Linda Martini
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
07 Abr 2006
Aviso: isto não é propriamente uma crítica ao concerto dos Linda Martini na Galeria Zé dos Bois, é muitas coisas numa só. Não, não me foi possível assistir ao concerto na totalidade devido ao facto de a sala estar cheia, a abarrotar, e de ser praticamente irrespirável. E isso nunca é muito bom quando se tem uns quilitos a mais e se usa óculos. Os óculos embaciam, o suor começa a escorrer, bem, percebe-se perfeitamente, ou não? Também há que dizer que o teor deste artigo não é, nem deseja ser, misógino. É apenas honesto. E não faz sentido nenhum. Mas acho que era preciso escrever alguma coisa. Também é preciso dizer que o que está cá escrito não reflecte a opinião do Bodyspace, mas sim a minha como redactor do mesmo.


Diz-se que os Linda Martini soam muito melhor sem a voz. Que deviam ser só instrumentais e que o formato canção não lhes cai bem. Mas cai. A voz, não sendo das melhores, não tira nada do poder da música, do vai-acima-vai-abaixo das guitarras, todas as três, de vez em quando cada uma para seu lado, no caos de quem é segurado pelo baixo e pela bateria, que também sabem de vez em quando ser caóticos. A escrita de letras tem de evoluir, mas por alguma razão - e não só por serem uma das poucas bandas decentes a cantar em português - os Linda Martini conseguem encher todos os espaços pequenos em que tocam. É porque aquilo funciona. Dessa forma, estar na sala ao lado sem levar com o calor todo e o cheiro e o suor humano e essas coisas todas talvez pudesse ser o melhor meio de os ouvir: bateria a sobrepôr-se a tudo o resto, voz inaudível, guitarras abstractas.

Os Ornatos Violeta encontram os Isis e os Mogwai lá no meio. Porque Manuel Cruz é praticamente das poucas pessoas mais ou menos jovens que escreveram e continuam a escrever canções em português, em tempos recentes, porque as guitarras são algo que vêm do punk rock e do hardcore e não têm medo do metal, e porque há crescendos e catarses tanto nos temas instrumentais quantos nos temas cantados (talvez seja ainda precipitado falar de "canções", há um uso de frases fortes, mas parece sempre que o que interessa mais ali não são as palavras, mas sim a música, mas os Linda Martini hão-de chegar lá realmente, e aí é que se tornarão verdadeiramente bons em vez de apenas bons).
Gajas. É disso que fala toda a música e até toda a arte. Não é de mais nada. Isto já foi dito milhares de vezes, até por mim. Os próprios Linda Martini, apesar de terem um membro do sexo feminino, provavelmente estão na música por causa disso. Isso e pela música, mas a música é apenas ou um substituto ou uma forma de chegar lá. Não é? Provavelmente não. A verdade é esta: estavam lá muitas e, no final de contas, é isso que interessa. Ou ouvimos música porque não as temos ou não as temos porque ouvimos música ou ouvimos música para as termos. Não há nada mais simples. É sempre bom ver a ZDB cheia de gajas. Ainda por cima bonitas.

Portanto, temos uma banda cujo sucesso e forma de encher uma casa como a ZDB devia servir de exemplo para todos os palhaços da indústria musical que hoje em dia gostam muito de brincar às AFPs e a essas coisas todas, exemplo positivo, de uma banda que nasceu e se fez através da internet. E não há volta a dar-lhe. Chegou às rádios, chegou aos ouvidos das pessoas, das tais gajas, e elas quiseram ir segui-los para todo o lado. Se não fosse a internet nada disso aconteceria. Mas não, a indústria prefere ignorar estas coisas, e não é descabido pensar que, daqui a dez anos, o sucesso será atingido dessa forma. Se a AFP não conseguir perceber isso é ela que sofre. É esse o problema da indústria: ignorar que o futuro chegou.

Logo às 11 a concentração de pessoas à porta da Galeria era tremenda, cheia de adolescentes e pós-adolescentes a quem a frase "O chão que pisas sou eu" diz muito, ou a quem as guitarras altas dizem muito, ou que queriam ser vistos. Não interessa. Subia-se as escadas e havia gente, muita gente. A sala já devia estar cheia antes de o concerto começar, é impossível saber, não dava para passar. Quando começou tentei entrar, mas não deu para aguentar. Quente, quente, quente. Parecia Agosto ou uma merda assim. Por isso a imperial no bar tornava-se apetecível. O problema foi quando, após o concerto, ou mesmo durante, já que estava cheio nessa altura, a cerveja acabou. Tive de beber martini. Não foi por causa dos Linda Martini, foi porque martini é a bebida que se bebe na ZDB quando a cerveja acaba porque há gente a mais.

E é basicamente isso. A ZDB é uma sala cheia de carisma, com uma programação inigualável, mas que se torna insuportável quando enche, o que só costuma acontecer com bandas portuguesas, talvez por causa do preço (5 € contra os 7,5 € habituais para não-sócios), ou por outra razão qualquer ainda mais óbvia que me escapa agora. O que não invalida que toda a gente goste do concerto, que a banda se divirta, que toda a gente cante em coro "Amor Combate", que a banda diga umas coisas lá no meio, nada disso. Mas, no final do dia, duas ventoínhas não chegam, por muitas gajas giras que lá estejam.
· 07 Abr 2006 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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