ikuta-Ryu referem-se, parece, a uma e a mesma coisa. O buraco negro da Internet tratou-se de engolir os nomes individuais dos seus intervenientes. Mas não engoliu a música, aqui construída a partir de vários instrumentos tradicionais japoneses: o koto (um instrumento de cordas com raízes históricas na guzheng, uma espécie de cítara chinesa), a hoteki (flauta), o shamisen (um instrumento de três cordas) e a shakuhachi (flauta de bambu).



Ao longo de mais de quarenta minutos, o que aqui escutamos é verdadeiramente uma orquestra - não sendo "orquestral" no sentido que lhe costumamos atribuir. As três peças apresentadas em Japanese Koto Orchestra têm as suas raízes na folk japonesa, tendo sido compostas, ao que tudo indica, no século XX - "Nagare", o segundo tema, foi-o nos anos 30, disso há certezas. Assim como existe a certeza de que esta é uma música com o propósito único de criar um "ambiente", uma imagem mental no seu ouvinte. O leito de um rio, a pétala de uma flor de cerejeira caindo suavemente no chão, a passagem inexorável do tempo - por exemplo, e por chavão animeesco.



"Otone No Nagare Ni Sote", escreve-se aqui, é «raramente interpretada devido à dificuldade que existe em reunir o talento musical necessário» para o fazer. Nesta peça, o silêncio também é muitas vezes utilizado quase como se fora ele próprio um instrumento - deixando que uma única vibração de uma única corda paire no ar, antes que a demais dissonância entre de novo em cena. É uma ode de vinte e cinco minutos ao rio Tone, o segundo maior do Japão, e como a água vai avançando mais rapidamente ou lentamente consoante a vontade, estando dividida em vários movimentos diferentes. "Shochikubai", mais ríspida - pela utilização do kokyū, instrumento tocado com um arco - talvez seja a peça mais gratificante aos ouvidos de quem já andou perdido pelo noise e pelo mundo da improvisação. Falta agora que nos percamos na terra.
10.000 anos Depois Entre Vénus e Marte
· POR Fernando Gonçalves · 25 Out 2016 · 16:23 ·


José Cid foi e é muita coisa. Monárquico liberal, homem que “limpou o Festival da Canção” e nos pós, a todos, a cantar “Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye, amore , amour, meine liebe, love of my life” com a vencedora “Um grande grande amor” e “estrela” de uma sessão fotográfica que lhe valeu “ouro”, José Cid pode ser amado e odiado com a mesma intensidade mas ninguém lhe ficará, por certo, indiferente.

Começou “a dar nas vistas” nos idos de 60 enquanto teclista e vocalista do mítico Quarteto 1111, foi censurado com A lenda de El-Rei D. Sebastião, passou pelos Babies e fez-se artista a solo. Carreira a solo que em 1973 viu nascer a estrela Vinte Anos. Pelo meio (1977) ainda teve tempo para criar o colectivo Cid, Scarpa, Carrapa & Nabo e, com eles, lançar mais um EP. Primeiro vislumbre de uma carreira, sintético por natureza, que nos leva onde queremos chegar: 10.000 anos Depois Entre Vénus e Marte. Icónico, tido como um dos 100 melhores álbuns de rock progressivo do mundo, numa lista organizada pela revista americana Billboard, 10.000 anos Depois Entre Vénus e Marte (1978;editora Orfeu) é um marco na carreira de Cid e da música portuguesa, até então, órfã de modernidade. Álbum que pega no pequeno cosmos da portugalidade musical e a atira para o grande oceano chamado Universo, na inspiração e na pujança como se impôs, mas também na história que se pretende contar.



Hoje, a história que faz correr 10.000 anos Depois Entre Vénus e Marte, que contou com a colaboração de Zé Nabo, Ramon Gallarza e Mike Sergeant, já foi vista e revista por dezenas de bandas, escrita e descrita em dezenas de filmes e livros, mas a frescura desta existencialista, intergaláctica e pós-apocalíptica aventura musical, regada a Mellotrons (dois), piano, sintetizadores e um clavinet Hohner, tornam este disco um marco na história do rock luso.



“Entre a bruma densa da manhã que quer romper, o planeta Terra já não pode mais viver” assim se inicia “O Último Dia na Terra”, faixa que abre o disco e serve de “combustível” a esta nave que parte em busca de salvação cósmica. Dentro leva um Homem e uma Mulher. Juntos, fogem do caos que se abateu sobre este planeta, sobre a cidade que é, agora, “uma vala comum” onde “nenhum caminho borda o horizonte”. Com estas e outras palavras se vai cozendo o caldo de cultura de “Caos”, segundo tema do alinhamento, que a seguir foge para o espaço.

Um Homem e uma Mulher viajando pelo espaço sideral a bordo de um Mellotron, mui querido instrumento utilizado por Cid na cozedura deste álbum quase único no período em que nasceu. A prova deste “amor” vem no título da quarta música do set. “Mellotron, O Planeta Fantástico”.



Apesar da raridade que 10.000 anos Depois Entre Vénus e Marte reprrsenta no panorama musical do Portugal dos anos 70, o álbum pouco vendeu e nem as influências que recebeu de nomes incontornáveis do rock progressivo da época como os Genesis, King Crimson, Pink Floyd ou Eloy lhe valeu um lugar de destaque à altura. Mas a vida tem destas coisas e, muitos anos depois, este patinho feio tornou-se um cisne musical de incontornável valor histórico e monetário. E se as aventuras pelo pop se tornaram o metiê de Cid, a verdade é que esta peça única na sua carreira mora entre as suas predilectas.

Sixto Rodríguez e o seu Cold Fact (1970)
· POR Fernando Gonçalves · 04 Ago 2016 · 15:54 ·


Estávamos em 1970, a trip continua da década anterior já se dissipava das mentes e corpos de milhões de pessoas por todo o mundo (com os States à cabeça) e deixava no ar, quase suspenso como um grito que se retrai apercebendo-se da inoportunidade do momento, a expectativa do que aí viria. A História todos nós sabemos como se desenrolou, está ao alcance de um livro ou de uma pesquisa na net, mas para Sixto Rodríguez, músico prestes a atirar-se para o mundo, o nevoeiro que cobria a indiscernível nova década era dissipado pela esperança de nome Cold Fact (gravado meses antes no Tera-Shirma Studio da sua Detroit natal) que carregava no bolso.



Doze músicas, entre elas a eterna “Sugar Man”, quase fizeram de Rodríguez um sucesso nos setenta. “Quase”, porque a vida deste Cold Fact e do seu mentor foi um corpo esquisito e nunca benquisto na terra que o viu nascer, ao mesmo tempo que o mito e a realidade, como uma lapa, se associaram ao seu trajecto enquanto homem-músico e músico-homem. Mas o mundo dá voltas e, para Sixto, a História, apesar de nunca ter deixado de ser uma espécie “patinho feio” da música, reservar-lhe-ia um par de surpresas…



Voltemos a 1970. Produzido por Mike Theodore e Dennis Coffey (responsáveis, igualmente, pelas letras dos temas “Hate Street Dialogue” e “Gommorah (A Nursery Rime)”, Cold Fact saiu pela mão da Sussex Records para uns Estados Unidos da América que foi grande em o ignorar. Vendas quase nulas, um antigo responsável pela editora jurava, num documentário sobre o músico, terem-se vendido menos de um milhar de exemplares, mas na África do Sul e na Austrália, o disco foi um sucesso (o mesmo responsável afirmava que Sixto teria, em associação com a A&M Records (subsidiária da Sussex Records), editora de Rodríguez na África do Sul, comprado uma boa parte dos álbuns naquele país africano…



Não sabemos se isto é realidade, mas sabemos que este álbum que mistura o melhor do rock criado nos 60’ com blues de cariz urbano e uma folk que mais parece saída de um “agora criativo”, esse agora que os artistas contemporâneos se esforçam para criar no universo do indie-folk-rock, fez furor nesses dois países dando a Rodríguez atenção e carinho consubstanciados numa tournée-ternura à Down under em 1979 (em baixo, o concerto de Sixto no Regent Theatre de Sydney durante essa tour).



Antes porém, Rodríguez, ainda editou um segundo álbum de seu nome Coming From Reality (1971), com igual resultado de vendas, o que o levou a por um fim na sua carreira e a levá-lo para uma carreira política que seguiu o mesmo caminho ( o Conselho Municipal de Detroit escreveu mal o seu nome nos boletins de voto) até que, em 1979, o hype criado na Austrália o levou até lá… Ainda voltou à terra dos cangurus em 1981 para depois concluir, no mesmo ano, o curso de Filosofia na Wayne State University’s Monteith College, Detroit, enquanto trabalhava numa empresa de demolições.

Passaram dez anos até que se voltasse a ouvir falar do “homem das demolições”. Em 1991, ambos os discos de Sixto foram reeditados em CD na África do Sul. Sucesso, embora desconhecido para ele, até que me 1998, a sua filha encontrou um site sul-africano em sua honra, o que o levou a uma primeira tournée naquele país (regressou em 2001 e 2005), mas faltavam os Estados Unidos da Ingratidão…

2008/2009. A Light in the Attic Records, nome bem a propósito, reedita Cold Fact e Coming From Reality, e a História toma um ouro rumo… Em 2012 é convidado do Late Show com David Letterman, a CNN decide entrevistá-lo e o jornalista Stephen Robert Morse lança uma petição online para atribuir a Rodríguez a distinção “Kennedy Center Honor”.

Durante o período que mediou a reedição dos seus dois álbuns no seu país natal, Simon Chinn e John Battsek, realizadores, começaram o filme documentário que viria a estrear no dia 3 de Setembro de 2012 no festival de Sundance e que inscreveu, de vez, o nome deste americano com origens mexicanas na galeria de honra da música norte-americana. “Searching For Sugarman” abriu festivais de cinema, integrou o alinhamento de alguns festivais de música europeus e originou um álbum novo com base na banda sonora do documento imagético (em baixo o filme completo):



A busca terminou, “Sugar Man” encontrou um lugar na História, assim como na história desta retro-mania. Primeira do alinhamento de Cold Fact, mas nunca última, “Sugar Man” fecha esta deambulação por uma das personagens mais fascinantes do glossário musical norte-americano, Sixto Rodríguez o, finalmente, Sugar Man…

Japão de oitentas, muito arigato, muito arigato.
· POR Nuno Leal · 05 Abr 2016 · 23:32 ·


Nippon, sempre o Nippon. Desta vez Colored Music e assim continuamos na década de oitenta, quiçá a melhor de sempre na cultura musical deste país fabuloso, oh Venceslau de Moraes como te compreendo. Relacionados com este disco de 1981, único e verdadeiramente singular, descobrimos dois nomes - Atsuo Fujimoto e Ichiko Hashimoto - no Discogs, passe a publicidade, e é o que temos. Suponho que Ichiko é a voz feminina que ilumina muitas das composições. Só porque já vi japonesas chamadas Ichiko algures. Mas voltemos à música.

"Colored Music", a primeira faixa começa numa toada funky rare groove nada atípica no país dos Casiopea, mas surpreendentemente combina-a com artilharia digital new wave e um toque quase 4AD na voz sobre guitarra de Ichiko. Há ainda coros estulo Association ou Free Design, há rap. Só esta faixa vale o disco.

"Anticipation", mergulha todo o funk na dark wave, densamente. Imaginem os Magazine a cantar com a Anabela dos Mler Ife Dada. "Ei Sei Raku", soa a hipergrupo viajante no tempo e multidécada. Imaginem os primeiros Pram dos noventas a tocar com os italianos Area de setentas e um monge erudito em ácido-dueto com uma fada robot.

"Sanctuary", mergulha na 4AD ou na Projekt mas avant-lettre: uns bons aninhos antes. Soa a Amon Duul II se alguma vez tivessem feito um disco gótico. Too Much Money, traz outra surpresa no meio de tantas. Zappa japonês! Riff à T-Rex mas loucura zappiana em todos os poros, blues absorvidos em teclados new wave qual experiência marada do mestre Sheik Yerbouti.

"Love Hallucination": volta a groove, sensação quase brasileira, tão japonesice de décadas vindouras, aqui em minutos de classe pura, baixo monstro, dueto nas estrelas, mais uma vez teclados coldwave a causar a melhor estranheza deslocada do mundo. Fritaria pegada. "Third Eye Clear Light", fritaria pegada (continuação). Aqui mais tipicamente Japanrocksampler, ópio, guitarras, free jazz, Ichiko em modo Joan La Barbara, Tony Williams groove mood.

"Heartbeat". Ponto final. A primeira faixa que ouvi. Ao nível do melhor do Hosono, dos YMO, do Asmus Tietchens, do Conrad Schnitzler, tudo. 1981-2081 em toda a linha, dançavel até ao osso, digital-oriental como um Casio com o alarme avariado às tantas. Vale o disco. Aliás valem todas. 11 em 10. Eis o bater do nosso coração meio robot em Tóquio, até breve.







Flávio Venturini: noites com sol
· POR Matheus Maneschy · 16 Mar 2016 · 19:38 ·


É com muito prazer que relembro aqui este disco. E relembro de Flávio, que ainda jovem, foi descoberto no movimento Clube da Esquina. Esteve ao lado de Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges e outros tantos companheiros. Era ali o inicio dum marco na história da música brasileira e da minha vida. Em 1994, Flávio deu a luz à "Noites com Sol". Mas já vos adianto: a luz é escura, é aquele tipo de amarelo pôr-do-sol. Este disco é para sermos hoje as crianças que não lembramos que fomos. É o discurso do futuro repescando o passado, e pelo meio há o encontro eterno com a natureza.

O disco dá as boas vindas com "Quando Você Chegou". Que chega a anunciar o poder que têm os falsetes inconfundíveis e cheios de melancolia. É assim que Venturini apresenta a sua alma e desata as amarras da sua existência.



A canção que dá nome ao disco é transcendental. "Noites com sol são mais belas, certas canções são eternas". Flávio estava num paraíso brasileiro chamado Jericoacoara quando compôs algo tão belo quanto a praia. A música fez sucesso naquela época, até entrou na banda sonora de novelas da Globo. Fez sucesso também nas casas de muitas famílias brasileiras, como a minha.



E um bocado depois da canção mais conhecida, discretamente vem a obra prima. Chama-se Cabaré da Sereia, e sente-se o que quiser. É a mais livre música que já ouvi. Funciona como um empréstimo sem limites para construirmos um cenário lindo, todo de areia, todo de amor. Dizem que foi também escrita numa praia selvagem chamada de Algodoal, no Pará. Mas são apenas histórias de pescador. Aliás, histórias que viraram melodia.



Ainda estou à procura deste vinil. Quero emoldurar e deixar a apanhar sol todos os dias e noite. Um dia ainda o encontro. Vale ouvir do inicio ao fim, da vida.
A Pop Ultracongelada de Virna Lindt
· POR Nuno Leal · 21 Fev 2016 · 23:43 ·


Tem sobrenome de chocolate suiço mas é sueca. Ex-modelo e diva underground dos oitentas escandinavos, uma espécie de Lewis no lado obscuro e espartano dos arranjos e na forma quase kitsch em que canta como se não fosse daquelas notas, daquela melodia. Nem de propósito, descoberta num digging sobre os ingleses Stockholm Monsters (outra cena fixe), Estocolmo é a palavra chave da proveniência desta estranha forma de ser, que no wikipedia se referem a qualquer coisa como John Barry-meets-New Wave. Ou Serge Gainsbourg Cantaria Comigo Se Me Tivesse Conhecido. Entre Pop minimal, soft-acid jazz e disco not disco, há sem dúvida um lado sofisticado, uma sugestão OO7 de Bond Girl a cantar em alucinogénios escondidos no doce de mirtilo, mas tudo muito gélido, como se pertencesse à cena oitentas de Nova Iorque, Berlim ou Tóquio mas ultracongelado, tanto que parece extraterrestre a qualquer movimento embora tenha parecenças com muita coisa. Estilo um alien que tenta integrar-se entre humanos, não sei se me percebem. Só ouvindo.

Nesta música de elevador até à nave-mãe vamos youtubando cada vez mais (mas há discos, a LTM reeditou-os), e somos levados por ela a faixas dos seus únicos dois discos à mítica editora Compact Organization (se não é mítica passou a ser). Seus nomes: Shiver e Play/Record, de 1983 e 1985. O que é feito dela? O wikipedia não diz. Se calhar está com o Lewis algures entre o Canadá ou a Suécia a ver filmes de Bergman e dvds do Miami Vice, acima da linha do Ártico certamente.











Sérgio Mendes & Brasil 66, uma outra bossanova
· POR Fernando Gonçalves · 21 Jan 2016 · 12:04 ·


E lá ia o meu amigo a cantarolar o “Mas que nada” enquanto tentávamos encontrar um sítio para se tomar um café e aí bateu. Já não ouvia aquilo há quase cinco anos. A primeira vez tinha sido no intervalo entre uma notícia sobre qualquer coisa sem interesse ou memória, mas aquilo ficou, levou-me a descobrir o artista e um pouco da sua história. Pois é, há distracções que vêm por bem e assim começou Sérgio Mendes & Brasil 66 com o “padrinho” Herb Alpert a segurar a criança.



Daqui se salta facilmente para as restantes músicas do álbum (editado pela A&M Records em 1966) e a sua bossanova em estilo sexy gourmet. Samba de uma nota só ou um Berimbau a saltar nas mãos e vozes dos Brasil 66 embrulhadas pelo trompete hábil de Herb Alpert levaram a bossanova a deitar-se na cama com a pop norte-americana, numa orgia de línguas somente presente na construção da Torre de Babel.

“Mas que nada”, expoente máximo deste álbum e deste novo paradigma, ou “One Note Samba” provam-no de forma brutal. Uma norte-americana na voz numa letra portuguesa com o tom a ser dado pelo colectivo Brasil 66, rara mistura, há época, entre músicos dos dois maiores países das Américas



Se o tripanço já ia alto, ainda faltava ouvir “Day Trippin”, reconstrução sintética e aveludada do hit dos Beetles e se, por mero acaso ou distracção (já vimos como as distracções são tramadas), se sentisse que tudo estava ouvido, lá vem uma “Água de Beber” dos génios Vinícius de Moraes e Tom Jobim.



No final, mas que se podia ausentar por mais uns minutos, chega “Berimbau”. Trajecto de elegância e bom gosto que conclui a trama deste álbum que podia ser “samba enredo”, mas que apenas lançou Sérgio Mendes para a galeria de notáveis da bossanova.

Yasuaki Shimizu, disco à frente do tempo
· POR Nuno Leal · 30 Nov 2015 · 22:50 ·


Não vou ser snob e dizer que já conheço este disco há anos. Nada disso, conheci-o ontem, digging no youtube. Atrás da pista Yasuaki Shimizu e do disco com a capa do gatinho. Este:



Mas esperem, esperem lá, já o ouvem todo. Isto é para ler de uma assentada. Descrevo-vos o disco do gatinho. Kakashi . Arigato, arigatão. Uma pérola new wave japonesa com pistas que remontam a Peter Greenaway e à banda sonora do “The Pillow Book” – “Suiren”, logo o 1º tema – e um enigmático japonês que hoje faz jingles para TV e no passado trabalhou com Towa Tei, Sakamoto, Nam June Paik, Helen Merrill, Karin Krog, Van Dyke Parks ou Bill Laswell. Este portfólio impressionante não seria nada sem o gatinho de traços sonoros que nos levam a fazer a ponte direta entre umas notas de Curtis Mayfield versão dos Tuxedo Moon com os Tortoise (ouvir para crer: vão logo para os 4:30 na link em baixo). A colaboração impossível mas que à primeira audição irão vislumbrar o casamento sonoro perfeito. Claro que ao ouvir o disco todo haverá quem se lembre também de This Heat ao barulho, com muito dub-pan-mundialismo à la Hector Zazou e K. Leimer metido ao barulho também, melhor, à melodia. Mas nessa tarde nada longínqua (anteontem!) a maior surpresa estava para acontecer. Com um disco fabuloso assim, será que o Yasuaki tem mais? Hummmm... tinha uma banda antes... os Mariah... Ah, lembra logo Carey, nome engraçado... deixa ouvir, como é do mesmo ano, vai na volta é diferente, talvez punk ou industrial, será? Hummm... Não...Não... Nope...



É dope, porra. Lá vem o chavão do à frente no seu tempo mas desta vez não fui eu: mostrei isto a um colega de trabalho aqui ao lado que pensou que era uma derivada de Grimes ou assim. Não é de agora? Então?(...) 1983?!. Nunca mais o vi desde essa tarde. Provavelmente usou uma máquina do tempo e foi verificar. Bom demais para ser verdade, e é (ler “yeah!”). Não tenho em meu poder um LP que o comprove, apenas um CD carregado de música mais tribal, mais electro, ainda mais inesperada. E o sax marca presença nesta versão de YMO menos “yellow”, mais “dark”.



Tanta coisa indie japonesa de hoje encontra explicação nesta obra-prima de electro-pop psicadélica digna do Japrocksampler (não está lá, com 99% de certeza). No império dos grandes Haino, Hosono, Sakamoto, há Yasuaki, o Desconhecido. Um especialista em variações de Bach nos dias de hoje, que na altura criava esta mescla zigue-zagueana sonora pontuada ainda mais surpreendentemente com a voz de Julie Fowell, uma alma enigmática que de vez em quando debita em arménio (!) para o efeito pangea total. Globalização em CAN revertido (Japonês canta em japonês em banda alemã vs. Bifa canta em arménio em banda japonesa).



Software, Digital Dance
· POR Nuno Leal · 09 Nov 2015 · 15:08 ·


Os Software são Peter Mergener e Michale Weisser, um duo germânico muito interessante e bastante desconhecido (that’s how we like it!), que começaram a lançar peças de electrónica a partir do ano de Orwell e da Apple: 1984. No início, divididos entre se chamar Mergener & Weisser ou Software, trilharam caminhos Tangerine Dreamícos, como parte da herança hardware berlinense, nada fácil de fugir, ou não estivessem eles numa editora que lançava discos de Klaus Schulze, a Innovative Communication. Mas o ripa na rapaquecatrónico e raison d’être deste artigo é uma pecinha de 1988. Digital Dance . Aqui já assumida e enigmaticamente chamados de Software, fizeram talvez o primeiro artefacto vaporwave da história. Se por enquanto não o consigo provar, a verdade é que o que provei é saboroso.

Trópicos pixelizados de vai e vens marítimos infinitos banhando-nos os circuitos lounge dos neurónios, avenida plena de dopaminas sintetizadas. Sintetizadores, saxofone, percussão minimal. Um disco que é na sua essência e objectivo claramente à frente do seu tempo, numa altura onde o ambient caminhava entre folclores new age umas vezes bem, outras mal, e o techno implodia dentro da cena industrial e noise, a caminho de uma década minimal e raver (os noventas). Em 1988, as bandas sonoras dos jogos também eram apenas bandas sonoras de jogos, e ainda não se apreciava tanto ficar a olhar de cocktail na mão para um electrodoméstico horas a fio a funcionar como hoje.

Contemplar uma ventoinha incansável num dia quente de Miami terra de Vice, oh panca nossa de hoje. Na altura não. Era apenas pormenor de uma série fixe. Hoje, retromaníacos deste e de outros mundos, é um pormaior como dizia o outro. Se Vektroid, James Ferraro, Saint Pepsi, Oneohtrix Point Never, Sun Araw, Com Truise, entre outros, alimentaram o estilo cunhado por Vaporwave com base em premissas retro de recuperação de imaginários digitais e yuppies oitentistas, no fundo, é exactamente a música deste duo Software que recuperaram. Sem este Software, de 2010 em diante não teria sido a mesma coisa e com esta me evaporo...



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