CANÇÕES
"Céu Azul"
Lucía Vives
· POR Paulo Cecílio · 03 Abr 2017 · 15:01 ·
© Diogo Rodrigues

A "cena" musical portuguesa, nos dias que correm, parece consistir em três simples pedras da calçada: damos um pontapé numa e de lá sai uma banda de stoner, damos um pontapé noutra e sai uma de rock psicadélico, e a pedra final fica reservada para dezenas e dezenas de cantautores com gosto pela nossa própria língua. Na maior parte das vezes, a pedra chutada deixa que a barata saia do solo. Mas, noutras, e cada vez mais raras, é um fio de ouro ou uma moeda de prata aquilo que se esconde sob o calcário. Assim é com Lucía Vives e com a Xita Records à qual pertence, colectivo de miúdos que, inspirados pela Fetra, tem feito coisas realmente extraordinárias.

Lucía e não Lúcia, que também pertence às maravilhosas Ninaz, "estreou-se" recentemente a solo com um EP em modo grind: três canções apenas, e em apenas cinco minutos, mas que deixam antever um mar de possibilidades pop, tal é a força dos arranjos. Destas, destaca-se "Céu Azul", ditame pegajoso e delicioso sobre o romance, sobre a juventude, sobre Lisboa, sobre aquilo que de melhor há numa tarde de verão: uma imensidão de azul sobre as nossas cabeças. É grande, claro, é radiofónica, obviamente, e será grande, certamente.

"Fuglekongen"
Bjørn Torske
· POR Rafael Santos · 24 Out 2016 · 12:17 ·


Bjørn Torske não é leal a ninguém. Nem tal deseja! E seguidores não lhe faltam. Ele faz o que quer. Modas? Foda-se! Nada com ele. Amiúde contraria quem acha que ele é capaz da excelente excelência. Ambiguidade: ele tem uma grandeza que, nem quem gosta mesmo dele, é capaz da absoluta certeza. Há coisas amalucadas; diarreias; produções enviusadas – de certeza saídas directamente do manicómio de Ryan Murphy – que criam algumas instintivas resistências.

Bjørn Torske é o gajo mais sério que há… que é indomável. Estrelinha-de-poupa: penacho pequeno, penas douradas. “Fuglekongen” é a estrelinha: é de uma ave que falamos neste momento, ou do que ele quer falar, ou musicar, ou atrofiar simplesmente. Porque Bjørn quer tanto ritmo neste tema novo para levantar voo, desconhece-se. “Fuglekongen” é ele a ser bicho bravo, que observa, excitado. E reporta, sem querer saber de quem perde tempo a idolatrizá-lo, ou a tentar. Basicamente, este gajo é difícil de perceber! Mas é excitante. Por isso, acabamos sempre por voltar a ele.

"Link Up"
NxWorries
· POR Rafael Santos · 18 Out 2016 · 23:12 ·


NxWorries é Anderson.Paak e Knxlwledge. O primeiro é um desconhecido – escreve e vai martelando beats –; o segundo, produtor, já tem no currículo uma colaboração de peso – ele deu uma ajudinha a Kendrick Lamar na feitura do enorme To Pimp a Butterfly. Os dois, NxWorries, acabaram de lançar o disco debutante, editado pela prestigiada Stones Throw: e Yes Lawd é merecedor de atenção; no mesmo pacote, embrulhadinho, sobeja ironia, sedução r&b, provocação hip-hop. “Link Up” foi a primeira amostra da colaboração deste duo – o vídeo já data de Março.

Como Yes Lawd acabou de aterrar, é (absolutamente) forçoso o link para uma das grandes malhas de 2016 que continua a ser ignorada – e que tem a peculiaridade de sacar descaradamente uma fracção de “Onda” feita em 1977 pelo brasileiro Genival Cassiano dos Santos, para a história conhecido só por Cassiano. “Onda” parece forçada a "hold up"; tudo uma questão de enquadramento; não é essa a verdadeira do história do sampling?

"Foolish Kids"
XamVolo
· POR Rafael Santos · 18 Out 2016 · 23:07 ·


Com 22 anos já foi capaz de algumas sérias reflexões artísticas. Este é um dos apercebimentos pessoais: A few years ago when I just started out, I held the mindset that the less of a ‘life’ you had, the more work you could put in to achieve what you desired. I still feel there’s some truth to that, but I now realise that having that ‘life’ is important because avoiding life experiences will eventually leave you with nothing to say . Chirality é o trabalho de estreia do londrino XamVolo.

É um EP de quatro canções em timbre soul assentes numa lenta estrutura hip-hop algo quebradiça, e é uma eloquente exposição, trabalhada e retrabalhada até atingir aquele ponto de melaço. Há muita dedicação, mas também há vida. A distinguir-se, uma perola da soul: “Foolish Kids” – canção surpresa em 2016, de uma competência inesperada, repleta de opções dignas de quem anda nisto de produzir música há anos.

"I Will Die"
A Place To Bury Strangers
· POR Paulo Cecílio · 15 Jul 2015 · 15:59 ·


Quem os viu por cá sabe bem do que são capazes estes meninos ao vivo. Com os A Place To Bury Strangers, é o volume do rock e não o rock em si aquilo que é levado ao extremo, numa cacofonia que tem tanto de assustador como de maravilhoso - levando-nos a pensar que poderíamos morrer felizes e surdos após um qualquer concerto seu. Os discos, esses, têm-se aguentado por entre as demais ofertas no campo do up to eleven, existindo lado a lado com os melhores nu gazers e a malta do noise rock. Não dizemos "suplantam", porque um vinil, um CD ou um simples ficheiro .mp3 não faz juz ao bom nome dos APTBS. Excepção feita a esta "I Will Die", a faixa que encerra o seu último disco - Transfixiation -, portento de noise que relembra os excelentes Rallizes Dénudés e quase que nos faz cortar o braço à facada de forma a que a mensagem da canção não se perca. A violência nunca se escutou tão bem.

"Disintegration"
Big Blood
· POR Paulo Cecílio · 14 Jul 2015 · 11:35 ·


Não se pode dizer nunca que uma versão de uma canção é mais fraca do que a original. Tal seria colocar em causa décadas de história da pop, do rock, do r&b e quejandos, e impediria o aparecimento e o crescimento de inúmeros performers, de 1940 até hoje, que mesmo não sendo eles próprios criadores de canções colocaram o seu cunho pessoal em muito do que cantaram, ao ponto de o seu nome se ter tornado indelével das mesmas. Pouca gente haverá, por exemplo, e transportando a questão para um tempo mais recente, que ache que a "Hurt" de Johnny Cash é mais fraca que a original dos Nine Inch Nails. Uma versão permite a um original todo um novo fôlego. Como esta "Disintegration", pelas mãos do casal folk Big Blood, existente desde 2006 e que disponibiliza toda a sua obra, gratuitamente, no Bandcamp.

Se a versão original dos The Cure era uma ode à miséria adolescente despoletada por um romance perdido, os Big Blood mantiveram o sentimento mas conferiram-lhe toda uma nova toada, muito mais adulta no seu lacrimejar, muito mais simples nos seus arranjos - por oposição ao melodrama - e muito mais impactante do que com Robert Smith (blasfémia, nós sabemos). Estamos ainda a meio de Julho, mas nenhuma outra canção de amor bateu tão forte como esta, em 2015. Independentemente do peso que o nome dos britânicos tem, esta canção é agora, também ela, pertença dos Big Blood.

"T-Shirt Weather"
Circa Waves
· POR Paulo Cecílio · 13 Jul 2015 · 12:18 ·


Não mintam a vós mesmos: sabem que adoram estes exemplos de indie adolescente e feito sem preocupações, quando é uma fórmula pop aquela que os moçoilos ou moçoilas das bandas, sejam elas quais forem, adoptam e transformam naquele género de canções que, por entre os calções e a praia, fazem ano após ano as delícias de todo um verão. Este ano, calhou aos Circa Waves fazerem o hino ideal para Julho/Agosto de 2015; uma canção tão óbvia e tão deliciosa, power pop que não precisa de explicações para ser feliz e, claro, um refrão orelhudo a ditar a tendência (spoiler: é para usarem t-shirts). Não é preciso mais do que isto para que fiquemos com um enorme sorriso na cara. No verão podemos ser menos intelectuais, certo?

"Reflections"
Django Django
· POR Paulo Cecílio · 13 Jul 2015 · 11:46 ·


Os rapazes evoluíram. Já não são uma banda em torno da qual se cria um hype inexplicável, fruto do poder da Internet e do passa-palavra; já não são um simples amor de verão, dos que marcam presença em festivais e que posteriormente nunca mais dão sinais de vida; e, sobretudo, já não são a banda de "Waveforms", canção infecciosa no bom e no mau sentido que conquistou a cabeça de muita gente. Os Django Django regressam em 2015 com um álbum fabuloso, mistura de pop e rock e psicadelismo e electrónica que, acaso tivesse sido o seu primeiro registo, não lhes teria granjeado nem metade dos fãs - é demasiado bom para cair nas teias da fama. Born Under Saturn faz dançar, eventualmente fará gemer, dormir não faz, e tem em "Reflections" e no seu beat 4/4 o melhor exemplo das novas roupas do quarteto londrino. Peçamos-lhes então desculpa pelo que dissemos em 2012.

"I Break Mirrors With My Face In The United States"
Death Grips
· POR Paulo Cecílio · 14 Mai 2015 · 23:55 ·


Desde a edição de No Love Deep Web que os Death Grips têm perdido um pouco a sua capacidade de nos espantar - Exmilitary e The Money Store mantêm-se como excelentes álbuns -, com o aborrecido Government Plates quase que a colocar um ponto final no futuro risonho que muitos previam para o grupo. Em nada contribui, claro, o facto de se terem tornado cada vez mais um meme na Internet e cada vez menos uma banda digna desse nome. O sucessivo adiamento de Jenny Death, a segunda parte de The Powers That B, os concertos cancelados e o anúncio de que estariam para acabar também não ajudaram. Mas eis que chega 2015 e, após termos podido picar Niggas On The Moon no ano passado, metade que foi crescendo com o tempo e que se calhar soa melhor se escutado de uma empreitada juntamente com o seu siamês, os Death Grips voltam à carga com o hip-hop agressivo, quase metálico, que lhes granjeou um enorme grupo de admiradores. Por contraste com a sobriedade de Government Plates, The Powers That B, disco duplo, é uma granada rebentando na boca de Stefan Burnett, aqui de regresso à sua melhor garganta. Como momento mais alto da hora e vinte de ambos, "I Break Mirrors With My Face In The United States": assombrosa, demolidora, diatribe rap sem género que apela à mesma coisa que apelava Exmilitary e The Money Store: a uma guerra civil sem limites, ao caos e à violência. I don't care about real life... Bem regressados sejam, porra.

"Summer Of Love"
Waxahatchee
· POR Paulo Cecílio · 09 Abr 2015 · 12:44 ·


Falta algo a Ivy Tripp para ser realmente um disco grandioso. As canções estão lá, quer sobre os heartbreakers quer sobre os heartbroken, na toada folk / grunge que bem necessitam, e a voz de Katie Crutchfield é francamente bonita, mas o que tem em sonoridade falta-lhe em osso, essa qualidade invejável que, nos últimos anos, mulheres como Scout Niblett, Angel Olsen ou Marissa Nadler têm sabido exemplificar. Mas Ivy Tripp merece uma menção honrosa e um lugar especial nos nossos corações quanto mais não seja por "Summer Of Love", pequeno ditame de dois minutos e vinte sobre, claro está, essa estupidez chamada amor - ou, melhor ainda, sobre o absurdo que é perder um amor. A ternura contida neste refrão simplicíssimo (The summer of love is a photo of us...) é demasiada para um mundo tão cínico e desprovido de sentido. Alguém que abrace a Katie e lhe diga que vai acabar tudo bem. Apesar de - e todos nós o sabemos - isso não ser de todo verdade.

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