The Vicious Five / Arctic Monkeys
Paradise Garage, Lisboa
18 Mai 2006
Os Arctic Monkeys são tão grandes que, com pouco mais de um ano de burburinho mediático e pouco mais de seis meses de verdadeira exposição mediática, já têm uma banda de tributo – os Antarctic Monkeys – e, à saída dos seus concertos, duas bancas improvisadas diferentes de venda de merchadising de contrafacção. Nada mau para quatro putos de de 19 ou 20 anos.

O que leva à histeria colectiva em torno da banda é difícil de explicar. Começou com as demos no MySpace, passou pela edição de um EP limitadíssimo que esgotou rapidamente, e depois pela edição do primeiro álbum, até chegar ao ponto a que chegou. Conta-se que, em Inglaterra, alguns pubs, para além dos habituais avisos de proibida a entrada a gente visivelmente alcoolizada ou a animais, há proibição de entrada a fãs de Arctic Monkeys. Concertos esgotados em pouco tempo em todo o lado, vídeos em constante rotação na MTV, respeito da crítica e do público, o disco de estreia mais vendido de sempre em Inglaterra, uma verdadeira conquista de alguma fatia do público norte-americano que é sempre difícil para as bandas britânicas, etc., são algumas das coisas que têm acontecido à volta deles.

Uma coisa é o NME, o semanário britânico que é conhecido pelo entusiasmo extremo com que recebe qualquer banda que soe remotamente parecida com a linhagem pós-punk do final dos anos 70 e princípio dos anos 80 ou com o rock britânico de qualquer altura, pôr o disco de estreia dos Arctic Monkeys, Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, em quinto lugar na sua lista dos melhores álbuns de sempre uma semana após o seu lançamento. Outra coisa bem diferente é ter críticos como Kelefa Sanneh, do New York Times, ou Simon Reynolds, autor de livros como Generation Ectasy ou Rip It Up And Start Again e uma carreira demasiado extensa para enumerar aqui, a entrarem no jogo de considerá-los a salvação do rock moderno ou algo parecido. Isto tudo por causa de um álbum que nem é assim tão bom, é até inconsistente e desequilibrado.

Mas o público parece não querer saber. E não é só em Inglaterra, em que o grande trunfo da banda é provavelmente ser igual a muitos outros adolescentes de classe trabalhadora. Portanto, pode ser que a grande mais-valia deles seja mesmo não terem mais-valias, não serem únicos. Tal como Mike Skinner, nos seus The Streets (pelo menos no início), arranjaram uma maneira perfeita de encapsular em canções de dois ou três minutos o modo de vida britânico. Se isto explica a histeria em torno deles em Inglaterra, ainda não explica a histeria em torno deles em Portugal.

Os bilhetes estão esgotados há um mês e meio, sensivelmente, pouco passa das nove e o Paradise Garage já está quase cheio. Em todo o lado é possível ver crianças, com pouco mais ou pouco menos anos que a banda que irá tocar daqui a pouco, à espera do concerto. Há um rapaz com gel no cabelo, espigado, com óculos de aros de metal um pólo às riscas azuis e brancas, que começará a saltar intensamente ao som da banda de abertura, os portugueses Vicious Five como se fosse o primeiro concerto a que assistia em toda a sua vida. O resto do público, porém, não será tão receptivo.

Começam com o mesmo acorde de guitarra repetido algumas vezes, acompanhado pela bateria e pelo baixo, para uma explosão de som que irá transformar-se em “Blitzkrieg Bop” dos Ramones. Logo ali nota-se que uma das guitarras está com um som péssimo, fruto talvez do descanso ou da sabotagem do técnico de som, algo que será decisivo para o sucesso da banda ao longo do concerto. Alie-se a isso o total desconhecimento do público tanto da banda que está em palco como dos Ramones, sendo a única resposta positiva de todo o público ao som de uma versão de “Fight For Your Right (to Party)” dos Beastie Boys, mais ou menos como fizeram duas semanas antes na Galeria Zé dos Bois.

Os Vicious Five são uma boa banda ao vivo, com a garra do vocalista Joaquim Albergaria, bons riffs, boas letras, poder qb, mas aqui têm de lutar contra o mau som e contra os fãs de Arctic Monkeys que não querem, de todo, saber deles. As macacadas habituais do vocalista e as suas piadas não estão no seu melhor, recorrendo até este à sempre dispensável piada do “Somos os Vicious Five, mas não se vão embora, fiquem aí para os Arctic Monkeys”. Ouvem-se os Refused e os At The Drive-In em alguns momentos, mas ouve-se sobretudo uma banda fora do seu habitat natural (menos competente que o usual, com alguns pregos altamente óbvios), posta ali repentinamente, com um público que infelizmente não sabe o que fazer com ela.

Há música ridícula a sair das colunas do Paradise Garage, violinos sintetizados horríveis, numa introdução péssima para qualquer banda, mas os Arctic Monkeys entram em palco como se fosse a entrada mais triunfal de todos os tempos. Começam, curiosamente, exactamente da mesma maneira que a banda de abertura. Mas tudo mudou, especialmente porque há muito mais gente a fazer por isso: há luzes, há bom som, há roadies a afinar os instrumentos, há, sobretudo dinheiro, mesmo que sejam uma banda mais nova, tanto em termos de idade como em termos de banda e experiência noutras bandas, que os Vicious Five. Pode-se até dizer que os Vicious Five procuram a infância perdida (ver nome – Kid City -das noites mensais no Clube Mercado organizadas por membros da banda), já tendo passado a adolescência há uns anos, enquanto os Arctic Monkeys ainda a estão a viver, querendo passá-la demasiado depressa agora com a fama.

Três dos quatro membros usam pólos com golas levantadas (o baterista é o único de t-shirt), basicamente como qualquer adolescente inglês. O baixista, Andy Nicholson, parece um jogador de rugby entroncado, como alguns dos membros do público. Alex Turner, o vocalista e guitarrista, é visivelmente novo, uma criança e uma escolha altamente improvável para uma das maiores estrelas de rock do ano. Usa a guitarra quase no peito e não no tronco, evocando de certa forma Ian Curtis, que morreu exactamente há 26 anos atrás, mas não emulando a sua música (o que é extremamente positivo hoje em dia, conseguir a atenção do NME sem emular os Joy Division).

Mas se há coisa que a fama instantânea fez aos Arctic Monkeys, para além da arrogância e da forma negativa de lidar com a ribalta, foi transformá-los numa boa banda ao vivo. Aí não entram só os factores exteriores à banda, entra também a própria banda, com uma boa entrega em palco e uma forma irrepreensível de tocar os seus temas. Para além dos vinte riffs por segundo que são uma das suas mais-valias, ao vivo tocam muito depressa, mesmo, fazendo com que o público, que conhece intimamente cada letra e cada pedaço de música, salte alegremente e faça o chão tremer. Há também mosh e crowd-surfing, mais pela rapidez e pelo volume da coisa do que pelo seu peso (o mais pesado a que chegam, para além dos riffs poderosos pontuais, é uma muralha de guitarras mais reminiscente do shoegazing do que do metal).

Do pós-punk original que é provável nunca terem ouvido (decerto cresceram com uma dieta de britpop dos anos 90 e revivalismo rock’n’roll e pós-punk dos anos 2000), retiveram as promiscuidades com outros estilos: há funk e música jamaicana, ska, aqui e ali, mas muito à sua maneira, há riffs quase arabescos (como os aborrecidíssimos Kaiser Chiefs usaram no ano passado), mas não há nos Arctic Monkeys um sentido de história do rock’n’roll, há uma absorção que parece não ser consciente de muitas coisas diferentes. Isto faz deles um produto inteiramente dos anos 2000, da cultura e da vida da classe trabalhadora branca britânica desta década.

O público responde de uma forma entusiástica às canções da banda, e a tudo o que Alex Turner diz entre os temas. É um público que visivelmente não liga muito à música, um público de classe média alta que nada tem a ver com a classe trabalhadora de onde saíram os Arctic Monkeys, o que torna a fama da banda em Portugal ainda mais estranha. Parece não estar habituado a ir a concertos (um “obrigado” de Turner recebe uma ovação tremenda, do estilo “ele falou a minha língua!”, só respondem àquilo que conhecem perfeitamente (surpresa: “I Bet That You Look Good on the Dancefloor” não obtém a resposta mais entusiástica da noite, esse prémio vai para “When The Sun Goes Down”), mas gostam mesmo da música e são genuinamente movidos por ela), tirando o ocasional festival (Sudoeste, Super Bock Super Rock) ou o ocasional concerto de Jack Johnson.

A banda toca novas canções, que não estão no disco, com letras como “Let’s leave before the lights come on” ou “And I suppose that’s the price you pay”, com várias mudanças como as do disco, riffs diferentes em todas as partes, baterias também diferentes, chegando até a uma parte quase tribal, o que pode ser confuso e mais do mesmo, mas que Turner canta o que e como sente, e, mais importante ainda, o que e como os britânicos sentem.
Pouco mais de uma hora depois do início, os Arctic Monkeys dão por terminada a sua estreia em terras portuguesas. Também não têm reportório para mais. Agora, neste momento, são uma das bandas mais famosas do mundo, com bons singles; um álbum desequilibrado e um bom potencial para o futuro. Mas também são demasiado novos, estão a crescer em público e isso raras vezes tem bons resultados. Pelo menos são bons ao vivo, sabendo dar ao público exactamente aquilo que ele quer, num espectáculo enérgico que enche as medidas dos fãs, quase sem falhas e com uma postura de quem já está nisto há muitos anos.
· 18 Mai 2006 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

Parceiros