CANÇÕES
"Dub De Uma Nota Só"
Inês Duarte
· POR Paulo Cecílio · 01 Ago 2017 · 22:35 ·
Há já algum tempo que a Arctic Dub, editora baseada no Porto, se tem dedicado a partilhar - como o próprio nome indica - diversas explorações dub nas suas mais diversas formas, criadas por vários artistas. Em Maio, editaram a sua terceira compilação, apropriadamente intitulada Arctic Dub V3, que reúne nomes como Naus (e a óptima "Saturnia"), The Positronics, Dave Wesley e Echonaut. No entanto, pertence a Inês Duarte, produtora e DJ lisboeta, o ponto mais alto desta mesma compilação: "Dub De Uma Nota Só" poderia remeter para o samba ou para a bossa nova, acima de tudo pelo título, mas ao invés aposta no tradicional (e sempre bom) 4/4 polvilhado com melodias a roçar o house antes de explodir de magia a meio, traçando um daqueles cenários que tanto nos agradam na música electrónica - o de um carro percorrendo uma cidade imersa na sua própria noite, à procura de sinais de vida ou, pelo menos, de gente acordada. E, estima-se, também resulta na perfeição em pistas de dança de leste a oeste.

"Shape Of You"
Ed Sheeran
· POR Paulo Cecílio · 23 Jun 2017 · 12:11 ·


Há alguns anos, sob o olhar atento de um verdejante Rock In Rio, Ed Sheeran desceu ao planeta Portugal armado com as canções de x, álbum que foi responsável pela sua transformação numa estrela pop à escala mundial. Qualquer pessoa que tenha lá estado, de mente aberta e um pouco de conhecimento musical, sabe que o concerto de Sheeran foi uma das maiores poças de vómito que o grande Deus bulímico despejou sobre a nação - levando-nos a pensar, mas do que uma vez, se os ingleses e seu humor refinado não estariam certos em relação aos ruivos enquanto embaixadores de todo o mal na terra. Fast-forward: Ed Sheeran continua ruivo, continua a dar concertos e a fazer música de merda. Excepção feita a "Shape Of You". Nem mesmo o indiezeco mais empedernido será capaz de acreditar que daquela cabeça e rosto esmurráveis tenha saído uma canção tão boa, mas o facto é que aconteceu; "Shape Of You" é ao mesmo tempo delicada e dançável, dá ao mesmo tempo vontade de beber e de foder, convida-nos para uma temporada nas Baamas e outra nas discotecas mais badaladas de Nova Iorque, quiçá para dar dois beijinhos a Rihanna - para quem a canção foi originalmente criada, o que teria feito sentido, não só porque a letra é sexopop directo mas também pela sua ginga caribenha. Agora que a EDM já morreu (felizmente), os êxitos do hip-hop se tornam cada vez mais cliché (morre, Drake, morre), e uma onda latina ameaça cobrir o planeta com litros e litros de azeite não-virgem, "Shape Of You" soa a um delicioso contrabalançar do universo. A algo sobretudo diferente. E o vídeo também é hilariante. É já a segunda canção mais ouvida do Spotify; devia ser a mais ouvida do universo.

"Céu Azul"
Lucía Vives
· POR Paulo Cecílio · 03 Abr 2017 · 15:01 ·
© Diogo Rodrigues

A "cena" musical portuguesa, nos dias que correm, parece consistir em três simples pedras da calçada: damos um pontapé numa e de lá sai uma banda de stoner, damos um pontapé noutra e sai uma de rock psicadélico, e a pedra final fica reservada para dezenas e dezenas de cantautores com gosto pela nossa própria língua. Na maior parte das vezes, a pedra chutada deixa que a barata saia do solo. Mas, noutras, e cada vez mais raras, é um fio de ouro ou uma moeda de prata aquilo que se esconde sob o calcário. Assim é com Lucía Vives e com a Xita Records à qual pertence, colectivo de miúdos que, inspirados pela Fetra, tem feito coisas realmente extraordinárias.

Lucía e não Lúcia, que também pertence às maravilhosas Ninaz, "estreou-se" recentemente a solo com um EP em modo grind: três canções apenas, e em apenas cinco minutos, mas que deixam antever um mar de possibilidades pop, tal é a força dos arranjos. Destas, destaca-se "Céu Azul", ditame pegajoso e delicioso sobre o romance, sobre a juventude, sobre Lisboa, sobre aquilo que de melhor há numa tarde de verão: uma imensidão de azul sobre as nossas cabeças. É grande, claro, é radiofónica, obviamente, e será grande, certamente.

"Fuglekongen"
Bjørn Torske
· POR Rafael Santos · 24 Out 2016 · 12:17 ·


Bjørn Torske não é leal a ninguém. Nem tal deseja! E seguidores não lhe faltam. Ele faz o que quer. Modas? Foda-se! Nada com ele. Amiúde contraria quem acha que ele é capaz da excelente excelência. Ambiguidade: ele tem uma grandeza que, nem quem gosta mesmo dele, é capaz da absoluta certeza. Há coisas amalucadas; diarreias; produções enviusadas – de certeza saídas directamente do manicómio de Ryan Murphy – que criam algumas instintivas resistências.

Bjørn Torske é o gajo mais sério que há… que é indomável. Estrelinha-de-poupa: penacho pequeno, penas douradas. “Fuglekongen” é a estrelinha: é de uma ave que falamos neste momento, ou do que ele quer falar, ou musicar, ou atrofiar simplesmente. Porque Bjørn quer tanto ritmo neste tema novo para levantar voo, desconhece-se. “Fuglekongen” é ele a ser bicho bravo, que observa, excitado. E reporta, sem querer saber de quem perde tempo a idolatrizá-lo, ou a tentar. Basicamente, este gajo é difícil de perceber! Mas é excitante. Por isso, acabamos sempre por voltar a ele.

"Link Up"
NxWorries
· POR Rafael Santos · 18 Out 2016 · 23:12 ·


NxWorries é Anderson.Paak e Knxlwledge. O primeiro é um desconhecido – escreve e vai martelando beats –; o segundo, produtor, já tem no currículo uma colaboração de peso – ele deu uma ajudinha a Kendrick Lamar na feitura do enorme To Pimp a Butterfly. Os dois, NxWorries, acabaram de lançar o disco debutante, editado pela prestigiada Stones Throw: e Yes Lawd é merecedor de atenção; no mesmo pacote, embrulhadinho, sobeja ironia, sedução r&b, provocação hip-hop. “Link Up” foi a primeira amostra da colaboração deste duo – o vídeo já data de Março.

Como Yes Lawd acabou de aterrar, é (absolutamente) forçoso o link para uma das grandes malhas de 2016 que continua a ser ignorada – e que tem a peculiaridade de sacar descaradamente uma fracção de “Onda” feita em 1977 pelo brasileiro Genival Cassiano dos Santos, para a história conhecido só por Cassiano. “Onda” parece forçada a "hold up"; tudo uma questão de enquadramento; não é essa a verdadeira do história do sampling?

"Foolish Kids"
XamVolo
· POR Rafael Santos · 18 Out 2016 · 23:07 ·


Com 22 anos já foi capaz de algumas sérias reflexões artísticas. Este é um dos apercebimentos pessoais: A few years ago when I just started out, I held the mindset that the less of a ‘life’ you had, the more work you could put in to achieve what you desired. I still feel there’s some truth to that, but I now realise that having that ‘life’ is important because avoiding life experiences will eventually leave you with nothing to say . Chirality é o trabalho de estreia do londrino XamVolo.

É um EP de quatro canções em timbre soul assentes numa lenta estrutura hip-hop algo quebradiça, e é uma eloquente exposição, trabalhada e retrabalhada até atingir aquele ponto de melaço. Há muita dedicação, mas também há vida. A distinguir-se, uma perola da soul: “Foolish Kids” – canção surpresa em 2016, de uma competência inesperada, repleta de opções dignas de quem anda nisto de produzir música há anos.

"I Will Die"
A Place To Bury Strangers
· POR Paulo Cecílio · 15 Jul 2015 · 15:59 ·


Quem os viu por cá sabe bem do que são capazes estes meninos ao vivo. Com os A Place To Bury Strangers, é o volume do rock e não o rock em si aquilo que é levado ao extremo, numa cacofonia que tem tanto de assustador como de maravilhoso - levando-nos a pensar que poderíamos morrer felizes e surdos após um qualquer concerto seu. Os discos, esses, têm-se aguentado por entre as demais ofertas no campo do up to eleven, existindo lado a lado com os melhores nu gazers e a malta do noise rock. Não dizemos "suplantam", porque um vinil, um CD ou um simples ficheiro .mp3 não faz juz ao bom nome dos APTBS. Excepção feita a esta "I Will Die", a faixa que encerra o seu último disco - Transfixiation -, portento de noise que relembra os excelentes Rallizes Dénudés e quase que nos faz cortar o braço à facada de forma a que a mensagem da canção não se perca. A violência nunca se escutou tão bem.

"Disintegration"
Big Blood
· POR Paulo Cecílio · 14 Jul 2015 · 11:35 ·


Não se pode dizer nunca que uma versão de uma canção é mais fraca do que a original. Tal seria colocar em causa décadas de história da pop, do rock, do r&b e quejandos, e impediria o aparecimento e o crescimento de inúmeros performers, de 1940 até hoje, que mesmo não sendo eles próprios criadores de canções colocaram o seu cunho pessoal em muito do que cantaram, ao ponto de o seu nome se ter tornado indelével das mesmas. Pouca gente haverá, por exemplo, e transportando a questão para um tempo mais recente, que ache que a "Hurt" de Johnny Cash é mais fraca que a original dos Nine Inch Nails. Uma versão permite a um original todo um novo fôlego. Como esta "Disintegration", pelas mãos do casal folk Big Blood, existente desde 2006 e que disponibiliza toda a sua obra, gratuitamente, no Bandcamp.

Se a versão original dos The Cure era uma ode à miséria adolescente despoletada por um romance perdido, os Big Blood mantiveram o sentimento mas conferiram-lhe toda uma nova toada, muito mais adulta no seu lacrimejar, muito mais simples nos seus arranjos - por oposição ao melodrama - e muito mais impactante do que com Robert Smith (blasfémia, nós sabemos). Estamos ainda a meio de Julho, mas nenhuma outra canção de amor bateu tão forte como esta, em 2015. Independentemente do peso que o nome dos britânicos tem, esta canção é agora, também ela, pertença dos Big Blood.

"T-Shirt Weather"
Circa Waves
· POR Paulo Cecílio · 13 Jul 2015 · 12:18 ·


Não mintam a vós mesmos: sabem que adoram estes exemplos de indie adolescente e feito sem preocupações, quando é uma fórmula pop aquela que os moçoilos ou moçoilas das bandas, sejam elas quais forem, adoptam e transformam naquele género de canções que, por entre os calções e a praia, fazem ano após ano as delícias de todo um verão. Este ano, calhou aos Circa Waves fazerem o hino ideal para Julho/Agosto de 2015; uma canção tão óbvia e tão deliciosa, power pop que não precisa de explicações para ser feliz e, claro, um refrão orelhudo a ditar a tendência (spoiler: é para usarem t-shirts). Não é preciso mais do que isto para que fiquemos com um enorme sorriso na cara. No verão podemos ser menos intelectuais, certo?

"Reflections"
Django Django
· POR Paulo Cecílio · 13 Jul 2015 · 11:46 ·


Os rapazes evoluíram. Já não são uma banda em torno da qual se cria um hype inexplicável, fruto do poder da Internet e do passa-palavra; já não são um simples amor de verão, dos que marcam presença em festivais e que posteriormente nunca mais dão sinais de vida; e, sobretudo, já não são a banda de "Waveforms", canção infecciosa no bom e no mau sentido que conquistou a cabeça de muita gente. Os Django Django regressam em 2015 com um álbum fabuloso, mistura de pop e rock e psicadelismo e electrónica que, acaso tivesse sido o seu primeiro registo, não lhes teria granjeado nem metade dos fãs - é demasiado bom para cair nas teias da fama. Born Under Saturn faz dançar, eventualmente fará gemer, dormir não faz, e tem em "Reflections" e no seu beat 4/4 o melhor exemplo das novas roupas do quarteto londrino. Peçamos-lhes então desculpa pelo que dissemos em 2012.

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