Heineken Paredes de Coura 2006
Praia Fluvial do Tabuão
14-17 Ago 2006
“The rain falls hard on a humdrum town, this town has dragged you down.” - Morrissey

Chuva. Água caída do céu. Das nuvens. Numa cidade “humdrum”. “Humdrum” é banal, sem variedade, monótono. Paredes de Coura é uma vila monótona, tirando quatro ou cinco dias a meio de Agosto. Paredes de Coura é uma terra onde chove muito, mesmo em Agosto. Isso parece ter marcado a edição de 2004 do festival, e marcou também a de 2006.
Paredes de Coura é um festival que gosta de se afirmar como uma alternativa a todos os outros festivais ditos “normais” de verão. Um festival onde as pessoas vão apenas pela música e não pelo ambiente. Esta é uma meia-verdade. Há gente que vai lá para o ambiente, como em qualquer outro festival, como é óbvio, e há gente que vai lá para ser vista e para os comes e bebes gratuitos, como exemplificado pela enchente na área VIP no dia 14, e como exemplificado pela comida desaparecer em segundos. Mas é, sem dúvida, o melhor festival de verão de música não-assim-tão-alternativa, algo entre o mainstream e o alternativo, nunca chegando a ser assim tanto para a minoria que diz cobrir.
O cartaz deste ano não tinha a força do do ano passado, no geral, apesar de nomes bastante fortes. Havia bastantes nomes fracos, mas nunca fracos-fracos, um meio-termo entre algo inenarrável e algo que podia ser bom. Isto nota-se por bandas como os White Rose Movement, os Gomez, os Madrugada, os Warren Suicide, os Cat People, os Selfish Cunt, que compraram, ouviram e interiorizaram os discos certos, mas não souberam bem o que fazer com eles. Nunca chegam a ser maus-maus, são sempre melhores que muita coisa, mas isso não é suficiente e não é desculpa.

15/08

Depois de concertos enfadonhos (e alguns até irritantes, como é o caso dos Warren Suicide) no palco after-hours na noite de segunda-feira, o festival arrancou definitivamente ao pé do rio Tabuão, na relva, com a Zé Eduardo Unit. Zé Eduardo auto-descreve-se como um bandido do jazz português, veste, como é comum nas edições do Jazz da Relva, com uma t-shirt do rock’n’roll (outros usam t-shirts de Nirvana, ele usa uma t-shirt do mítico clube nova-iorquino CBGB’s) e faz versões com piada de Pedro Abrunhosa. Uma óptima forma de começar o dia com uma formação de luxo ao pé da relva.

White Rose Movement

Têm cortes de cabelo desgrenhados, daqueles que demoram horas e horas a conseguir. Alguns deles até têm o cabelo desgrenhado. Têm camisas abotoadas até ao último botão e calças pretas justas. Na cabeça deles, são a banda mais cool do mundo. Só que alguém esqueceu de lhes avisar que já não faz sentido, se é que alguma vez fez, o revivalismo barato e inconsequente dos anos 80. Podem desculpar-se, como os Bravery se desculparam o ano passado, com fazerem música para dançar. E fazem, e até certo ponto até são bem sucedidos nisso. Mas, tanto na pose quanto na música, esforçam-se demasiado para fazer algo que nunca conseguirão fazer.
O vocalista canta sempre num irritante falsete, a bateria nunca muda, os riffs de guitarra são aborrecidos, os de baixo, quando existem, são tão mal roubados aos de Peter Hook (Joy Division/New Order) que se torna insultuoso, as melodias enfadonhas de sintetizador foleiro não se desculpam só porque há uma rapariga minimamente atraente a tocá-las e, basicamente, tal como em qualquer outra banda que se dedique à enésima reciclagem da new wave, não há canções para justificar isso. Só têm tudo no ponto para fazer dançar.
Têm refrões com “tururu” e “aiaiaiai” e os seus sons “futuristas” que já eram datados na altura em que apareceram, ou seja, há muitos, muitos anos, conseguem transformar 15 minutos numa hora tormentosa. Dizem ser este o festival favorito de sempre deles, o que pode bem ser verdade, tendo em conta quanto as bandas parecem felizes por lá tocar. É pena que isso não se faça sentir na música.

Gomez

Os Gomez são ingleses mas gostam de se fazer passar por americanos. Do fingerpickin’ na guitarra eléctrica à voz rouca (e enfadonha) bluesy, aproveitam as tradições da música da América profunda para a sua música. “I think we all need to dance, ladies and gentlemen”, diz um dos três vocalistas que vão rodando de acordo com as necessidadaes das canções. Mas ninguém dança propriamente. Até porque a música não convida a isso.
Em poucos anos, passaram de cabeças de cartaz para banda mais ou menos de abertura, o que mostra como os seus fãs não são assim tão fiéis. Aliás, basta uma visita a uma qualquer loja de discos em segunda mão para confirmar isso: é sempre notória a quantidade de discos dos Gomez à venda. Há fingerpickin’ competente em guitarra eléctrica, há uma espécie de theremin que até funciona bem, há saxofones sintetizados que não, riffs rock’n’roll, mas não há nada de muito consistente na música dos Gomez. O tal vocalista farta-se de pedir às pessoas para se moverem ao som da música, mas continua a não ser bem sucedido. Há momentos interessantes, mas nem todos o são, e ver os Gomez acaba por ser uma experiência algo enfadonha. Ninguém se lembra bem qual era o fascínio que esta banda tinha, e, tal como os seus discos em segunda mão, continuarão a descer de escalão até serem totalmente esquecidos.

Madrugada

Há, num concerto dos Madrugada, um ambiente soturno, escuro, e não é só por os seus membros se vestirem de preto. Há baterias musculadas, guitarras vagamente surf e, especialmente, uma massa indistinta de canções. Nem a melhor canção da banda nórdica, “Majesty”, soa diferente das outras ao vivo, aquela que é, em single, uma anomalia na sua discografia. Não é que sejam realmente maus, mas podiam ser melhores, e isso faz toda a diferença. Não têm, neles, algo que os distinga, tirando um ou outro momento, e não são chamariz para ninguém. Servem, pura e simplesmente, para encher o dia.

Broken Social Scene

Os Broken Social Scene são um colectivo de Toronto. Têm 11 membros fixos, mas estes variam e podem ser substituídos. Mas há, neles, duas estrelas, dois membros do sexo feminino que são demasiado conhecidos para poderem fazer parte do colectivo a tempo inteiro. São Leslie Feist, conhecida a solo como Feist e Emily Haines, vocalista dos Metric. Há-de ser sempre difícil juntar tanta gente com tantos projectos, ainda para mais quando se toca num festivalzeco no meio do nada em Portugal onde são a quarta banda do dia. Isto acontece em qualquer caso em Portugal, se os também canadianos New Pornographers viessem cá, nunca viriam com Dan Bejar (apesar de já cá ter estado como Destroyer) e Neko Case. Temos de resignarnos a esse facto.
Só trazem três guitarras, mas não são realmente precisas mais. No Conan O’Brien tinham cinco e este pediu-lhes mais: “You need more guitars!” Mas alguém disse “You don’t need more guitars!” em Paredes de Coura e isso fazia todo o sentido. Sem a voz de Feist e de Haines, perde-se um bocado, e é por isso que os Broken Social Scene não ganham o prémio de melhor concerto do festival. Não é que não se esforcem, mas nunca conseguiriam fazê-lo.
Brendan Canning é a cara chapada do comediante Andy Dick, só que com barba. Algures durante o concerto, fala de amor entre homens, e diz que não é um festival até um homem em tronco nu saltar para cima de um amigo. E talvez tenha razão. A banda começa com “Jimmy”, um tema novo, com uma introdução da secção de metais - há dois trompetistas e um trombonista, que, quando não são necessários, tocam outras coisas, sempre num ambiente comunal - que evolui para um riff lento de guitarra e bateria relaxada mas musculuada, com falsete no refrão, passando logo para “Shoreline (7/4)”, algo difícil de fazer sem a voz de Feist, mas que não deixa de ser um belíssimo single pop. A instrumentação não é a mesma dos discos, onde usam banjos e outros instrumentos de cordas menos comuns. Mas funciona na mesma com as três guitarras, já que quase todos os temas têm arranjos diferentes ao vivo. “Fire Eye’d Boy”, por exemplo, ganha um “oooh” bonito antes do refrão. A banda pede palminhas em “Stars and Sons” e “Superconnected” tem uma muralha de guitarras que impõe definitivamente respeito.
Têm um bom baterista, capaz de manter os ritmos fora do comum e ainda pôr toda a gente a bater o pé ou a abanar-se, é esse o caso em bangers absolutos como “Shoreline” ou “K.C. Accidental” (melhor riff de três notas e freakouts de guitarra de sempre?), que fecha o concerto de forma sublime. Andrew Whiteman, o guitarrista que é também responsável pelos Apostle of Hustle, arma-se demasiado em guitar hero, com solos em praticamente tudo, alguns que funcionam, outros que nem tanto. Lisa Lobsinger, a cantora que serve de substituta às outras duas, safa-se bem, mas nunca é a mesma coisa. Como seria a versão de “Anthems for a Seventeen Year-Old Girl”, uma das melhores canções da banda, com a voz de Emily Haines ao vivo? Não se sabe, mesmo em disco não é a própria voz de Haines, está filtrada, e nunca será possível aproximar-se da gravação. Mas mesmo assim, não deixa de ser uma experiência avassaladora, o refrão de “park that car, drop that phone, sleep on the floor, dream about me” e a voz de Kevin Drew, o líder da banda, a ajudar, sussurrada. Há, nessa canção, algo a que se pode chamar um “crescendo canadiano”, no qual as bandas canadianas são exímias, uma explosão que se vai construíndo e é sempre uma delícia de sentir.
Mesmo sem membros-chave, os Broken Social Scene são monstros, uma força da natureza, algo indescritível. Um concerto mais fraco deles, como este, não é um concerto mau, até pelo contrário. É uma experiência extremamente positiva e é louvável poder ver-se em Portugal, apenas um ano depois do lançamento de Broken Social Scene, o terceiro álbum de originais, uma das melhores bandas de indie rock da actualidade, ou de qualquer outro género. Ainda por cima, sabendo que estão prestes a entrar num hiato. Portugal foi abençoado.

Broken Social Scene © Luís Bento

Morrissey

Steven Patrick Morrissey nunca foi boa pessoa. Mas, por outro lado, deu sempre tanto ao mundo e ajudou tantas vidas que isso parece desculpar quase tudo. É um dos maiores poetas vivos, uma das melhores vozes da música pop de sempre, e tem a arrogância e a hipocrisia para prová-lo. Alimenta-se dos fãs, dos fãs que o adoram intensamente, e transforma aquilo que para o comum dos mortais é uma fraqueza - a solidão - numa das suas maiores forças. Ao crescer, devia ser alguém com pouca auto-estima, mas alguém que conseguiu dar a volta a isso. Quando faz, algures durante o concerto, um comentário auto-depreciativo, não é como se não tivesse noção de que todas aquelas pessoas estão ali para o ver. Não é como se não soubesse que o adoram como adoram pouca gente. É apenas um resquício disso. É exactamente o mesmo que Jon Stewart exclamar, em plena apresentação dos óscares, “I’m such a loser.” Morrissey canta a dor e o sofrimento e a solidão e o não ser amado, mas tem uma banda com t-shirts a dizer “Morrissey”. É esta a dicotomia que atravessa toda a sua obra: a linha ténue entre a falta e o excesso de amor-próprio. Então, quando pede, num português pobre, “Paredes de Coura, ajuda-me”, não está mesmo a pedir ajuda. Não precisa de ajuda para nada. É, para muita gente, o mais perto que existe de Deus, e sabe jogar da melhor forma com isso. Entra ao som de “How Soon Is Now?” e, apesar da guitarra de Johnny Marr ser inimitável, a banda não se safa mal a tocar os temas dos Smiths. E são esses os temas que fizeram de Morrissey o que ele é, por muito bons que sejam alguns dos seus discos a solo - e alguns são mesmo bons - ou as suas canções, serão sempre relegados para segundo plano. O que é e não é uma pena.
A banda soa muito mais confortável e melhor a tocar os temas do último fôlego criativo do artista, que fizeram a maior parte do concerto, aquele que começou em 2004 com You Are The Quarry, como é óbvio, mais do que naqueles em que não sabe bem o que fazer, como os dos Smiths. Foi nesta altura que entrou definitivamente na idade adulta, entretanto fez 45 anos e passou de cantor das mágoas da juventude para crooner ao nível de Las Vegas, como exemplificado em Live At Earl’s Court. Claro que isto pode ter acontecido antes. O escritor Will Self, em 1995, deu a um perfil de Morrissey no The Observer o nome de “The king of bedsit angst grows up”. Mas estava a falar com um trintão e não com um quarentão. Morrissey parece ter ganho, nestes últimos anos, um charme e um carisma que não tinha antes, para além da sua voz ter melhorado, ficado ainda mais adulta. O que é estranho, visto que, quer se queira quer não, esta ter ficado para a História da pop com os Smiths.
Temos anónimos a tocar temas dos Smiths, não soam mal, porque quem os cantava está ali, mas não é bem a mesma coisa. Nunca poderia ser. Não têm nome porque o único nome que interessa é o de Morrissey, e é desta forma que o artista alimenta o culto. Mas também joga com isso, dizendo, quando apresenta a banda, que não tem nome. A passagem de nerd para superestrela não é um fenómeno anormal na pop, de Elvis Costello a David Byrne, de Rivers Cuomo a Kanye West, mas todos estes conseguem, lá do alto, manter algo que os remete para os tempos de juventude, para a adolescência estranha de fãs obsessivos de algo. Mas também, nada é normal em Morrissey. Há um solo de trompete mariachi algo livre em “The First of the Gang to Die”, o que é estranho, visto o gosto que Morrissey sempre teve, dos Smiths à carreira a solo, em usar sintetizadores que não devem muito ao bom gosto em vez dos instrumentos a sério, mas soa bem. E a sua voz também (se bem que ainda haja algumas desafinações ao vivo).
Morrissey está ali, em palco, magnificamente vestido, com uma presença inigualável, e alimenta-se e vive do amor que todas aquelas pessoas têm por ele. Porque um fã de Morrissey não é um fã de outro artista qualquer. É um fã dedicado, que conhece tudo, que vive e respira cada palavra, cada forma de verbalizar uma stiuação, um sentimento, um pensamento. Há, ali, fãs que estão pelos Smiths, mas também há, surpreendemente, uma camada jovem - sub-20 - que conhece de cor todos os temas de The Ringleader of the Tormentors, seja do single que passava em alta rotação nos ecrãs do Metro de Lisboa “You Have Killed Me” ou de “The Youngest was the Most Loved”, com o seu refrão de crianças a cantar “There is no such thing in life as normal”. E não há aqui nada de normal. Uma boa banda, uma voz maior do que a vida, e, sobretudo, uma presença fenomenal daquele que é o mais perto de Deus que alguma vez estas pessoas terão. E as pessoas entregam-se fortemente ao todo-poderoso que pode fazer o que quiser. Que faz o que quer.
Parece estar bem disposto. Faz comentários sobre o mundial de futebol, mas diz que Portugal não ganhou. Até parece importar-se com o público. Mas não. A meio de “Panic”, dos Smiths, a última canção, antes de pedir para enforcarem o DJ, Morrissey, um ateu, diz “Bye bye, god bless you” e sai do palco. Antes consegue, através de gestos, pedir à banda para parar de tocar. Entra no seu Mercedes e não volta mais. O público, que se tinha entregue totalmente, fica um pouco desiludido, mas este é o herói de toda a gente, é alguém que pode fazer o que quiser. E faz.

Morrissey © Luís Bento

Fischerspooner

Tiveram um êxito enorme em “Emerge”, um dos singles-chave do movimento electroclash. Só que, em 2006, ninguém quer saber disso. O electroclash provou-se um fenómeno extremamente limitado e datado e com muito pouca validade. Mas eles continuam por aí. Começam com uma versão dos Wire, “The 15th”, que funciona bem porque, basicamente, é uma óptima canção e nem eles a conseguem estragar. O resto é um espectáculo extremamente bem pensado e ensaiado, com uma forte componente visual, bailarinas e muita festa, mas com música enfadonha e aborrecida. Ninguém se lembra de nenhum tema dos Fischerspooner para além de “Emerge”, e há uma razão para isso. É a única canção memorável deles, e mesmo assim torna-se muito aborrecida à terceira ou quarta audição. Casey Spooner, vestido de uma forma inenarrável, deixa-a a meio, dizendo que é um artista e não pode tocar aquilo que as pessoas querem ouvir. Estaria a fazer troça de Morrissey? Não interessa, tem alguma piada, mas não muita. E, quando fecha o concerto com a versão completa desse tema, as pessoas continuam a rir-se da piada que são os Fischerspooner, mas pouco mais. Eles não se levam muito a sério, nem devemos nós levá-los muito a sério.

· 14 Ago 2006 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira e Nuno Catarino (Bauhaus)

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