Adriana Sá + Miguel Cabral + Jorge Serigado / António Jorge Gonçalves
Museu do Chiado, Lisboa
10 Mai 2006
Com uma existência relativamente recente, a associação Granular tem vindo a congregar os músicos portugueses dedicados a actividades sonoras menos lineares. Promovendo o exercício criador dos seus associados, desenvolvendo eventos (concertos, conferências, ciclos), a sua acção é cada vez mais visível. Depois de uma série de actividades, esta associação que reúne gente das áreas da música improvisada e experimental organiza agora o ciclo “Der Gelbe Klang (O Som Amarelo)”. A Sala Polivalente do Museu do Chiado acolhe, quinzenalmente às quartas-feiras, vários músicos que se apresentam em formações, contextos e envolventes únicos.

A quarta sessão deste ciclo intitulou-se “A Luz Vem de Dentro” e reuniu um trio de músicos (Adriana Sá, Miguel Cabral e Jorge Serigado) aos quais se aliou o ilustrador António Jorge Gonçalves para uma exemplar união multidisciplinar. A essência da música resultou da complementaridade entre as explorações eléctricas e electrónicas de Adriana Sá e Miguel Cabral, num constância de intercâmbios: sugestões, trocas de ideias, contrastes. A este diálogo sonoro juntou-se o baixo eléctrico, abordado por Jorge Serigado, que introduziu alguma regularidade e que funcionou também como factor de coesão.

Em simultâneo com o desenvolvimento da música, o ilustrador António Jorge Gonçalves desenvolveu no laptop um trabalho evolutivo de desenho digital em tempo real, que foi projectado usando as paredes da sala como tela. Durante cerca de quarenta minutos o desenho - sempre em movimento, entre rabiscos e efeitos - tratou de acompanhar a mobilidade da música, nas sua progressão de cores e formas, em alusões por vezes evidentes, outras vezes difusas. A relação entre as duas formas de arte foi notoriamente visível no crescendo final, com a vertente visual a acompanhar plenamente a intensidade da exploração musical.

Se bem que a música experimental portuguesa vem revelando grande vitalidade, ainda são raros os exemplos que se distinguem pela interdisciplinaridade. A comunhão entre artes é um território abundante, com inúmeras vertentes por explorar. E esta proposta da Granular teve o dom de, mais do revelar uma combinação de música e imagem única, abrir a imaginação para um universo de possibilidades de relações performativas.
· 10 Mai 2006 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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